terça-feira, 20 de abril de 2010

"EIS A MINHA FILHA..." - LIVROS POTENCIALMENTE MUITO PERIGOSOS...

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O LIVRINHO QUE VEIO DO "CÉU" (?)

"Assim, através do processo de replicação de sistemas agora descoberto por cientistas como Vilmos Csanyi, milhões de pessoas ainda hoje se mostram incapazes de perceber o que a nossa literatura sagrada de facto afirma, e como essa literatura funciona de maneira a conservar os limites que nos mantêm
aprisionados num siste
ma dominador. Talvez o exemplo mais notável desta cegueira induzida pelos sistemas esteja no tratamento bíblico dado à violação.

No Livro dos Juízes, capítulo 19, os sacerdotes que escreveram a Bíblia falam-nos dum pai que oferece a sua filha virgem a uma turba de bêbados. Ele tem um convidado em sua casa, um homem da tribo dos Levitas, de alta casta. Um bando de desordeiros da tribo de Benjamin exige que ele saia, aparentemente com a intenção de lhe bater. "Olhai", diz o pai à turba, "eis a minha filha, uma donzela, e a sua concubina (do hóspede); trago-as agora até vós, degradai-as, e fazei com elas o que vos parecer adequado, mas a este homem não façais tal vileza."

Isso é-nos referido de passagem, como questão de pequena importância. Em seguida, com o desenrolar da história, sabemos como "o homem tomou a sua concubina e a levou diante deles, e eles a conheceram e violaram-na a noite inteira, até ao amanhecer"; como a concubina voltou rastejando até a soleira da porta da casa onde "o seu senhor" dormia; como, ao despertar e "abrir a porta da casa, e sair para seguir o seu caminho", ele tropeçou na mulher e ordenou: "Levanta-te, sigamos o caminho"; e como por fim, descobrindo estar ela morta, ele carregou o seu corpo às costas e foi para casa.
Em momento algum da narrativa desta história brutal a respeito da traição da confiança de uma filha e duma amante e do estupro e assassínio duma mulher desamparada, percebemos qualquer vestígio de compaixão, muito menos de indignação moral ou ultraje. Contudo, ainda mais importante —
e intrigante — é que a oferta do pai no sentido de sacrificar o que naquela época constituía atributo mais valioso da sua própria filha, a sua virgindade, e possivelmente também a sua vida, não violava qualquer lei. Ainda mais intrigante é que as ações que previsivelmente levaram à violação, à tortura e ao assassinato, praticados pela turba, duma mulher essencialmente esposa de um levita tampouco fossem consideradas fora da lei — e este é um livro repleto de prescrições e proscrições aparentemente intermináveis sobre o que é moral e legalmente certo e errado.

Em suma, é tão estreita a moralidade deste texto sagrado que apresenta de forma ostensiva a lei divina, que nele vemos que metade da humanidade podia ser entregue legalmente pelos próprios pais e maridos para ser estuprada, torturada ou assassinada, sem qualquer temor à punição — ou sequer desaprovação moral.
Ainda mais brutal é a mensagem duma história até hoje lida regularmente como parábola moral em congregações e aulas de catecismo em todo o mundo ocidental:
a famosa história de Lot, que, sozinho, foi poupado por Deus quando as cidades pecadoras e imorais de Sodoma e Gomorra foram destruídas. Aqui, mais uma vez segundo o Génese 19:8, com a mesma insensibilidade prosaica, no que aparentemente era costume difundido e socialmente aceite, Lot oferece as duas filhas virgens (provavelmente ainda crianças, pois naquela época as meninas casavam muito cedo) a uma turba que ameaçava dois convidados masculinos na casa. Mais uma vez não há traço de qualquer violação à lei ou qualquer expressão de indignação justiceira diante de tratamento tão anormal dispensado pelo pai às suas próprias filhas. Muito pelo contrário, como os dois hóspedes de Lot eram anjos enviados por Deus, enquanto o Senhor "fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo" pelas suas "perversões", Lot foi recompensado pelas suas! Só ele e a família foram poupados.

Segundo a perspectiva da teoria de transformação cultural, o que podemos depreender desses exemplos de moralidade bíblica e do sistema que buscava manter? Fica claro que a moralidade que impõe a escravidão sexual feminina era imposta pelos homens de forma a satisfazer as exigências económicas dum sistema rigidamente masculino em que a propriedade era transmitida de pai para filho e os benefícios do trabalho de mulheres e crianças se destinavam-se ao homem. Ela era também imposta a fim de satisfazer à exigência política e ideológica de que as realidades sociais da antiga ordem na qual as mulheres eram sexual, económica e politicamente livres, e na qual a Deusa era a deidade suprema, fossem inteiramente anuladas. Pois só através de tal anulação poderia ser mantida uma estrutura de poder baseada em rígidas categorias. Segundo vimos, não foi coincidência, em todo o mundo antigo, a imposição do domínio masculino como parte da mudança duma forma de organização pacífica e igualitária da sociedade humana para uma ordem hierárquica e violenta governada por homens gananciosos e brutais. Tampouco é coincidência, considerando-se duma perspectiva sistémica, as mulheres serem excluídas, no Antigo Testamento, dos seus antigos papéis de sacerdotisas, a fim de que as leis religiosas que passaram a governar a sociedade fossem elaboradas unicamente pelos homens. Não há coincidência tampouco nas árvores da sabedoria e da vida, outrora associadas ao culto da Deusa, serem apresentadas aqui como propriedade privada duma deidade masculina suprema — simbolizando e legitimando o poder absoluto de vida e morte, das castas masculinas dominantes sobre a sociedade, bem como de todos os homens sobre as mulheres. "


In O CÁLICE E A ESPADA - Riane Eisler (retirado do blog “Alta Sacerdotiza” e adaptado)

2 comentários:

Lebre disse...

É realmente chocante os fatos "sagrados" criteirosamente escolhidos pelo sexo masculino para serem contados nos livros para educar gerações. Nos entristece e nos faz compreender ao mesmo tempo, porque nossos pais, filhos e irmãos são tantas vezes intolerantes e egoístas.
Acredito em uma nova fase, creio nos ciclos da terra, sou mãe, e faço questão que meu filho de 15 anos tenha auto estima equilibrada para jamais sentir necessidade de rebaixar ou enaltecer demais qualquer mulher.
Desejo paz para nós... acho que isso vai levar mais mil anos, mas talvez cheguemos láh!
Abraços,
Lebre.

Luíza Frazão disse...

Nada como tomar consciência... é meio caminho andado, ou o caminho inteiro... Na verdade esses "livros sagrados" são códigos patriarcais e é bom que as mulheres vejam bem como é que ficam no meio dessas histórias todas. São essas as histórias que continuam a determinar muitos dos comportamentos predadores neste mundo...
Um abraço para você também,
Luíza Frazão