domingo, 5 de julho de 2009

Ser fiel a si própria(o)...


O casamento e a sociedade

A estabilidade do casamento – a ideia de duas pessoas se ligarem para toda a vida – tem sido tão importante para a nossa sobrevivência colectiva que as nossas convicções sobre o casamento se tornaram um dos pilares da sociedade. Na verdade, o manter as nossas relações numa base equilibrada, fazer com que os nossos casamentos funcionem como unidades estáveis e fiáveis, peças que zumbem na engrenagem em movimento das nossas pequenas comunidades, é o que faz da “sociedade” o que ela é, e a sociedade é o que incita o casamento a ser o que ele é.
Para criar estabilidade social, há uma exigência não declarada, uma espécie de atmosfera ou fragrância no ar que diz às pessoas casadas para continuarem casadas, para se comportarem, para se preocuparem com as coisas mais importantes que a sociedade tem para oferecer e não fazerem nada demasiado disruptivo, como optar por viver numa comunidade, fugir com o vizinho do lado ou decidir não pagar impostos.

Mas porque essa exigência não declarada é função da nossa consciência social e não da consciência pessoal, as pessoas casadas são levadas a guiar-se por valores exteriores e a participar numa consciência genérica em vez de numa consciência individual ou visionária. Em vez de mergulharmos no mais profundo do nosso íntimo onde poderíamos encontrar a sabedoria dos nossos corações (e talvez deparar-nos com soluções sociais espantosas ou formas de relacionamento invulgares – uma relação transcontinental a tempo parcial ou um compromisso monógamo uma vez por semana, por exemplo) tornamo-nos como as ovelhas que vão andando com o rebanho. A verdade é que o casamento – como relação – foi apropriado pela sociedade e, servindo a sociedade, com frequência sufoca a alma individual.

O dever, a responsabilidade e a convenção social, se bem que importantes, muitas vezes afastam-nos da nossa ligação natural mais profunda uns com os outros – a nossa ligação sentida – e assim, ao tentar servir o todo, podemos trair-nos ou abandonar-nos a nós próprios. Em vez de procurarmos nos nossos corações, mentes e consciências as formas adequadas para as nossas relações, permitimos que os casamentos se tornem versões diluídas dos valores da sociedade em vez de uniões emocionais vibrantes que nutrem as pessoas que os partilham.
As nossas convicções sociais quanto ao casamento ainda se encontram profundamente entranhadas, mas à medida que se tornam aparentes as mudanças que atravessamos, começam a perder o seu peso. E, na verdade, para nos desenvolvermos como personalidades e almas, essas convenções têm de perder o poder. Mas as noções inerentes à nossa memória colectiva dificilmente desaparecem e todas as pessoas que vivem hoje em dia continuam a manter no íntimo a ideia de que todas as nossas relações devem ser vividas de forma semelhante ao casamento.

Como Passou a Ser Assim

Pelo menos até ao séc. XX, precisámos das convicções sociais acerca do casamento para sobreviver. Eram o reconhecimento interior das circunstâncias necessárias para que a família humana chegasse onde se dirigia. Os nossos bisavós não se questionavam sobre se iam viver em felicidade romântica, êxtase sexual ou esclarecimento espiritual nas suas relações. Engraçavam um com o outro, avançavam para o casamento e seguiam para a planície, para a Floresta Negra, para a quinta, para o celeiro ou para o campo de batalha, para fazer o que era preciso. Foi por terem assegurado a nossa sobrevivência que pudemos emergir no século XX como os seres psicológicos em que nos tornámos. Mas agora temos uma nova incumbência evolucionária e, para a pormos em prática, temos que perceber que essas noções deixaram de ser importantes.

Daphne Rose Kingma, O Futuro do Amor