segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O AMOR MAIOR

EXCERTO DA ENTREVISTA DADA AO JORNAL BRASILEIRO UNIVERSAL, REVISTA BEM-ESTAR, POR VERA FARIA LEAL

Universal
Amor Maior
São José do Rio Preto, 17 de Maio de 2009

Renata Fernandes

02:16 - Imprescindível. Assim é o amor. Um amor sem cobranças ou desconfianças. Sem apegos ou desesperanças. O amor que ensina as pessoas a irradiar luz. A própria luz. A luz da consciência, de Deus. O amor maior. Seria fácil ter e/ou manter esse amor se toda a humanidade se empenhasse no propósito de exterminar preconceitos, julgamentos, divisões, superstições redutoras e instabilidade interior, entre outros atos e sentimentos ruins e pejorativos. O verdadeiro poder do amor está em unir. Esses e outros ‘conceitos’ são esclarecidos na entrevista a seguir pela autora do livro “O Poder do Amor”, da Planeta Editora, Vera Faria Leal, que respondeu à revista Bem-Estar, de Portugal, por e-mail. Confira:

Bem-Estar - Qual o verdadeiro poder do amor? E qual a relação dele (do amor) com a espiritualidade?

Vera Faria Leal - Em primeiro lugar, o amor é uma lei universal: toda criação é governada por leis. Os princípios que operam no mundo físico estudados pela ciência, são as leis naturais. Por outro lado, desde sempre, todas as sabedorias e conhecimentos espirituais revelaram leis sutis que presidem ao plano espiritual e à dimensão da consciência. De acordo com essa sabedoria, a verdadeira natureza da matéria está contida nestas leis. Conhecê-las é transcender gradualmente a dualidade da realidade aparente. Vivê-las é conquistar a verdadeira liberdade interior. “Conhece a Lei e sê livre”, dizem os mestres. Ser uno com elas é assumir a nossa condição de seres espirituais a ter uma experiência humana e fundirmo-nos com o princípio primordial da vida: o amor universal. Assim, a questão será: qual o poder do verdadeiro amor? É o poder de evoluirmos e de cumprirmos o nosso propósito enquanto seres essencialmente espirituais a ter uma experiência terrena. À medida em que nos identificamos mais e mais com essa essência divina, a consciência de que somos o amor também expande, o que nos permite viver mais inteiros e mais felizes. Nesta medida, posso afirmar que o amor é um estado de consciência que varia desde um nível muito básico, de sobrevivência, em que o amor é vivido como sentimento de posse - o que eu amo é meu - até níveis cada vez mais conscientes, luminosos e livres. Quanto mais capazes de viver o amor

como adesão profunda à vida, honrando-a em nós e aprendendo a respeitar e a praticar a Lei do Amor, com tudo o que nos acontece, mais a vida fará sentido, mais um sentimento de que tudo está certo nos invade, nos bons e nos momentos mais difíceis. Vivemos cada vez mais de acordo com a Lei do Amor, quando temos menos preconceitos, julgamentos, divisões, superstições redutoras (como: eu é que tenho razão) e instabilidade interior. Assim, o poder do amor é o maior poder: se o amor é uma Lei Cósmica, que cumpre o desígnio divino de assegurar a evolução espiritual dos seres, então este amor é o motor subjacente à evolução da condição humana primordial, rumo a um estado de iluminação, de consciência crítica. Não há poder maior do que este: os eons (o tempo cósmico, milhões de anos) sucedem-se e o plano divino toma forma, independentemente do poder dos grupos políticos, económicos e militares, que, em cada época histórica pisam a terra. Por isso, amar é unir: tal é o verdadeiro poder do amor. Unir é curar, restabelecer, acreditar, é criarmos novos relacionamentos, nova vida e recriarmo-nos na crescente liberdade de sermos irradiadores de amor, à imagem e semelhança da Fonte.

Bem-Estar - Como uma pessoa sabe que ama?

Vera - A forma como amamos é dependente do nosso nível de consciência, da nossa qualidade vibratória (que é a soma da qualidade dos nossos pensamentos, intenções, emoções, atos). Se vibramos numa baixa frequência, se nos sentimos sobreviventes do amor, carentes e vazios, com medo de perder o pouco ou o nada que temos, tendemos a projetar nos outros esse vazio e passamos a chamar “amor” a essa carência. Neste estágio, o sentimento de posse é dominante: eu possuo quem amo! Nesta fase, as pessoas costumam ferir-se umas às outras “por amor”; a verdade é que se magoam mutuamente por desespero, quando quem pensavam que “possuíam” começa a revoltar-se. A esmagadora maioria dos relacionamentos humanos começa assim, com este “equívoco” que fazemos do amor. Ele é na verdade um estado interior crescente de abundância que produz estabilidade emocional, mas começamos cedo a chamar amor às nossas carências. A partir desta primeira faísca ou início de relação, o desencontro desdobra-se até ao limite (se o deixarmos e se não mudarmos constantemente de parceiro para fugir da responsabilidade de encarar os nossos medos e insuficiências). Mas é exatamente no ponto em que tudo parece correr mal, estar perdido, a paixão já terminando, quando o outro nos devolve a nossa “fealdade”, aquilo que não é bonito de ver, por meio das cobranças, desinteresse, crítica, traição, insegurança ou agressividade, que tudo pode começar. A maioria das pessoas tende, neste ponto das relações, ou a trocar de parceiro ou a afundar-se no trabalho, na depressão ou noutro substituto para o vazio. Mas o que neste ponto precisamos fazer é aprender a encarar a morte-vida-morte do amor, a necessária transformação da paixão num outro estágio da relação em que, por meio do que o outro nos espelha de nós que não é agradável, aprendemos a reconhecermo-nos, a recolher as nossas projeções ilusórias sobre o outro, a responsabilizarmo-nos pelo nosso próprio processo de individuação, de autonomia e de estabilidade emocional. Quando caminhamos no sentido da liberdade interior, da maturidade, do assumir responsabilidade por nos amarmos a nós mesmos, sentimos que o amor nos expande e acrescenta, nos torna melhores pessoas porque nos oferece a oportunidade de nos doarmos incondicionalmente, como escolha consciente e não moeda de troca para cobranças e chantagens emocionais. Quanto mais amadurecidos e firmados no autorrespeito e amor-próprio, mais o amor é uma experiência que nos liberta para os sins e os nãos, sem nos sentirmos culpados por nos afirmar; mais amamos com respeito pela liberdade de escolha do outro. Quanto mais amadurecemos no amor, mais libertamos quem amamos para o seu próprio projeto de vida, mais queremos para o outro o que for melhor para ele, mesmo que isso por vezes ainda nos traga alguma insegurança.

Bem-Estar - Qual a importância do amor na evolução espiritual de cada um?
Vera - O amor quanto mais evoluído, mais se torna uma escolha da inteligência amorosa do coração: o amor não é cego, ele relaciona-se com a qualidade de cada ser. O amor como Lei, é a evolução espiritual de cada um. O amor como vivência entre seres conduz primeiro ao processo da individuação - saber quem somos, o que queremos e o que não queremos, os preços que pagamos e aqueles que nunca mais vamos pagar, porque aprendemos um dia que é melhor pagar o preço para evoluir do que para não crescer emocional e espiritualmente. Esta experiência vem, necessariamente, por meio dos conflitos, das desilusões, das mortes para os desejos do ego e do resolver das necessidades imaturas e infantis de que o outro seja o pai/mãe que não tivemos (ou que tivemos mal). A vida nos presenteia com as desilusões necessárias para que um dia aprendamos a recolher as nossas ilusões, reconhecer as nossas falhas, limitações e vazresponsabilizar por cuidar de nós próprios. Neste processo aprendemos e crescemos muito, fazemos uma alquimia psicológica importante e esperançosamente reconhecemos e aprendemos a lidar com o que o outro sempre nos espelhou, mas que não quisemos ou não pudemos ver antes. Assim, teremos a oportunidade de integrar a nossa própria sombra, reconhecer as nossas intenções inconscientes nas relações, de nos tornarmos mais inteiros, energizados, vitais e poderosos interiormente. Em todo esse processo, afinal aquele que foi castrador ensinou-me a conquistar a verdadeira liberdade - de ser eu mesmo; aquele que me traiu ajudou-me a deixar de me trair a mim mesmo e a aprender a ser fiel ao meu próprio projeto de vida e assim por diante.

Bem-Estar - E depois de sabermos quem somos?


Vera - Depois de sabermos quem somos, um dia saberemos que somos todos um, na essência que partilhamos, nos anseios da alma que em cada um de nós anela pelo mesmo, na necessidade de expressão genuína do desejo do coração. Este processo é uma caminhada espiritual, a que o amor nos conduz numa sucessiva expansão de consciência, em que um sentido interior de unificação, propósito e doação genuína e livre de nós mesmos, nos devolve beatitude, graça, sentido para a existência. Tal é a suma importância do amor na nossa evolução espiritual.

Bem-Estar - Qual a relação entre o desapego e o amor?


Vera - O amor nos ensina a ser sóis irradiadores da luz da consciência, não meramente satélites a orbitar na dependência do outro. O apego se identifica com os níveis mais inferiores que a experiência humana faz do amor. Ele se relaciona com uma forma de amar “lunar”, imatura, em que exigimos que o outro satisfaça todas as nossas necessidades. No apego não é possível nos sentir livres para amar cada vez com menos condições, limitações e regras. Neste nível mais básico em que o apego se expressa, a segurança nos vem daquilo a que chamamos “meu”: o meu parceiro, a minha família, o meu dinheiro, as minhas posses... À medida em que a vida nos retira esta falsa segurança (um divórcio, uma doença, despedida, ou outra forma de crise) somos gradualmente convidados a experienciar uma dimensão mais criativa e começamos a aferir um sentido de segurança a partir do “Eu”. Começamos a acreditar que temos a capacidade de nos sustentar, de fazer oportunidades acontecerem, de ter amigos gratificantes... Numa terceira etapa, aprendemos, finalmente, a confiar na vida: o desapego nasce da alquimia profunda de quem fez um trabalho integral consigo mesmo: com a mente e as crenças, as emoções e os relacionamentos, os ensinamentos e a prática espiritual. Aprendemos, gradualmente, a ler os sinais por detrás da forma que os eventos tomam, decodificamos as lições a tirar do que nos sucede e compreendemos claramente que há uma intenção oculta subjacente a tudo o que acontece. Aprendemos a confiar nessa intenção, mesmo que não compreendamos logo todo o sentido do que estamos passando e confiamos que a vida nos encaminha e conspira para o nosso maior bem, de acordo com o nível de consciência que conseguimos alcançar. O desapego é este processo relacionado com uma confiança cada vez mais profunda e sólida na vida, um maravilhar ante os seus mistérios, uma rendição à sabedoria do Universo que nos criou, conduz e transforma. O desapego verdadeiro nunca se confunde com indiferença, negligência, alienação ou irresponsabilidade. Ele acontece tanto mais quanto compreendemos e vivenciamos a realidade de que não somos um corpo físico, não somos os nossos pensamentos, não somos posses nem títulos, não somos um clã nem somos os nossos relacionamentos. Por isso, não podemos fazer depender a nossa estabilidade de nenhum destes factores, embora trabalhemos com todos eles. Eles nos servem, mas não nos definem, em última instância. Porque o que nos define, no final de tudo, é o que não perece e não muda: o amor maior.

Bem-Estar - Ao mesmo tempo em que se prega a necessidade de autoconhecimento e amor-próprio, diz-se que a maturidade espiritual chega a partir do momento em que as pessoas se preocupam mais com os outros do que consigo mesmas. Como lidar com essa dualidade? O que pensa sobre isso?

Vera - Não é uma dualidade, mas um processo que integra ambos, como o dia se sucede à noite. Temos a responsabilidade de descobrir quem somos e a vida, por meio dos relacionamentos e das circunstâncias em que temos de fazer escolhas, está sempre a nos ensinar isso mesmo. A primeira regra da espiritualidade é conhecermo-nos e cuidarmos do corpo físico, que é um templo do espírito (não um túmulo do espírito!). Enquanto não aprendermos a honrar a vida em nós, aceitando-nos, respeitando-nos e amando-nos, como podemos fazer jus à sacralidade de toda a vida? Enquanto não nos amarmos e aceitarmos não poderemos receber suficiente nutrição da vida, sob diversas formas. A nossa falta de amor reverberará com a carência e a escassez e será isso que atrairemos. O universo trata-nos como nós tratamos a nós mesmos, uma vez que a vida respeita sempre o nosso estado de consciência. O ser humano tem diversas valências e aspectos que estão em diferentes níveis de desenvolvimento. Por exemplo, há cientistas com uma mente genial, mas com um desenvolvimento emocional muito deficitário. Há atletas com uma sofisticação física ímpar, mas com capacidades sociais extremamente baixas; há pessoas com sabedoria espiritual, mas com uma inteligência emocional reduzida. Os problemas surgem quando queremos dar muito de nós sem estarmos ainda preparados. Nessa altura, é comum as pessoas

usarem (muitas vezes inconscientemente) a espiritualidade como fuga ou alienação, enquanto toda a sua vida material e relacional está um caos. Há pessoas que dão porque não sabem receber e essa torna-se a sua moeda de troca para uma autoestima frágil e uma ‘vitimização’ disfarçada. Estas pessoas não dão: arrancam de si o que não têm para dar e começam a perder minerais, cálcio, ferro... é mais fácil fugir do nosso vazio e inferno pessoais desatando a dar aos outros, do que encararmos os nossos fantasmas e fazer algo sério por nós mesmos. O problema é que, a prazo, o preço disso é desastroso e pesado.

Bem-Estar - O que fazer, então?


Vera - A nossa primeira responsabilidade é para connosco e, nesta medida, somos a pessoa mais importante das nossas vidas. Só a partir de uma postura honesta e responsável perante nós mesmos será possível evoluir no todo que somos: no instintivo, no emotivo, no racional, nos valores, nos comportamentos, na espiritualidade. Não se pode dar o que não se tem e quanto mais desfrutar da vida, mais vida terá. (“Porque ao que tiver lhe será dado; e ao que não tiver, até aquilo que julga ter lhe será tirado: São Lucas 8,18”). Os mestres ensinam-nos a disciplina, as práticas espirituais, a atenção, a necessidade de ensinamentos, a gratidão pelo tanto que temos. Gradualmente, e na medida da nossa dedicação e intenção, podemos vir a dar aos outros com verdade, a partir de uma abundância interior e não de uma carência. Do meu ponto de vista pessoal, esta abundância só se consegue quando aprendemos a nutrir a nossa Alma com meditação, união com a Fonte divina. A partir de certo estágio de iniciação espiritual, vive-se cada vez mais para o serviço e a realização do plano divino sobre a terra.

VERA FARIA LEAL 2009

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