terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O SEGREDO MAIS BEM GUARDADO...

FEMININO SOLAR, MASCULINO LUNAR

"Com efeito, o mito celta da Mulher pode iluminar-se a uma outra luz se tivermos em conta ao mesmo tempo a importância dada pela psicanálise à identificação com a mãe e a recorrência do temas das filiações uterinas em todos os textos literários bretões ou irlandeses. Juridicamente, a família celta é agnatícia, mas não de modo absoluto. Os privilégios reservados às mulheres provam-no e são o testemunho duma hesitação entre a família agnatícia e a família cognática, ou seja, aquela que repousa inteiramente sobre a mulher, centro incontestado de toda a filiação e de toda a sucessão.

Esta nostalgia, pois disso se trata, da época cognática exprime-se no direito irlandês, no direito britónico e no mito em geral. Trata-se do testemunho dum recalcamento do desejo secreto de regressar ao antigo sistema, senão nos factos, pelo menos numa espécie de metafísica eivada dum erotismo muito subtil a que somente a psicanálise pode dar uma explicação satisfatória.


Dado que os celtas são, apesar de tudo, Indo-Europeus, consideremos em primeiro lugar a noção de feminilidade dos antigos Indús. O princípio feminino é chamado, na terminologia dos Veda, Shakti. Ora, parece que toda a mitologia bramânica repousa sobre o facto que a divindade masculina nada pode sozinha, e que é necessário que uma divindade feminina a complete para que haja acção. Não existe aqui um deus macho único e ciosos das suas prerrogativas. Tal deus também não existia para os outros Indo-Europeus, pelo menos nos tempos primitivos. Podemos resumir simplificadamente a teogonia védica do seguinte modo: no princípio existia Brahma, o Todo indiferenciado, o Absoluto. Mas o Absoluto, sendo absoluto, é incapaz de acção. Esta constatação hegeliana conduz à suposição duma forma relativa de divindade absoluta e indiferenciada: será Shiva. É em Shiva que se concretiza uma das faces de Brahma. Shiva é o ser relativo, mas não podemos conceber um ser sem o seu oposto – ou o seu complemento – e Shiva, que é masculino, que é o legislador característico duma sociedade paternalista, não pode efectivamente sê-lo sem lhe opor um princípio feminino pelo qual ele existe; caso contrário, ele tornar-se-ia Brahma indiferenciado e absoluto. Este princípio feminino, esta Shakti toma a imagem da antiga deusa pré-ariana Kali, ou o rosto de qualquer outra deusa: ela é a esposa de Shiva, ela é etimologicamente “a energia em acção, o dinamismo do tempo”. Shiva está sentado em contemplação interior, fora do tempo e portanto do espaço. Ele é pois o lado passivo da eternidade. E é Shakti que o põe em movimento: a deusa é por consequência o aspecto activo da eternidade.


Para melhor compreendermos, os papéis estão invertidos. Os homens, que se julgam os dominadores do mundo e os reguladores da ordem estabelecida, não imaginam por um instante que o seu poder não é senão passividade e que o poder da mulher, que eles desprezam (mas que também temem e invejam), é o poder activo. Assim se explica que em algumas línguas que conservaram a lembrança de épocas anteriores, o germânico, o celta e o semita, para não falar senão destas, o sol seja feminino e a lua masculina. O Sol representa com efeito o calor activo que se derrama sobre o mundo e que dá vida à Lua, astro estéril que não é fecundado senão pelo Sol. No folclore do mundo inteiro, contam-se histórias a propósito da Lua que engravida as mulheres, advertem-se as mulheres para não urinarem diante da Lua, estabelece-se uma relação entre a Lua e o ciclo menstrual. Este último ponto é de resto muito importante, pois ele indica os períodos de fecundidade da mulher: o que significa que a fecundidade feminina solar precisa do seu contrário lunar, contrário passivo e frio. Isto não é senão um raciocínio dialéctico, mas a história de Tristão e Isolda que fez as delícias de todas as exegeses do amor ocidental, baseia -se nesta oposição (…).


Não é preciso referir que a concepção de Shakti, princípio activo da divindade está na origem das numerosas representações de uniões sexuais nas fachadas dos templos bramânicos: todas essas representações evocam, em diversos graus, a união de Shiva e de Shakti. Trata-se do hierosgamos, para o qual tendem inconscientemente todas as criaturas, por sentirem que desta união nasce a maia, o mundo da ilusão, o que significa claramente para um Europeu, o mundo das realidades aparentes, ou ainda o mundo da relatividade.


É para este hierosgamos que tendem todos os heróis das epopeias celtas (…). Porque o herói, mesmo tratando-se dum herói de cultura, e portanto dum herói de ordem masculina, é a imagem de Shiva: nada pode fazer sozinho. Ele não é senão passividade.


É por essa razão que descobrimos nas lendas celtas uma identificação do filho com a Mãe. A identificação do filho com a mãe, como a do amante com a amante, é uma espécie de hierosgamos. Daí provêm todos os estranhos casais da mitologia antiga: Mabon e a sua mãe Modron, depois Owein-Yvain e a sua mãe Modron; Rhiannon e o seu filho Pryderic (…). O casal constituído pela mãe e pelo filho, demasiado chocante e provocador numa sociedade paternalista, foi substituído pelo casal dos amantes no qual se produz entretanto a mesma identificação. O amor que une dois seres como Tristão e Isolda, como Diarmaid e Grainé, como Étain e Mider, é a peripécia simbólica pela qual os amantes acedem à natureza divina: o tema, já muito antigo, é o do mortal que obtém os favores da deusa e por consequência acede ao estádio do divino, sendo a deusa simbolizada pela Mulher Amada, a Amante Ideal, a Amante fatal, a Fada de múltiplas faces, aquela que é cantada pelos trovadores, a Senhor todo-poderosa e soberana."


Jean Markale, “La Femme Celte” (traduzido por mim)


Imagem: Google

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