terça-feira, 19 de outubro de 2010

UMA RELIGIÃO DA SUSTENTABILIDADE


POR QUE INTEGRAR A DEUSA NA INICIATIVAS DE TRANSIÇÃO?

A crença numa divindade feminina terá sido a primeira da humanidade, possivelmente por analogia com o papel insubstituível da Mãe, enquanto criadora e sustentadora da Vida, e depois porque, como parece óbvio, terá demorado para que os homens percebessem o seu papel na reprodução da espécie…

O trabalho de arqueólogas como Marija Gimbutas e outras veio provar cientificamente a existência na Europa, durante o Neolítico, de sociedades matriarcais, ou matrifocais, prósperas e pacíficas, que cultuavam divindades femininas, até serem invadidas e conquistadas por povos indo-europeus, adoradores da espada*, que terão imposto uma nova cultura patriarcal, baseada não em valores de parceria e preservação da vida, mas nos de conquista e domínio, trazendo consigo o culto de deuses masculinos, tão exclusivistas e ferozes quanto eles.

Todas as grandes religiões da actualidade têm figuras masculinas no topo, do Cristianismo ao Islamismo, e não deve ser por acaso que temos o mundo que temos com os valores masculinos tão exacerbados (voracismo, competição, hierarquização, domínio dos mais fortes… ), conduzindo-nos directamente à destruição, se não valorizarmos a especificidade dos valores femininos do cuidar, criar, aceitar, abranger, integrar…

Curiosa e desgraçadamente estes deuses masculinos também são exclusivamente deuses do Céu, enquanto as divindades femininas estão muito ligadas à Terra. No afã de impor o culto destas divindades, cujas palavras de ordem, no caso de Jeová, por exemplo, são “Crescei e dominai a Terra”, a terra, a matéria, foi assimilada ao mal, e a aspiração ao Céu generalizou-se, numa espécie de prenúncio da sociedade virtual em que hoje vivemos, por via da televisão e do computador…

Então as grandes religiões da actualidade nunca impuseram limites para a exploração da Terra e das outras espécies, etnias e género, considerad@s inferiores.

Pelo contrário, a religião da Deusa, que é no fundo a nossa tradição europeia, a Wicca, ou o Paganismo, diabolizada pelo Cristianismo, com a consequente caça às Bruxas (parteiras, curandeiras e mulheres e homens sábi@s da Idade Média), é uma religião que celebra os ciclos da Natureza, sacralizando todos os seus elementos. Tudo na natureza são entidades vivas, e veneráveis. Muito na onda da Hipótese de Gaia, de James Lovelock, não? Sem aprofundar mais, já deu para perceber que esta é uma religião que serve em absoluto o Movimento de Transição. Mas não se trata duma religião de proselitismo, portanto ninguém aqui vai nunca sugerir sequer a alguém que siga os seus princípios e rituais… Nem creio que seja necessário, para honrarmos a Deusa, ou o princípio Feminino em nós (atenção que na Wicca também há um Deus…), termos esta ou aquela religião.


No meu caso, não sou ainda uma wiccana a sério, ainda terei de aprender muito mais sobre isso, mas tenciono fazê-lo, sobretudo graças a uma mestra que muito respeito, que é Starhawk.
Comecei o meu trabalho com a Deusa pela via dos Arquétipos do Feminino, da Psicologia Jungiana, baseada no trabalho de Jean Shionoda Bolen.

Como também sou formada no Método Louise Hay de Desenvolvimento Pessoal, inspirei-me em ambos os saberes para conceber um workshop de 10 semanas, A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER, em que trabalhamos com 12 Deusas/Arquétipos, seleccionadas entre muitíssimas outras, por considerar que, duma maneira geral, abarcam a totalidade da nossa experiência de vida enquanto mulheres.

Gostaria apenas de acrescentar, até porque há por aqui, felizmente, muitos homens, que o mesmo trabalho se pode fazer com homens, partindo dos Arquétipos do masculino (ver “Os Deuses em Cada Homem”, de Jean Shinoda Bolen, por exemplo). Não o faço eu por achar que cabe aos homens descobrirem e valorizarem o que é isso de ser um Homem, assim como apenas às mulheres compete descobrirem e valorizarem o que significa ser uma Mulher. Quando ambos os géneros se conhecerem melhor e se valorizarem e respeitarem enquanto tal, vai ser muito mais gostoso estarmos juntos, de certeza…

*“O Cálice e a Espada”, Riane Eiseler, Via Óptima
Imagem 1: a deusa grega da Terra, GAIA
Imagem 2: James Lovelock, "pioneiro no desenvolvimento da consciência ambiental", autor de "A Hipótese de Gaia"

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