sexta-feira, 12 de junho de 2009

Benvindas ao domínio patriarcal...

Um grande autor é aquele que conhece os meandros da condição humana, quer se trate do homem, quer da mulher. Esta narrativa vale por "n" discursos sobre a formatação a que uma mulher é sujeita para encaixar no sistema...

História de Carnaval
, Jorge Amado

Maria dos Reis só se decidiu de verdade quando, depois de fechar a luz do quarto, se estirou na cama e ficou de olhos abertos espiando no escuro. Sairia mesmo, mesmo que ele se zangasse e acabasse o namoro. O namoro já era quase noivado, ele ia pedir em junho, quando o pai chegaria do interior para a solenidade do pedido oficial. Quase noiva, a família de Maria dos Reis sem fazer oposição, ele entrava em casa, cumprimentava dona Marocas e tia Clara, tomava o cafezinho das dez na sala de visitas antes de ir embora. Dona Marocas dissera-lhe uma noite em que chovia (ele, as abas do paletó suspensas, resistia heroicamente à carga d'água):

- Seu Teodoro, não quer entrar? O senhor é capaz de pegar um defluxo... Não é bom facilitar.
Teodoro entrara, meio encabulado, mas dona Marocas foi explicando:

- Eu, de mim, não sou contra. Sei que o senhor tem boas intenções, sabe que minha filha não é uma qualquer. Não vou fazer oposição. Se fosse um vagabundo, sim. Mas já tive sabendo que o senhor é um moço direito, está para tirar o seu canudo e quer pedir Maria. Não me oponho, não. Agora, uma coisa quero pedir ao senhor. É que acabe esse namoro na janela.

Atalhou o gesto que Teodoro esboçara:

- Sei que não tem nada de mais. Mas é que o finado, se fosse vivo, não havia de gostar. Ele vivia falando contra esses namoros na janela. Sempre me dizia: - "É uma falta de vergonha, Marocas, esses gabirus encostados nas janelas falando baixinho pra essas sirigaitas. Filha minha não quero que faça isso. Se o rapaz tem boas intenções, que venha conversar dentro de casa. Se não tem, então pau nele".

Teodoro concordou com um gesto com a teoria do finado. Dona Marocas continuou:
- O senhor já falou com Maria e com a mana Clara que vai pedir a menina em junho. Pois bem: eu prefiro que o senhor venha conversar aqui na sala do que essa coisa de estar encostado na janela. Não é por nada, é pela memória do finado... - ficou de repente encabulada, nem sabia como tinha falado
tanto, baixou a cabeça, empregou as mãos em amarrotar a saia preta. Foi assim que Teodoro ficou freqüentando a casa, noivo semi-oficial, esperando o pai que vinha em julho para o pedido.

O casamento seria depois dele formado e nomeado promotor de uma cidadezinha qualquer. No princípio do outro ano. Maria dos Reis já tratava do enxoval, comprava rendas e sonhava o casamento na igreja, a grande cauda do vestido arrastando, as amigas jogando flores, o padre tomando das alianças.

Mas o Carnaval se aproximava. Fazia um ano, ela saíra numa prancha, Felizes Borboletas, saíra linda, linda, era a mais linda na mais linda prancha. Fora aí que começara o namoro com Teodoro, que fazia o corso num carro de estudantes. As Felizes Borboletas eram uma criação da família Cordeiro, cinco moças alegres e uma mamãe mais alegre ainda. Naquele tempo, o Carnaval da Bahia era feito principalmente pelas pranchas, bondes enfeitados de flores e papel, lotados de moças fantasiadas que corriam todos os itinerários dos trilhos, levando a alegria a todas as ruas e arrastando atrás de si os autos dos rapazes elegantes. Havia prêmios para as pranchas mais animadas e para as mais belas. Cinco anos eram passados desde que, pela primeira vez, a família Cordeiro fizera a prancha das Felizes Borboletas. E nesses cinco anos por duas vezes a prancha tirara o prêmio de beleza, por outras duas o de animação, perdendo uma única vez devido "à mais elevada injustiça jamais praticada sob céus da Bahia", como afirmava Reinaldo dos Santos Ferreira, amigo da família e pai de duas das felizes borboletas.

Maria dos Reis, quando viera morar naquela rua, ficara amiga de Antonieta Cordeiro e das suas quatro irmãs. Mas principalmente de Antonieta, que era uma simpatia de morena, alegre e viçosa, namoradeira como ela só, dona da risada mais clara de todo o Largo 2 de Julho. Fora assim não só membro como uma das mais ardentes animadoras e entusiastas das Felizes Borboletas naquele ano. E, como era esguia e pálida, a fantasia foi-lhe muito bem e divertiu-se imenso nos dois primeiros dias. No terceiro, já de namoro forte com Teodoro, a alegria foi diferente, um pouco menos ruidosa, porém mais densa. Terminaram dançando até de madrugada na casa dos Cordeiros, festejando o prêmio. Teodoro dissera-lhe então que o prêmio tinha sido conferido principalmente devido a ela, à sua beleza, à sua voz, à sua graça radiante.
Agora eram quase noivos, o Carnaval estava aí, as Felizes Borboletas ensaiavam e Antonieta, as quatro irmãs de Antonieta, a mãe de Antonieta, o Sr. Reinaldo dos Santos Ferreira, todos, contavam com ela, com sua voz e sua alegria. Seu concurso era imprescindível, Antonieta vivia repetindo, as quatro irmãs diziam em coro, mamãe Cordeiro dizia ainda mais alto. Só Teodoro não dizia nada, apenas fechava a cara toda vez que ela falava em sair na prancha. Quando ela suplicava muito que ele dissesse alguma coisa, se definisse, sim ou não, ele falava com voz soturna:

- Se tá com vontade, saia...

Ela não tinha coragem de confessar que estava com vontade. Ficavam os dois amuados, cada qual para seu canto, nem aproveitaram as idas de tia Clara à sala de jantar para os beijos rápidos porém ardentes.

Maria dos Reis desabafou com Antonieta. Teodoro virava fera quando se falava no assunto "prancha". Fazia uma cara feia, se fechava em copas. Ela não podia mesmo sair. Antonieta prometeu resolver o assunto e nessa mesma noite abordou Teodoro:

- Então, seu Teodoro, não quer deixar a dos Reis sair na nossa prancha, hein? Só porque é prancha de gente pobre e a futura esposa de um advogado não pode sair misturada com as filhas de um escriturário do correio, não é? Se fosse a prancha dos Andrades, ela podia, não é?

Teodoro estava mais duro que um rochedo:

- Se ela tiver vontade, pode sair...

Antonieta tinha que ir para o ensaio, disse logo as últimas:

- Pois eu saía, sabe? Não havia namoro que me empatasse. Ela é porque é uma tola. Deixa que namorado tome conta dela. Não tá vendo que eu... - e foi embora, não sem lançar antes um olhar de profundo desprezo ao futuro bacharel que assoviava, tentando bancar o indiferente.

Aí ficaram os dois namorados calados. De vez em quando, Maria dos Reis espiava, Teodoro espiava, nenhuma palavra. Porém, na hora de despedir-se, ele avisou:

- Se tiver com vontade, saia. Mas fica tudo acabado entre nós.

Ela quis responder, ele já ia pelo meio da rua, nem se despediu. Por isso ("bruto, bruto, bruto") ela, na cama, resolve sair na prancha custe o que custar.
Mas não saiu coisa alguma. Não só estava totalmente arrependida no dia seguinte, como também dona Marocas, quando soube do caso, ficou tiririca, mandou chamar Antonieta, gritou-lhe na cara:

- Pensa que acaba assim o noivado de minha filha? Como não arranjam noivo, andam de namorado em namorado, todas cinco, todas cinco, sim senhor, quer ver se toma o noivo das outras com essa história de prancha. Mas nem pense. Minha filha não sai em prancha nenhuma. Tá noiva, vai casar, não é uma sirigaita como você que vai tomar o noivo dela, não. Saia daqui com sua prancha, vá se estourar no meio dos infernos.

Tia Clara apoiou inteiramente dona Marocas. No fundo, Maria dos Reis apoiou também, começou a achar suspeito aquele grande interesse de Antonieta pela sua presença na prancha. E se fosse mesmo um plano para tomar-lhe o noivo? Essa gente é capaz de tudo...

Antonieta é que nem ligou. Os ensaios tomaram-lhe todo o tempo. As Felizes Borboletas pretendiam, nesse ano, conquistar os dois prêmios: o de beleza e o de animação. Seu Reinaldo dos Santos Ferreira dizia que "seria um triunfo só comparável aos de Alexandre na antiguidade e aos de Napoleão na Idade Moderna". E foi mesmo. Na terça-feira, após a conquista dos dois prêmios, a prancha vinha festejando numa alegria imensa, quando, ao passar na Praça Castro Alves, Antonieta descobriu Maria dos Reis que ia pelo braço do noivo, um lança-perfume na mão, atrás a mãe e a tia, solenes os quatro, marchando pelo Carnaval com passos medidos e rostos sérios. Então as Felizes Borboletas cantaram ainda mais alto, tão alto que Maria dos Reis não pôde fingir que não ouvia e teve que parar, olhar, apertar os lábios para que os soluços não rebentassem.

Imagem: bahianas, Google

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