terça-feira, 19 de outubro de 2010

A HIPÓTESE DE GAIA


A TERRA COMO ORGANISMO VIVO
James E. Lovelock

A ideia de que a Terra é viva pode ser tão velha quanto a humanidade. Os antigos gregos deram-lhe o poderoso nome de Gaia e tinham-na por deusa. Antes do século XIX, até, mesmo os cientistas sentiam-se confortáveis com a noção de uma Terra viva. Segundo o historiador D. B. Mclntyre (1963), James Hutton, normalmente conhecido como o pai da geologia, disse numa palestra para a Sociedade Real de Edimburgo na década de 1790 que considerava a Terra um super organismo e que seu estudo apropriado seria através da fisiologia. Hutton foi mais adiante e fez a analogia entre a circulação do sangue, descoberta por Harvey, e a circulação dos elementos nutrientes da Terra, e a forma como o sol destila água dos oceanos para que torne a cair como chuva e refresque a terra.
Essa visão holística de nosso planeta não persistiu no século seguinte. A ciência estava se desenvolvendo rapidamente e logo se fragmentou numa coletânea de profissões quase independentes. Tornou-se a província do especialista, e pouco de bom se podia dizer acerca do raciocínio interdisciplinar. Não se podia fugir de tal introspecção. Havia tanta informação a ser coletada e selecionada! Compreender o mundo era tarefa tão difícil quanto montar um quebra-cabeças do tamanho do planeta. Era fácil demais perder a noção da figura enquanto se procurava e separava as peças.
Quando, há alguns anos, vimos as fotografias da Terra tiradas do espaço, tivemos um vislumbre do que estávamos tentando modelar. Aquela visão de estonteante beleza; aquela esfera salpicada de azul e branco mexeu com todos nós, não importa que agora seja apenas um cliché visual. A noção de realidade vem de compararmos a imagem mental que temos do mundo com aquela que percebemos através de nossos sentidos. É por isso que a visão que os astronautas tiveram da Terra foi tão perturbadora. Mostrou-nos a que distância estávamos afastados da realidade...

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Imagem: Google

UMA RELIGIÃO DA SUSTENTABILIDADE


POR QUE INTEGRAR A DEUSA NA INICIATIVAS DE TRANSIÇÃO?

A crença numa divindade feminina terá sido a primeira da humanidade, possivelmente por analogia com o papel insubstituível da Mãe, enquanto criadora e sustentadora da Vida, e depois porque, como parece óbvio, terá demorado para que os homens percebessem o seu papel na reprodução da espécie…

O trabalho de arqueólogas como Marija Gimbutas e outras veio provar cientificamente a existência na Europa, durante o Neolítico, de sociedades matriarcais, ou matrifocais, prósperas e pacíficas, que cultuavam divindades femininas, até serem invadidas e conquistadas por povos indo-europeus, adoradores da espada*, que terão imposto uma nova cultura patriarcal, baseada não em valores de parceria e preservação da vida, mas nos de conquista e domínio, trazendo consigo o culto de deuses masculinos, tão exclusivistas e ferozes quanto eles.

Todas as grandes religiões da actualidade têm figuras masculinas no topo, do Cristianismo ao Islamismo, e não deve ser por acaso que temos o mundo que temos com os valores masculinos tão exacerbados (voracismo, competição, hierarquização, domínio dos mais fortes… ), conduzindo-nos directamente à destruição, se não valorizarmos a especificidade dos valores femininos do cuidar, criar, aceitar, abranger, integrar…

Curiosa e desgraçadamente estes deuses masculinos também são exclusivamente deuses do Céu, enquanto as divindades femininas estão muito ligadas à Terra. No afã de impor o culto destas divindades, cujas palavras de ordem, no caso de Jeová, por exemplo, são “Crescei e dominai a Terra”, a terra, a matéria, foi assimilada ao mal, e a aspiração ao Céu generalizou-se, numa espécie de prenúncio da sociedade virtual em que hoje vivemos, por via da televisão e do computador…

Então as grandes religiões da actualidade nunca impuseram limites para a exploração da Terra e das outras espécies, etnias e género, considerad@s inferiores.

Pelo contrário, a religião da Deusa, que é no fundo a nossa tradição europeia, a Wicca, ou o Paganismo, diabolizada pelo Cristianismo, com a consequente caça às Bruxas (parteiras, curandeiras e mulheres e homens sábi@s da Idade Média), é uma religião que celebra os ciclos da Natureza, sacralizando todos os seus elementos. Tudo na natureza são entidades vivas, e veneráveis. Muito na onda da Hipótese de Gaia, de James Lovelock, não? Sem aprofundar mais, já deu para perceber que esta é uma religião que serve em absoluto o Movimento de Transição. Mas não se trata duma religião de proselitismo, portanto ninguém aqui vai nunca sugerir sequer a alguém que siga os seus princípios e rituais… Nem creio que seja necessário, para honrarmos a Deusa, ou o princípio Feminino em nós (atenção que na Wicca também há um Deus…), termos esta ou aquela religião.


No meu caso, não sou ainda uma wiccana a sério, ainda terei de aprender muito mais sobre isso, mas tenciono fazê-lo, sobretudo graças a uma mestra que muito respeito, que é Starhawk.
Comecei o meu trabalho com a Deusa pela via dos Arquétipos do Feminino, da Psicologia Jungiana, baseada no trabalho de Jean Shionoda Bolen.

Como também sou formada no Método Louise Hay de Desenvolvimento Pessoal, inspirei-me em ambos os saberes para conceber um workshop de 10 semanas, A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER, em que trabalhamos com 12 Deusas/Arquétipos, seleccionadas entre muitíssimas outras, por considerar que, duma maneira geral, abarcam a totalidade da nossa experiência de vida enquanto mulheres.

Gostaria apenas de acrescentar, até porque há por aqui, felizmente, muitos homens, que o mesmo trabalho se pode fazer com homens, partindo dos Arquétipos do masculino (ver “Os Deuses em Cada Homem”, de Jean Shinoda Bolen, por exemplo). Não o faço eu por achar que cabe aos homens descobrirem e valorizarem o que é isso de ser um Homem, assim como apenas às mulheres compete descobrirem e valorizarem o que significa ser uma Mulher. Quando ambos os géneros se conhecerem melhor e se valorizarem e respeitarem enquanto tal, vai ser muito mais gostoso estarmos juntos, de certeza…

*“O Cálice e a Espada”, Riane Eiseler, Via Óptima
Imagem 1: a deusa grega da Terra, GAIA
Imagem 2: James Lovelock, "pioneiro no desenvolvimento da consciência ambiental", autor de "A Hipótese de Gaia"