segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Anestesia Geral

Nas culturas recentes dominadoras, o primeiro objectivo da cultura em si, de acordo com a actuação mais frequente das instituições culturais do governo e da religião, é tornar o cidadão não-resistente.

(…)

Do mesmo modo, a nossa cultura tecnológica encontrou uma droga para manter a docilidade.

A medida do potencial adictivo de uma droga é a percentagem de pessoas que a adoptam ou rejeitam à sua vontade e com facilidade. Este comportamento é designado por “lascar” uma droga – utilizá-la ocasionalmente, mas ser capaz de a abandonar sem sofrimento nem carência durante meses ou anos de cada vez. Uma investigação relatada pela Science News descobriu que, enquanto grandes percentagens de pessoas lascavam marijuana, e percentagens médias lascavam álcool, cocaína e até heroína, muitíssimo poucas (menos de cinco por cento) conseguiam lascar tabaco. Mas imaginemos uma “droga” da qual menos de cinco por cento dos americanos se conseguissem afastar durante um mês seguido sem qualquer mal-estar. Uma droga tal, segundo as definições de adicção, seria a droga mais fortemente adictiva jamais desenvolvida.

Para além de desencorajar o comportamento de lascar, tal droga teria igualmente de estabilizar a disposição das pessoas. Induzi-las-ia a um tal estado de espírito que se abstrairiam do aborrecimento, sofrimento ou tédio da vida quotidiana. Alteraria as suas ondas cerebrais, a sua neuroquímica, induzindo-as a pensar tranquilamente que a sua adicção não era de facto uma adicção, mas uma mera preferência. Como o alcoólico que alega beber apenas socialmente, o utilizador dessa droga proclamaria publicamente a sua capacidade de passar sem ela… mas, na realidade, nem sequer poria a hipótese de que ela estivesse ausente da sua casa ou da sua vida durante dias, semanas ou anos.

Essa “droga” existe.

Bem mais sedutora do que o ópio, infinitamente mais eficaz na modulação de comportamentos e expectativas do que o álcool, e utilizada durante mais tempo por dia do que o tabaco, o “agente intoxicante” mais invasivo e insidioso da nossa cultura é a televisão.

Muitas drogas são, afinal, um concentrado destilado de uma substância natural. A penicilina é extraída do bolor; o ópio da papoila. De igual modo, a televisão é um extracto destilado – super-concentrado como as drogas mais potentes que temos – da vida “real”. As pessoas reservam grandes porções das suas vidas para olhar para uma caixa luminosa – durante horas por dia. Confiam nessa caixa quanto à maior parte da informação sobre o estado do mundo, o comportamento dos políticos e o que é a realidade, apesar de o conteúdo da caixa ser controlado por um pequeno grupo de empresas, muitas das quais também negoceiam armas, álcool e tabaco (The Media Monopoly, Ben Bagdikian). Os nossos cidadãos acordam com esta droga, consomem-na sempre que possível durante o dia e adormecem com ela. Muitos tomam-na às refeições.

Os principais arrependimentos na vida da maioria das pessoas não se referem às coisas que fizeram, mas às que não fizeram, aos objectivos nunca alcançados, ao tipo de amante, pai, mãe que desejariam ter sido e sabem não ter conseguido ser. No entanto, a nossa cultura incita-nos a sentarmo-nos em frente de uma caixa luminosa durante dezenas (no mínimo) de horas por semana, entre centenas e milhares de horas por ano e ver assim, como que à distância, passar o tempo das nossas vidas como areia a fugir-nos entre os dedos.

Thom Hartmann, AS ÚLTIMAS HORAS DA ANTIGA LUZ DO SOL, Sinais de Fogo

Imagem: http://www.quebarato.com.br/