quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

CAROL CHRIST: VOLTAR A CRETA


Carol Christ: algumas considerações sobre a Deusa e a Grécia na minha vida
Carol Christ (Ph.D. Yale University, 1974)

Comecei a interessar-me pelo feminino e religião no tempo em que eu era umas das raras mulheres a fazerem uma pós-graduação em Estudos Religiosos na Universidade de Yale, nos anos 60. Quando lia nas obras dos teólogos considerados “grandes” que a mulher está para o homem como a alma está para o corpo, que as mulheres têm capacidades racionais inferiors às dos homens, que o homem deve ter a iniciativa, precedência e autoridade sobre a mulher e coisas do género. Apercebi-me então de que havia algo de errado com as religiões tradicionais e que as imagens de Deus Pai, Filho, Senhor e Rei eram parte do problema. Como disse Mary Daly, se Deus é um homem, então o homem é Deus.

Inicialmente as antigas imagens da Deusa não me interessaram. Atena era uma guerreira que sempre emparceirava com os homens. Afrodite era um objecto sexual, e por aí fora. Entretanto, depois de muita pesquisa, ajudada por outras mulheres, comecei gradualmente a perceber que para lá das conhecidas Deusas do patriarcado existia uma outra Deusa muito mais antiga. A Deusa da velha Europa e da antiga Creta representava a unidade da vida na natureza, com toda a diversidade das suas formas, e os poderes do nascimento, morte e regeneração. Na religião da Deusa a morte não é temida, mas antes entendida como parte da vida, seguida pelo renascimento e renovação. Nós não somos a 'senhora' que domina a natureza e todas as criaturas. Ao contrário, estamos tod@s interligad@s na teia da vida.


Na velha Europa e na antiga Creta, as mulheres eram respeitados pelo seu papel na descoberta da agricultura e na invenção das artes da tecelagem e cerâmica. Os homens eram valorizados pela sua contribuição na agricultura, comércio e navegação dos rios e mares. A guerra era desconhecido ou raramente praticada. Apesar de ter vivido em épocas mais violentas, Safo lembra "como os graciosos pés das raparigas cretenses dançaram uma vez em torno dum altar ao amor" e escreveu que "aquilo que se ama" deve ser mais valorizado do que corpos mutilados, a infantaria e os navios de guerra.

Ao viajar por Creta, procuramos conectar-nos com essas mulheres do passado, com um tempo e um lugar onde as mulheres se sentiam à vontade no seu corpo, honrado e reverenciado, não subordinado a quem quer que fosse. Buscamos o conhecimento de uma época em que homens e mulheres se reuniam livremente, sem os fantasmas de dominação e controlo, auto-desprezo e vergonha, que têm marcado a relação entre os sexos durante milhares de anos. Descobrimos que as pedras antigas falam.

Ao descendermos às cavernas sentimo-nos enraizadas na Mãe Terra e na certeza do poder do nosso corpo de mulher. Procuramos curar as feridas do patriarcado, a violência e a guerra. Esperamos participar na criação de culturas pacíficas e ecologicamente equilibradas, nas quais cada homem e mulher, cada criatura e cada coisa viva é respeitada e reverenciada pela sua contribuição singular para a teia da vida.

http://www.goddessariadne.org/carolwords.htm

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