segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O CUIDAR E O PARTILHAR ENQUANTO FACTORES DE EVOLUÇÃO HUMANA

“Recuando até ao tempo em que os nossos antepassados primatas se começaram inicialmente a transformar em humanos, os académicos estão a começar a reconstruir uma visão bem mais equilibrada da nossa evolução – na qual as mulheres, e não apenas os homens, são os protagonistas. O antigo modelo evolucionário baseado no “homem caçador” atribui os princípios da sociedade humana aos “laços masculinos” necessários para caçar. Ele sustenta também que as primeiras ferramentas foram desenvolvidas pelos homens para matar as suas presas – e igualmente para matar humanos mais fracos ou concorrentes. Um modelo evolucionário alternativo foi agora proposto por cientistas como Nancy Tanner, Jane Lancaster, Lila Leibowitz e Adrienne Zihlman .

Segundo esta visão alternativa, a emergência da postura erecta necessária para a libertação das mãos não se deveu à caça, mas sim à mudança do forragear (ou comer o que vai surgindo) para a recolector e o transporte dos alimentos, de modo a estes poderem ser tanto partilhados como armazenados.

Além disso, a motivação para o desenvolvimento do nosso cérebro muito maior e mais eficaz, e o seu uso tanto na confecção de ferramentas como para processar e partilhar informação com mais eficácia, não eram os laços entre homens necessários para matar. Eram sim os laços entre mães e filhos, obviamente requeridos para a sobrevivência da descendência humana. Segundo esta teoria, os primeiros artefactos feitos pelo homem não foram armas. Foram antes recipientes para transportar comida (e crianças), assim como utensílios usados pelas mães para amolecer a alimentação vegetal dos seus filhos que, para sobreviver, precisavam tanto do leite materno quanto de alimentos sólidos.

Esta teoria é mais congruente com o facto dos primatas, bem como as mais primitivas tribos existentes, basicamente dependerem mais da recolecção do que da caça. É igualmente congruente com a prova de que a carne constituía apenas uma parte ínfima do regime dos primatas ancestrais, dos hominídeos e dos primeiros humanos. É ainda apoiada pelo facto de os primatas diferirem dos pássaros e de outras espécies no aspecto característico de serem apenas as mães a partilhar os alimentos com a prole. Entre os primatas, assistimos igualmente ao desenvolvimento das primeiras ferramentas, não para matar, mas para juntar e transformar alimentos. E entre os primatas existentes mais observados, os chimpanzés, vemos as fêmeas usando estas ferramentas com maior frequência (Nancy Tanner, On Becaming Human).”

Riane Eisler, O Cálice e a Espada, Via Óptima, Porto