domingo, 31 de janeiro de 2010

A Festa do Sentir


No próximo fim-de-semana, na Batalha, onde apresentarei, no sábado às 17 horas, o Método Louise Hay.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

CONFISSÕES DUM SOLDADO AMERICANO - HAJA ESPERANÇA!

Quando o masculino desvogernado, sem a graça e a inspiração dum feminino subjugado e silenciado, governa o mundo:

"Tentei sentir orgulho no meu trabalho, mas tudo o que na verdade sinto é... vergonha..."

(soldado americano no Iraque. E-mail enviado por Rosa Leonor, "Mulheres & Deusas")



Clique sobre a imagem.





Imagem: Google

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Fim-de-semana xamânico na Quinta da Mãe Terra, em Olhão


Na nossa vida, as experiências mais fortes acontecem muitas vezes assim, quando menos se espera, e sobretudo quando vencemos o comodismo e o entorpecimento geral e ousamos enfrentar desafios, alargar as nossas zonas de conforto. “Ousar” é a palavra de ordem se queremos de facto alcançar novos patamares.

Disseram-me que era uma despedida, do local, e que por isso estariam lá reunidos vários xamãs (qualquer imagem folclórica que lhe venha à cabeça, substitua pela do “boy/girl next door”…), que o preço, por ser despedida, era especial. E eu fui assim naquela… Até agora o xamanismo não me interessava tanto que valesse um fim-de-semana no meio do nada, longe dos meus múltiplos interesses e afazeres habituais. E também, já fiz tanta coisa, tanto curso, workshop… Mas fui.


E logo na primeira noite, 3 horas e 40 minutos (diz quem contou) de sauna sagrada, uma experiência limite na qual aprendi, entre outras coisas, a “respiração da confiança” (digo eu, isto não é nenhum nome científico…). É simples: ou confias (em ti, na tua força e no teu poder, no que está para além de ti, da tua força e do teu poder…) ou morres, passe o exagero. Se permites que o medo vença, não tens hipótese. Pelo menos de continuar lá dentro, porque é sempre possível saíres.

Também andámos sobre cacos de vidro e sobre brasas (para mim foi a segunda vez…).


Mas primeiro cantámos a canção do fogo e, com uma paciência da idade do ser humano, vigiámos o seu labor, até haver um braseiro suficientemente convidativo. E houve até quem tivesse dançado sobre as brasas.


Aquilo que tantas vezes vivemos como metáfora experimentámos ali literalmente…

Estamos muito habituados a esticar a mente, a fazer mil e uma elucubrações, malabarismos mentais de toda a espécie. De expressão de emoções também sabemos alguma coisa: choramos, rimos, gritamos, arrepelamos os cabelos, exprimimos o amor e a raiva com relativa facilidade (tem dias, claro…). Mas usar o corpo, está quieta… Desenvolver a coragem física, conhecer e alargar os limites deste veículo que escolhemos utilizar nesta dimensão, e saber tirar partido dele, isso é outra conversa…


Conheci pessoas fora de série, um grupo de iguais. Não senti mais liderança que a natural confiança de cada um em si próprio e, claro, a luz, a graça e a força inspiradora especiais de Eva. Sem querer cair na adulação e na bajulação, vale a pena ir ver de perto o que é que a palavra Mulher pode significar e o alcance que pode ter. Sobretudo para mim neste momento tão especial em que leio “La Femme Celte”, de Jean Markale, conhecer o casal Eva e Mike e o grupo que os rodeia teve um sabor todo especial, que será talvez difícil de partilhar convosco aqui…


Conclusão: o xamanismo é uma via… uau!...

Eva, Mike e o grupo “Saberes da Terra” – Sundary, minha querida! -, vale a pena estar atenta/o ao seu trabalho. Eu estarei, com certeza.


Fotos do grupo e minha

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SOMOS TODOS UM


Vale a pena ver este filme, em que Deepak Chopra também participa, e que retirei desde blog, porque ainda não aprendi a colocar aqui vídeos directamente. Então, clique sobre a imagem.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Lilith e Eva

"Lilith foi recalcada para dar lugar a Eva. Eva representa portanto a mulher vista, educada, modelada pelo homem. Eva está incompleta, falta-lhe alguma coisa: trata-se do aspecto Lilith que ela por vezes toma quando se revolta; o aspecto que Eva tomou, quando comeu a maçã; o aspecto que tomará a Virgem Maria ao dar à luz um filho que se revoltará contra o pai e imporá uma nova lei, o Evangelho (a boa nova) do Filho (e da Mãe). Assim se processa a passagem do Judaísmo (Paternalismo) ao Cristianismo primitivo (Maternalista), que será imediatamente recuperado pelas autoridades Patriarcais e desviado dos seus verdadeiros objectivos.

Com efeito, Eva, a mulher, encontra-se alienada. Ela não possui por inteiro a sua personalidade. Ela não será mais que a forma castrada (de Jeová e de Adão) e não a imagem da parte feminina de Deus. Deste modo, a representação duma forma do desejo, duma metade da ex-potência divina absoluta é afastada, e torna-se tão silenciosa como a vagina duma rapariguinha. Eva é a mulher muda, a sombra da mulher, quase um fantasma. A mulher real é Lilith. E no mito celta, Blodeuwedd, nascida das flores – é este o sentido do seu nome –, não é senão uma sombra de mulher: é uma criação artificial do espírito macho de Gwyddyon, não passa dum reflexo castrado do homem.


Mas quando se revolta, ela abandona o seu aspecto Eva para assumir o de Lilith e deixa de estar alienada. Nascida das flores e ligada à terra no passado, torna-se agora ave nocturna, podendo assim aparecer a qualquer homem durante a noite, ou seja, enquanto o sono permite ao inconsciente que ela surja nos seus sonhos.


Na verdade, qualquer homem, insatisfeito no fundo de si próprio, e sem ousar admiti-lo, sonha com Lilith-Blodeuwedd, a única que poderia satisfazer o seu desejo de infinito, uma vez que a Eva que ele tem ao seu lado não é mais do que uma caricatura da feminilidade, embora tenha sido ele quem assim a quis."


La Femme Celte, Jena Markale, Petite Bibliothèque Payot

.................................................................................................................................................................


Uma explicação do mito de LILITH, a primeira mulher a ser criada:


1. O GÊNESIS


Quem se debruça atentamente sobre o texto do Génesis para ler o mito hebraico da criação do Homem, há de perceber a presença de duas narrativas distintas.


No capítulo 1 do livro, IHWH cria, no "último dia da Criação", o primeiro casal de humanos: homem e mulher são criados juntos, num mesmo momento, da mesma maneira.


No capítulo 2, o homem é criado primeiro, enquanto a mulher só nasce posteriormente, a partir de uma costela do macho.


Alguns estudiosos judeus tentaram explicar a contradição sugerindo que o Génesis mostra ter havido duas criações: na primeira, IHWH criou os seres humanos em geral; na segunda, criou um homem especial, seu predileto, do qual derivou a "raça adâmica", ou seja, os hebreus.(1)


Mas os historiadores que pesquisam a chamada História Bíblica, preferem identificar nessa incongruência a presença de duas fontes diferentes, que se teriam amalgamado no Livro do Génesis.


Essa é uma explicação razoável e muito se poderá dizer em seu favor.


Mas há outra possibilidade, não menos aceitável, que dispensa o apelo a uma "segunda fonte".


Ler mais em:


http://astartelilly.blogspot.com/2008/12/lilith-e-bblia-gnesis.html


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

APOIO AO HAITI


Uma tragédia de proporções gigantescas abateu-se na terça-feira sobre uma parte já tão fragilizada do mundo. Todos os dias vemos imagens de extrema desolação nos meios de comunicação, perante as quais se agudiza o nosso sentimento de impotência. Sim, acredito que o ser humano é muito mais luz do que sombra e que nestes momentos nos sentimos de facto membros de uma só família, a família humana, e que o nosso mais sincero desejo seria poder contribuir de alguma forma para que a vida retome o seu curso e para minorar o sofrimento daqueles nossos irmãos haitianos.

É sempre possível e desejável enviarmos as nossas orações (está provado que as orações são realmente muito eficazes), a nossa luz, a compaixão e o apoio sincero do nosso coração. Mas podemos também enviar alguma ajuda material, aquela que para nós for possível, através das ONG no terreno, como é o caso da AMI, fundada por esse ser magnífico que é o Dr. Fernando Nobre. Deixo aqui o NIB para a campanha do Haiti.



CAMPANHA DE EMERGÊNCIA HAITI

A AMI partiu no dia 14 de Janeiro para o Haiti com uma equipa exploratória de dois elementos, na sequência do terramoto que atingiu aquele país no dia 12 de Janeiro de 2010.

Os sobreviventes desta tragédia precisam da AMI e a AMI precisa de si.

Colabore nesta missão de emergência e ajude a AMI a reconstruir as vidas que ficaram destruídas.

Contribua para esta missão através do NIB: 0007 001 500 400 000 00672

Multibanco: Entidade 20909 Referência 909 909 909 em Pagamento de Serviços


http://www.ami.org.pt/default.asp?id=p1p8p354&l=1


Carta que Debbie Ford vai enviar ao povo do Haiti


“Aos nossos amados irmãos e irmãs do Haiti,

Os nossos corações sofrem por vós.

Para vós, que sofreis sem comida, água, cuidados médicos, um lugar para dormir ou um amigo para agarrar na vossa mão, nós oramos para que sejais salvos brevemente.

Para vós, os que estais presos dentro dos escombros sem ninguém para vos resgatar; para vós que procurais as vossas famílias e amigos, para os que estão sentados na rua ao lado de um parente morto, nós oramos para que sejam salvos em breve.

Queremos que saibam que nós nos importamos, que nós desejávamos ter os meios para poder ajudar-vos. Que nós gostávamos de poder estar mais próximos e fazer uma festa na vossa cabeça, ou levantar o betão para resgatar os vossos amados. Queremos que saibam que nós gostaríamos de poder andar para trás com o tempo e devolver-vos a vida que conhecíeis antes do devastador terramoto.

Não temos dúvida de que vocês se unirão e encontrarão a força e a coragem para se curarem e reconstruírem o vosso futuro. Mas até lá, queremos que saibam que nós vos apoiaremos e que, apesar de nunca nos termos visto e de não podermos verdadeiramente sentir a dimensão da vossa dor nem do vosso coração destroçado, nós oramos por vós noite e dia, pedindo que as nossas bênçãos se tornem nas vossas bênçãos.

Nós desejamo-vos a fé e a força para aguentarem mais um dia. A ajuda está a caminho e nós estamos todos aqui, amando-vos e em verdadeiro espanto pela dimensão da vossa coragem!”


Debbie Ford (tradução de Vera Faria Leal)


http://www.debbieford.com/ALoveLetterToHaiti

domingo, 10 de janeiro de 2010

TODA A MULHER É UMA MÃE, REAL OU POTENCIAL...

"À força de rejeitar tudo o que a feminilidade representava como solução para a angústia do homem, criou-se uma humanidade perfeitamente neurótica, pois se o rapazinho é obrigado a praticar este acto é porque não lhe vestiram na mais tenra idade uma veste feminina, como se fazia antigamente. Uma concepção estúpida e formal da virilidade impediu a continuação desta prática que, com origem em motivos inconscientes, era muito mais válida que a destruição do amor que educadores desprovidos de educação tentam levar a cabo, criando uma suposta educação sexual.


É, uma vez mais, toda a nossa sociedade que está em causa. A masculinização da sociedade conduziu a ignorar aquilo que constitui o próprio fundamento de toda a relação psicossocial, a saber, os laços afectivos que unem os membros duma mesma família, dum mesmo clã. E estes repousam muito particularmente na relação mãe-filho (rapaz ou rapariga). Suprimindo a noção de Mãe-Divina, ou submetendo-a à autoridade dum deus-pai, desarticulou-se o mecanismo instintual que estabelecia o primitivo equilíbrio. Daí provêm as neuroses e outros dramas que transtornam as sociedades paternalistas, incluindo aquelas que se consideram mais evoluídas, aquelas que pretendem, com belas palavras, atribuir à mulher um lugar de honra, um lugar escolhido pelo homem. Na verdade, o homem não pode escolher o lugar da mulher nem o seu próprio lugar face à mulher. Ele deve obedecer a uma lei inelutável, que é, para retomar a definição de Montesquieu, uma lei de natura, contra a qual a lei da razão nada pode. Esta lei de natura concretiza-se no instinto, que não é algo que possamos negar. Negá-lo, como fizeram tantos moralistas e psicólogos, antes de Freud, é abrir a via dos desregulamentos psíquicos, porque todo o comportamento se ressente do facto de não estar apoiado na lei natural.


Esta querela entre natureza e razão, que de resto sempre foi uma falsa questão, é responsável pela cegueira desta sociedade que, ao querer corrigir o instinto, cortou o ser humano daquilo que era a sua natureza.


A verdade é que o instinto não se corrige. Sublima-se, transcende-se, e isso graças a uma razão que o dirige, mas que em caso algum o deve encerrar em limites estreitos e negá-lo. E o instinto assusta, porque é forte e porque é inelutável. Este estudo sistemático do princípio feminino na cultura celta tem pelo menos o mérito de trazer à luz da consciência a ideia de que o instinto é primordial, no sentido etimológico do termo, que ele é necessário, que é um factor de progresso e de evolução.


Mas o instinto tem algo de selvagem, de “bárbaro”, mesmo. E é por aí que ele atinge a “grandiosidade”. Ele é o único motor dos nossos sentimentos, da nossa acção. E, tendo em conta os nossos hábitos morais, é por vezes difícil formulá-lo e olhá-lo de frente: a verdade choca-nos. Quando ousamos afirmar que todas as relações entre homens e mulheres, quaisquer que elas sejam (conjugais, filiais ou outras) são necessariamente relações incestuosas entre mãe e filho, atraímos as mais ásperas críticas e somos tidos por obcecados. E no entanto…


O homem é, com efeito, um ser incompleto e tem consciência disso. O seu medo e a sua atracção pelo abismo negro (o nada de onde provém), o seu medo e a sua vertigem diante da morte (o nada que o espera) tornam-no um ser frágil que procura a segurança a todo o custo. Essa segurança é a mãe, tanto para o homem como para a mulher. Mas o homem, física e afectivamente, possui um meio de reentrar, pelo menos provisoriamente, na mãe. Não é preciso insistir: qualquer tendência da psicanálise já esclareceu suficientemente bem que o pénis, pequena parte do homem, mas uma parte exterior e susceptível de aumentar, constitui o substituto do próprio homem. Ele pode, portanto, em certas ocasiões, reactualizar de modo fantasmagórico o regresso ao paraíso que a mãe representa.


E toda a mulher é uma mãe, real ou potencial. O homem está portanto biologicamente sujeito à mulher, quer ele queira quer não. Ele é o conteúdo, enquanto a mulher é o continente: isso constitui um estado de inferioridade muito óbvio para o homem e ele passará depois todo o seu tempo a negar tal realidade para provar a si próprio que é superior. É assim que se explica a acção masculina, o facto dos homens serem dotados para a acção, para a violência e o combate. Esta acção é o único meio que lhes resta para tentarem afirmar-se.


E se o homem é o conteúdo, portanto um ser inferior, ele arroga-se o direito dum ser superior, mostrando que a sua força activa é a única capaz de proteger a espécie. Até conseguiu persuadir a própria mulher dessa superioridade, simbolizada pelo reconhecimento do pénis do rapazinho no momento do nascimento, feito pela mãe ou por qualquer outra mulher que ajude no parto. O famoso grito: “É um rapaz!”, repetido geração após geração, é bastante eloquente a esse respeito. Quando nasce uma rapariga, aceita-se; mas quando nasce um rapaz, rejubila-se.


No entanto, o continente, a mãe, que é o mesmo que dizer a mulher , é a própria realização do Paraíso. Ela realiza-o sob dois aspectos duma mesma realidade: ela contém o filho e o amante. De resto, como alguns psicanalistas já referiram, a vagina da rapariga não é reconhecida pela mãe, nem pelo pai, no momento do nascimento. Tal reconhecimento far-se-á, no entanto, um dia, e será o homem a efectuá-lo. Assim, para se afirmar, para tomar consciência de quem é e sobretudo do seu poder, a mulher precisa do homem. Traduzido em linguagem mitológica dá: o homem precisa duma deusa, mas a deusa precisa do homem. É esta a razão pela qual se perpetuaram, sob formas diversas, os antigos cultos da divindade feminina.


Na cultura celta, vimo-la sob os seus diferentes aspectos, ou melhor, sob as diferentes máscaras que os homens lhe atribuíram. Todos os nomes que lhe foram dados, entretanto, não nos devem fazer esquecer que se trata dum ser único, da mãe primordial, da primitiva deusa, da grande rainha dos começos."


Jean Markale, “La Femme Celte”, Petite Bibliothèque Payot (traduzido por mim)

Imagens: Google

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O SEGREDO MAIS BEM GUARDADO...

FEMININO SOLAR, MASCULINO LUNAR

"Com efeito, o mito celta da Mulher pode iluminar-se a uma outra luz se tivermos em conta ao mesmo tempo a importância dada pela psicanálise à identificação com a mãe e a recorrência do temas das filiações uterinas em todos os textos literários bretões ou irlandeses. Juridicamente, a família celta é agnatícia, mas não de modo absoluto. Os privilégios reservados às mulheres provam-no e são o testemunho duma hesitação entre a família agnatícia e a família cognática, ou seja, aquela que repousa inteiramente sobre a mulher, centro incontestado de toda a filiação e de toda a sucessão.

Esta nostalgia, pois disso se trata, da época cognática exprime-se no direito irlandês, no direito britónico e no mito em geral. Trata-se do testemunho dum recalcamento do desejo secreto de regressar ao antigo sistema, senão nos factos, pelo menos numa espécie de metafísica eivada dum erotismo muito subtil a que somente a psicanálise pode dar uma explicação satisfatória.


Dado que os celtas são, apesar de tudo, Indo-Europeus, consideremos em primeiro lugar a noção de feminilidade dos antigos Indús. O princípio feminino é chamado, na terminologia dos Veda, Shakti. Ora, parece que toda a mitologia bramânica repousa sobre o facto que a divindade masculina nada pode sozinha, e que é necessário que uma divindade feminina a complete para que haja acção. Não existe aqui um deus macho único e ciosos das suas prerrogativas. Tal deus também não existia para os outros Indo-Europeus, pelo menos nos tempos primitivos. Podemos resumir simplificadamente a teogonia védica do seguinte modo: no princípio existia Brahma, o Todo indiferenciado, o Absoluto. Mas o Absoluto, sendo absoluto, é incapaz de acção. Esta constatação hegeliana conduz à suposição duma forma relativa de divindade absoluta e indiferenciada: será Shiva. É em Shiva que se concretiza uma das faces de Brahma. Shiva é o ser relativo, mas não podemos conceber um ser sem o seu oposto – ou o seu complemento – e Shiva, que é masculino, que é o legislador característico duma sociedade paternalista, não pode efectivamente sê-lo sem lhe opor um princípio feminino pelo qual ele existe; caso contrário, ele tornar-se-ia Brahma indiferenciado e absoluto. Este princípio feminino, esta Shakti toma a imagem da antiga deusa pré-ariana Kali, ou o rosto de qualquer outra deusa: ela é a esposa de Shiva, ela é etimologicamente “a energia em acção, o dinamismo do tempo”. Shiva está sentado em contemplação interior, fora do tempo e portanto do espaço. Ele é pois o lado passivo da eternidade. E é Shakti que o põe em movimento: a deusa é por consequência o aspecto activo da eternidade.


Para melhor compreendermos, os papéis estão invertidos. Os homens, que se julgam os dominadores do mundo e os reguladores da ordem estabelecida, não imaginam por um instante que o seu poder não é senão passividade e que o poder da mulher, que eles desprezam (mas que também temem e invejam), é o poder activo. Assim se explica que em algumas línguas que conservaram a lembrança de épocas anteriores, o germânico, o celta e o semita, para não falar senão destas, o sol seja feminino e a lua masculina. O Sol representa com efeito o calor activo que se derrama sobre o mundo e que dá vida à Lua, astro estéril que não é fecundado senão pelo Sol. No folclore do mundo inteiro, contam-se histórias a propósito da Lua que engravida as mulheres, advertem-se as mulheres para não urinarem diante da Lua, estabelece-se uma relação entre a Lua e o ciclo menstrual. Este último ponto é de resto muito importante, pois ele indica os períodos de fecundidade da mulher: o que significa que a fecundidade feminina solar precisa do seu contrário lunar, contrário passivo e frio. Isto não é senão um raciocínio dialéctico, mas a história de Tristão e Isolda que fez as delícias de todas as exegeses do amor ocidental, baseia -se nesta oposição (…).


Não é preciso referir que a concepção de Shakti, princípio activo da divindade está na origem das numerosas representações de uniões sexuais nas fachadas dos templos bramânicos: todas essas representações evocam, em diversos graus, a união de Shiva e de Shakti. Trata-se do hierosgamos, para o qual tendem inconscientemente todas as criaturas, por sentirem que desta união nasce a maia, o mundo da ilusão, o que significa claramente para um Europeu, o mundo das realidades aparentes, ou ainda o mundo da relatividade.


É para este hierosgamos que tendem todos os heróis das epopeias celtas (…). Porque o herói, mesmo tratando-se dum herói de cultura, e portanto dum herói de ordem masculina, é a imagem de Shiva: nada pode fazer sozinho. Ele não é senão passividade.


É por essa razão que descobrimos nas lendas celtas uma identificação do filho com a Mãe. A identificação do filho com a mãe, como a do amante com a amante, é uma espécie de hierosgamos. Daí provêm todos os estranhos casais da mitologia antiga: Mabon e a sua mãe Modron, depois Owein-Yvain e a sua mãe Modron; Rhiannon e o seu filho Pryderic (…). O casal constituído pela mãe e pelo filho, demasiado chocante e provocador numa sociedade paternalista, foi substituído pelo casal dos amantes no qual se produz entretanto a mesma identificação. O amor que une dois seres como Tristão e Isolda, como Diarmaid e Grainé, como Étain e Mider, é a peripécia simbólica pela qual os amantes acedem à natureza divina: o tema, já muito antigo, é o do mortal que obtém os favores da deusa e por consequência acede ao estádio do divino, sendo a deusa simbolizada pela Mulher Amada, a Amante Ideal, a Amante fatal, a Fada de múltiplas faces, aquela que é cantada pelos trovadores, a Senhor todo-poderosa e soberana."


Jean Markale, “La Femme Celte” (traduzido por mim)


Imagem: Google