quinta-feira, 10 de junho de 2010

O São Valentim português

Tronos e cascatas
"O menino Eros grego e deus Cupido romano foi rebaptizado pela industria norte-americana, e consequentemente pelo comércio globalizado, com o nome de São Valentim. Mas o nosso, o cá de casa, chama-se ainda Santo António. A piedade popular viu na figura deste homem que viveu no séc. XIII um santo amigo e protector, fazendo dele padroeiro dos amores e casamentos e, igualmente curioso, pedindo-lhe auxílio para reaver objectos perdidos ou furtados. Eu cá acho muito mais sofisticado e enternecedor oferecer manjericos com cravos e quadras declarando os gostos a quem se gosta, quando Junho aquece, que meros cartões arrebicados com corações e filetes dourados impressos a eito, no frio do Inverno. É que os manjericos, tal como os amores, e não como os cartões, devem ser cuidados todos os dias, sem descanso ou esquecimento, com água no prato e noites ao luar.

Outro ingrediente indispensável e mais elaborado ainda das celebrações em honra de Santo António são os altares de rua, em Lisboa conhecidos como tronos e pelo Norte como cascatas. Conta a história que o costume destes altares sazonais e públicos nasceu nos escombros do terramoto de 1755. A igreja de Santo António, junto à Sé, erguida, segundo a lenda, no lugar da casa onde nasceu Fernando de Bulhões, o homem que hoje conhecemos como Santo António de Lisboa, ruiu quando a cidade tremeu. E foi para arranjar fundos para a sua reconstrução que se começaram a fazer pequenos altares pelas ruas, pedindo “uma moedinha para o Santo António”. A igreja foi reconstruída, mas tão eficaz era a forma de peditório que a tradição perdurou pelos séculos seguintes nas ruas da capital. Às janelas, nas soleiras das portas, no topo de um caixotinho ou sobre um mísero banco (como ilustra a maravilhosa fotografia de Benoliel, datada de 1909, no Arquivo Fotográfico de Lisboa, consultável on line), lá surgem por sete dias, decorados por graúdos e acompanhados por miúdos pedinchões, os tronos ao santo douto e bom, e nosso também. Com um santinho no topo da escadaria, decorada com recortes de papel brilhante e colorido, e adornado por flores, lamparinas e manjericos cheirosos.


Eu, que nunca tive qualquer espécie de educação religiosa e cresci sempre a achar mais plausível ter sido o Homem a criar Deus e não o oposto, adoro altares. Em todos os países do mundo, fixo fascinada estas construções sentimentais, sejam os altares macabros do dia dos Mortos no México, as casinhas perfumadas de jasmim fresco nas ruas de Banguecoque ou os lingam sexuais hindus cobertos de flores e pós em cores intensas na Índia. Afinal, apenas a materialização dos anseios e medos dos homens, uma organização de símbolos decorativa, criativa e pessoal. Tão universal quanto lisboeta.

É por isso que nunca falho o meu altar doméstico de Santo António, num vão de janela, pedido vão ou talvez não de protecção e desejo de festa no fundo do coração.

Catarina Portas, Público, 09/06/2007

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