segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Natal em Família

Se existem neste mundo coisas que me comovem até às lágrimas, uma delas é o amor familiar, ou seja, o amor que existe entre os membros duma mesma família. Muito rebelde desde sempre, com muita necessidade de espaço e de liberdade – mas também muito ligada à minha família –, tive muitas vezes necessidade de me afastar para me conhecer a mim própria, para me exprimir e expandir como indivíduo. Tive e tenho; só que agora, estabelecidas as minhas fronteiras e o meu território, não há já propriamente necessidade de entrar em choque, o que deixa mais espaço para o amor. Mas o amor está sempre lá, mesmo quando soterrado por camadas de dor, de indignação e de revolta…

Foram as Constelações Familiares, de Bert Hellinger, que me fizeram tomar consciência da importância deste grupo a que nascemos a pertencer, uma espécie de clube vitalício do qual nunca poderemos desistir. Desistir sem sequelas graves; desistir e sermos felizes. Bert Hellinger prova-nos que, para que a nossa vida possa funcionar e o nosso destino cumprir-se da maneira mais satisfatória e vantajosa para nós e para a nossa descendência, temos de estar em paz, de aceitar e de amar a família onde nascemos. Todos os seus elementos, sem excepção – as excepções aqui saem caro demais.

A evolução da célula familiar, entretanto, processa-se hoje em dia de modo tão solto e criativo que nos força a dar saltos quânticos para nos adaptarmos à sua forma ramificada e ondulante. Ela inclui mais, abre-se mais, junta, congrega, desbloqueia. Só pode ser bom, não? É assim que, quando ouço dizer que a estrutura familiar se desintegra, não vejo assim tanto mal nisso. Deixemos que ela se dilate, inclua, aceite, adopte. A este ritmo, um dia ainda nos vamos sentir todos elementos da mesma família…

Li há muitos anos já um romance notável: “A Ilha”, de Aldous Huxley, onde o autor descrevia uma sociedade utópica na qual as crianças pertenciam a toda a comunidade. Elas entravam e saíam livremente de todas as casas, e em todo o lado eram acolhidas com muito amor, como se todos os adultos fossem os seus progenitores e portanto se sentissem responsáveis por elas. Achei lindo. Muito mais desejável do que a célula familiar asfixiante em que apenas nos interessa quem nasceu com o nosso sangue. E isso sem qualquer garantia de que, dentro das exíguas paredes do nosso lar, sejamos tratados com o devido respeito e carinho.

Tudo isto para vos contar uma história de Natal que achei muito bonita. A Manuela tem agora uma menina, a Joana, que é filha do seu actual marido, o Ricardo. Duma relação anterior, tem dois outros filhos já quase adultos, o António e a Mafalda, para quem a Joana é assim um presentinho do céu. O António vive com o pai e a Mafalda com a mãe. Neste Natal, ofereceram à Joana um presente tão sumptuoso que ofuscou todos os outros: uma moto eléctrica duma marca da moda – passe o consumismo… A prenda foi comprada pelo pai de ambos, que não sendo o pai da Joana, generosa e acolhedoramente, estendeu o seu amor à irmãzinha dos seus dois filhos.

Conseguem sentir comigo como estes gestos se assemelham a pequeninos passos que, como humanidade, estamos a dar no sentido de nos tornarmos mesmo uma só família?

27 de Dezembro 2009

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