quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ser fiel a uma grandeza



“… foi dado ao matemático russo Grigoriy Perelman o Pr
émio Milénio do Instituto de Matemática Clay, destinado aos eleitos que resolvam qua
lquer dos transcendentes problemas que estão em aberto, ditos “as sete maravilhas da Matemática”.

Foi o que o russo fez ao demonstrar a complexa Conjectura de
Poincaré, enunciada pelo matemático francês, em 1904, na área da topologia, que trata das formas tridimensionais e das propriedades estruturais dos objectos.

Perelman não aceitou a Medalha Fields, o Nobel da Matemática, que lhe foi atribuída há quatro anos, e agora recusou o Prémio Milénio e o seu milhão de dólares. Explicou que não precisa nem de dinheiro nem de fama.

Este duplo desdém por aquilo que toda a gente procura reforçou-lhe a fama de “génio doido”. Quando os jornalistas lhe telefonaram, enfureceu-se, pois estava a colher cogumelos. Perelman vive, com a mãe idosa, num apartamento de um modesto bairro de São Petersburgo. Distraído e excêntrico, faz aquilo que ninguém faz (solucionar problemas quase impossíveis) e não faz aquilo que toda a gente faz (tomar banho, pentear-se, cortar as unhas, dizer banalidades, ser convencional e conformista).

As fotografias mostram
-no barbudo, hirsuto, desgrenhado, selvagem. Parece um pope ortodoxo; ou um homeless. Mas vê-se-lhe nos olhos uma inteligência rara e bondosa. Toca violino, joga ténis, tem uma cabana na floresta, é pouco quotidiano e totalmente desinteressado dos bens materiais.

Um instinto certo desvia-o do injusto, do falso e do inútil.


Este J.D.Salinger da matemática defende a sua privacidade com unhas e dentes. Quer o tempo para aquilo de que gosta e não gosta de o perder. Distrai-se do que não lhe interessa para não se distrair do que lhe interessa.

No centro do Inverno russo, na velha casa de São Petersburgo, insensível ao frio que vem do Báltico e num silêncio atravessado pelas rezas maternas aos ícones iluminados pela lamparina vacilante, vejo Grigoriy Perelman fazendo os seus cálculos e, com uma inteligência que persegue Deus, conceber a forma do Universo.

Neste tempo pequeno, que mais avalia o que menos vale, encontro alegria em saber que ainda há gente fiel a uma grandeza, exacta como um teorema, feita de números que não servem apenas para contar dinheiro ou medir riqueza.”


José Manuel Santos, revista Actual, Expresso, 15 de Maio de 2010


Imagens: Google

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