domingo, 29 de agosto de 2010

CALA-TE, QUE ESTES SENHORES PODEM NÃO NOS LEVAR A SÉRIO...


O medo de parecermos tolas, patetas, de não sermos levadas a sério, de não estarmos suficientemente preparadas, de não sabermos tudo sobre determinado assunto em que nos metemos, é um dos principais inibidores da palavra e da acção, sobretudo das mulheres com a sua longa e violenta história de repressão, cujo momento alto na nossa cultura foi a Inquisição, e que continua ainda hoje das formas mais abertas ou subtis. Parece-me até que estes terrores que carregamos no nosso “corpo de dor”, como diz Ehckart Tolle (sim, sou uma grande repetidora que se esforça por não “papaguear” muito, ou seja, por entender o sentido daquilo que está a repetir, embora provavelmente nem sempre o consiga…) fazem com que sejamos nós, as mulheres, a exercer o maior controlo e censura umas sobre as outras.

Este medo tem-nos feito permanecer quietinhas, caladinhas e arrumadinhas de volta de tachos e fogões, fraldas e biberões, catálogos de moda e mezinhas anti-celulite ou em elegantes tertúlias de intelectuais nas nossas belas torres de marfim. E a voz e o modus operandi femininos foram-se retirando do cenário da acção, deixando o campo livre à intervenção e à voz masculina, que, essa, avança de espada em riste, dizendo o que lhe passa pela real gana. Até porque “patetice” e “disparate” comem-se ao pequeno-almoço e ninguém morre intoxicado, e o que não mata engorda.

Aliás, se tod@s nós decidíssemos abrir a boca apenas depois de termos atingido a iluminação (ou a salvação), arriscar-nos-íamos a que descesse sobre o mundo um enorme silêncio, com cada um/a no seu canto, e depois sempre queria ver como é que fazíamos acontecer esta experiência a que, bem ou mal, se chama “mundo” ou “realidade”…

Lembro-me de, quando criei este meu primeiro blogue, ter acontecido publicar coisas num dia e acordar no dia seguinte apavorada e ir a correr apagá-las. E se eu estivesse a dizer asneiras? Até que me fui afoitando, por constatar que o mundo não vinha abaixo por eu abrir a boca, nem os inquisidores ou os agentes da Pide (como já me aconteceu no passado) me vinham bater à porta. O que aconteceu foi por vezes alguém ter feito um esclarecimento: “Olhe que não é bem assim, olhe que não está a ver isto ou aquilo…” e estou muito grata a essas pessoas que, em vez de demolir e arrasar, vieram acrescentar, clarificar, desenvolver, emendar ou até claramente discordar. E é assim que eu concebo a nossa saudável interacção verbal.

De resto “patetice” e “disparate” são meras opiniões de quem julga. E viva a pluralidade dos pontos de vista e a liberdade da sua expressão. Ah, e mais o nosso “direito à experiência e ao erro”!


Para concluir, vou só confessar que me apetece dar um grande abraço a mim mesma pela coragem de, “apesar do medo” (como diz o título do belo livro de Susan Jeffers), andar por aqui dizendo de minha justiça, quando tantas vezes me apetecia muito mais ler, meditar, passear, cozinhar, costurar, namorar ou pura e simplesmente ficar muito caladinha, sem fazer… NADA! Até porque quem me conhece sabe que também sou óptima na construção de torres de marfim…


Imagem: "Kim Hiding", acrílico de Kate Kretz

2 comentários:

SL disse...

Gostei de ler...isso também se passa comigo, muitas vezes por preguiça, por desconforto, por achar que "não vale a pena"... vale sempre a pena intervir e expressarmos tudo aquilo em que acreditamos. Quantos não poderão ser contagiados? :) Obrigada, Luisa.

Luíza Frazão disse...

Isso mesmo, S. Tod@s temos coisas a dizer nesta vida, temos a nossa verdade e o direito de a expressarmos é mais do que isso, é um dever...
Um beijo
Luíza