quinta-feira, 30 de junho de 2011

O MISTÉRIO DE ATAECINA



Os deuses de outrora criaram para si um abrigo na memória das mulheres
Gauguin, Noa Noa


Se existe uma divindade da Lusitânia que, sendo quase estrangeira ao território português, pela sua parca presença de vestígios arqueológicos e, simultaneamente, tenha provocado uma grande afeição entre os que, de entre nós, procuram pelo caminho do reconstrucionismo étnico ressuscitar o seu antigo gentilismo, será sem dúvida Ataecina. Apenas foi encontrada uma ara fiável dedicada a Ataecina no espaço territorial português (ref: CIL II 71; IRCP 287), precisamente em Quintos, Beja, quase na fronteira com Espanha, sendo muito pouco para tão grande barulhenta devoção e veneração. Contudo, existem muitos autores, talvez mais inspirados pelo patriotismo do que pela objectividade científica, que têm atribuído a várias aras encontradas em Portugal onde existe o seu epíteto Dea Sancta, também propriedade de outras divindades da Península, uma ligação directa ao culto a Ataecina! Esta adesão sentimental a Ataecina só é explicável porque ela tem um Mistério à sua volta que não deixa de ter relação com aquilo que se sabe ser o traço de carácter da alma portuguesa gentílica: ser, segundo Leite de Vasconcelos, uma Deusa simultaneamente Agrária e Infernal. Assimilada algumas vezes a Proserpina pela epigrafia e interpretação extensiva das aras espanholas, ela adequa-se bem à ideia de que os povos portugueses teriam melhor vizinhança com os Mortos e seus Deuses do que com os Deuses diurnos e celestes, dispensadores da luz. Parece que para o português a Luz, tal como no rio Lucefecit, vem das profundezas do Submundo. Por isso, mesmo em pleno Verão, as suas romarias são mais sumptuosas pelas noites iluminadas de lantejoulas, candeias, balões e arcos festivos, do que pela luminosidade solar, directa e concreta. A noite é propícia ao lúdico, festivo e sagrado, tudo isso indissociável do verdadeiro sentir religioso no antigo português, enquanto o dia lembra o martírio do trabalho sol a sol.

Gilberto de Lascariz, in Deuses e Rituais Iniciáticos da Antiga Lusitânia

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A RELIGIOSIDADE PAGÃ PERTENCE AO DOMÍNIO DO CORPO E DA POESIA


“A religiosidade pagã pertence ao domínio do corpo e da poesia, do movimento sagrado e da clarividência visionária. Só essa nos interessa como caminho mágico. É ela que nos dá acesso directo ao memorial adormecido nas suas pedras, na poeira dos seus caminhos, nos seixos que repousam enigmaticamente no chão palmilhados de hieróglifos, e pelo sussurro do vento e do rumorejar do seu ribeiro.”

“Ao contrário dos gauleses, os grandes santuários dos povos lusitanos parecem não ter sido florestas mas fragas rochosas e grandiosas. O poeta romano Lucano (39-65 EC) dizia que os templos celtas eram húmidos e sombrios. Talvez porque era crença entre os Celtas que os seus deuses e o seu povo eram filhos de Dis Pater, o Grande Deus do Submundo. Embora os templos lusitanos não sejam clareiras nas florestas, encontram-se enquadrados por essas qualidades de reduto amniótico, humidade, ambiente brumoso e sombrio. Eles têm como foco de poder, não uma clareira, mas as fragas.”

“(…) cabeços e fragas, morros, colinas, montanhas e outeiros, sempre entre rochedos sinistros e belos. Por isso S. Martinho de Dume há-de atarefar-se a ameaçar com o diabo e o inferno o povo da Galiza pelo seu culto das pedras. Os rios e ribeiros, fontes e regatos, parecem ter sido o seu outro denominador cultural.”

Gilberto de Lascariz, Deuses e Rituais Iniciáticos da Antiga Lusitânia, Zéfiro
Imagem: Rocha da Mina, Alandroal