terça-feira, 22 de setembro de 2009

UM DEUS QUE DEBILITA A MULHER


“A religião sustenta e perpetua a organização social que reflecte. Em muitos antigos textos religiosos subsistentes, é a Deusa – e não qualquer das divindades masculinas já então dominantes – que é identificada como a entidade que deu ao povo as “dádivas da civilização” (1). Os mitos atribuindo as principais invenções físicas e espirituais a uma divindade feminina podem assim reflectir a sua real invenção pelas mulheres (2).
Uma hipótese destas é praticamente inconcebível sob o paradigma prevalecente. Pois este representa a mulher como dependente e secundária em relação ao homem, não apenas lhe sendo intelectualmente inferior como, de acordo com a Bíblia, espiritualmente tão menos desenvolvida do que o homem que lhe cabe a culpa da nossa queda do estado de graça.

Porém, em sociedades que conceptualizavam o poder supremo do universo na forma de uma Deusa, venerada como fonte sábia e justa de todos os nossos dons materiais e espirituais, as mulheres tenderiam a interiorizar uma imagem muito diferente. Com um modelo de comportamento tão forte, tenderiam a considerar ser seu direito e dever o participar activamente e tomar a liderança no desenvolvimento e uso das tecnologias, tanto materiais como espirituais. Elas tenderiam a considerar-se competentes, independentes e, com toda a certeza, criativas e inventivas. Na verdade, existem indícios crescentes da participação e liderança das mulheres no desenvolvimento e administração das tecnologias materiais e não materiais, às quais se sobrepôs mais tarde uma ordem dominadora.”

Notas (da autora):

(1) Lucy Stone, When God Was a Woman
(2) Para alguns académicos anteriores que aludiram ao contributo primordial das mulheres para as nossas principais invenções físicas e espirituais, ver Robert Briffault, The Mothers, e Erich Neumann, The Great Mother.

Riane Eisler, O Cálice e a Espada, Via Óptima, Porto