quinta-feira, 12 de agosto de 2010

MULHER PODEROSA PROCURA HOMEM PODEROSO



PROJECTO DE CRIAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS HOMENS PORTUGUESES

Um homem, com o devido respeito, terá gostado tanto do meu texto sobre compostagem que me convidou para escrever outros do mesmo género para a associação de mulheres portuguesas que ele próprio criou. Uma associação devidamente acreditada pelo sistema. Muito bem. Confesso que o meu ego, até a estranheza se instalar, gozou o seu pedaço. O máximo.


Quando a estranheza se instalou, foi assim: o que pode levar um homem a criar uma associação de mulheres? Ah, ele disse-me que o seu objectivo era prestar homenagem às mulheres portuguesas. Bem merecem, lá nisso estamos de acordo.
E este senhor, com o devido respeito, não é o único. Já me cruzei no Facebook com alguém que apresentava no seu curriculum a criação de sete grupos, sendo o primeiro deles Mulheres
Poderosas. Ena! Poder outorgado por ele, certamente… (não, não vou falar dos atributos físicos do senhor… mas sim, era muito giro…).

Ajudem-me agora, por favor, a montar o cenário ao contrário para ver como fica. Então, eu, mulher, crio a Associação dos Homens Portugueses com o objectivo de lhes prestar homenagem. Que tal vos parece? Compram a ideia? Querem levar a coisa para a frente? E depois, o que é que eu faço? Convido os meus amigos que escrevem bem para escreverem textos à medida dos meus gostos? Ai, ai, ai… que eles mandavam-me logo fava, porque, inteligentes, prezam muito a sua liberdade de expressão na qual não admitem a mais pequena beliscadura… Continuando, a seguir crio o Movimento dos Homens com Cancro da Próstata e depois convido todos os homens que conheço para aderirem à minha associação? Faço?

” Não te metas nisso – já vos estou a ouvir -, não tem sentido nenhum e ainda te podes dar mal”. Ok, já percebi.
É que os homens não são nenhuns bonzinhos, vitimizados e carentes de validação do género oposto. Eles já vivem num sistema que idolatra o masculino, são os donos do sistema, que foi feito à sua imagem e semelhança, e não me reconhecem qualquer autoridade nem competência para os representar. E fazem muito bem, porque é exactamente isso que eu penso em relação a eles.
Ah, e iam perguntar-me, que na sua grande maioria não são parvos nenhuns, “O que é que tu
sabes sobre ser um homem, que experiência tens da coisa para vires agora com essa da Associação dos Homens Portugueses? E, diz-nos lá, aonde queres chegar com isso, pode saber-se?”. E, claro, eu, educada na humildade (ainda bem) e na obediência (ainda mal) ficaria sem graça e nunca teria a lata de avançar com a ideia.

Mas aqueles valentões, frente a mulheres boazinhas, bonitinhas, gratas e convenientes, não têm medo nenhum e avançam: Associação de Mulheres, sendo eles homens; Associação de Sofredores, tendo eles pavor a admitir que estão a sofrer; Associação dos Choradores, tendo eles sido proibidos de verter lágrimas; Associação dos Homens que Sabem Resolver Conflitos pelo Diálogo e pela Negociação sem Perder a Autoridade, adorando eles a lei da bala; Associação dos Homens Passadores de Camisas a Ferro, tendo eles horror às tarefas comezinhas e “femininas” e à auto-suficiência; e por aí fora…

Agora a sério, vou dizer-vos um segredo que não pretendia revelar aqui, mas vejo-me forçada a isso. Sabem o que é que nós mulheres queríamos mesmo? Era ver grupos de homens que investigassem a fundo, nos anais da nossa história humana, vestígios, que os há de certeza, do que será isso de ser um HOMEM de verdade, e depois viessem ensiná-lo aos outros homens em associações, academias, universidades, assembleias de repúblicas, ginásios, clubes de futebol, centros de novas oportunidades, bares, facebooks, por todo o lado.
Este, acreditem-me que já cá ando há cinquenta e oito anos e meio e sei do que falo, é um dos mais profundos desejos da alma duma mulher, cavalheiros!
Ainda não desistimos de vocês, sabiam? São demasiado preciosos para isso. Amamos-vos demais!


Vá, com muito amor, hoje mais galhofeiro, porque uma boa gargalhada cura tudo, até desaforo…

Nota: Vou revelar ainda outro segredo. É sobre os meus textos. Não sou bem eu quem decide qual é o texto que vou escrever, é o próprio texto que, de vez em quando, aparece não sei de onde e, cheio de urgências, me diz: “Pega na caneta e escreve-me!”. Não se isto é bom ou mau. É assim.

Imagem: Hera e Zeus (ou será Juno e Júpiter?)


Um comentário:

SL disse...

Aaaaaaahahahahahaha....ainda não parei de rir!!
Abençoado texto que se manda escrever a si mesmo...