segunda-feira, 7 de junho de 2010

Foi você que disse que amava a natureza?


Gosto de viver num local que conjuga razoavelmente bem a vertente rural e a urbana, e como muitas outras pessoas, sobretudo agora que os dias estão bem mais longos, procuro fazer diariamente a minha caminhada. O meu trajecto é sempre o mesmo, porque já me afeiçoei ao local e porque adoro ver como a vida vegetal (e animal) evolui à medida que as estações se sucedem: agora são as flores de malva que salpicam toda a paisagem; mais esparso, encontramos o hipericão; os orégãos já se podem colher; a roseira brava floriu há algumas semanas e a flor da silva lembra-nos que lá para agosto haverá amoras por todo o lado…

Nenhum programa do National Geographic, ainda que fosse em 3D, nos poderia proporcionar tamanho preenchimento e alegria dos sentidos. Quando frequentamos regularmente a natureza, não podemos deixar de amar a natureza e… de sofrer com tudo aquilo que vemos pô-la em risco. Constantemente. Pois como todos sabemos, os riscos que a natureza corre, que é o mesmo que dizer aqueles que nós corremos, uma vez que dela estamos estreitamente dependentes, são inúmeros. Uns mais justificáveis do que outros, sem dúvida. É o tal “desenvolvimento sustentável”, embora o bom senso nos diga que seria melhor irmos pensando num “decrescimento sustentável”…

Durante anos, caminhei por uma estradinda secundária, à beira da qual nasciam, cresciam, floriam, largavam a sua semente e dignamente morriam várias ervas, plantas antigas e veneráveis, pelas funções que já desempenharam, pelas narrativas em que já participaram, por fazerem parte integrante desta paisagem. Todas elas com seu nome próprio e suas propriedades devidamente conhecidas e registadas.

Pois a verdade é que há dias que ando a tentar perceber porque estão agora todas mortas. Mortas prematuramente. Devia dizer-se “assassinadas”, não? Queimadas com um napalm qualquer, que obviamente, ainda nos vai calhar no prato da sopa. Os restos daquele que entretanto já inalámos ao caminhar pela cena do crime. E o pior é que não havia qualquer necessidade de “limpar” bermas minúsculas de estradas onde apenas circulam alguns carros, raros ciclistas e ainda mais raros caminhantes. Uma dessas espécies era a orquídea selvagem, uma espécie protegida, que ainda em maio era abundante naquele sítio.

O curioso é que esta “limpeza” deixou ainda mais visível todo o verdadeiro lixo que junca a berma da referida estrada, composto essencialmente por embalagens de plástico, que ou escapou às brigadas do Limpar Rio Maior ou já para lá foi lançado depois de 21 de março.

Connosco embasbacados à frente da televisão ou dum farmville qualquer, a voracidade de certas forças que por aí andam fica livre e à vontade para fazer o que quer e lhe apetece do planeta...

Nas imagens, e
rva de Maio deste ano, com orquídeas selvagens, e o estado em que se encontra agora a erva, vendo-se muito bem nos rebentos da pequena árvore os estragos provocados pelo (presumo) herbicida utilizado.

Um comentário:

Brasil Desnudo disse...

Lindo seu blog e, a matéria postada mostra que, sem ela, a Natureza não somos nada. Apena um vazio.

Meus parabéns pelo tema e o blog

LINDO!

marcio RJ