segunda-feira, 15 de junho de 2009

Freya


"Eu sei que acontecimentos e encontros sincrónicos são como devaneios, cheios de símbolos e temas a que se devia prestar atenção. Portanto, interroguei-me sobre o significado do seu nome, Freya. Era o nome da Grande Deusa do Norte da Europa, a deusa da fertilidade, do amor, da Lua, do mar, da Terra, do mundo inferior, da morte, do nascimento, das virgens, das mães, dos antepassados. Tinha tantos atributos que os eruditos que tentaram pôr-lhe uma etiqueta não conseguiram. Em suma, era tão multifacetada como qualquer outra versão da Grande Mãe.

Freya era a deusa da juventude, amor e beleza em O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, a quem Wotan fez a dádiva dos gigantes em troca da construção do Valhalla, o seu castelo-fortaleza e monumento à sua eterna forma e masculinidade. Trata-se de um tema recorrente na mitologia dos patriarcados: é Agamémnon em A Ilíada, sacrificando a filha, Ifigénia, para que a sua armada pudesse navegar para Tróia; é Zeus concordando que Hades podia raptar Perséfone. É também a metáfora, para a psicologia, dos homens que trocam a sua juventude, a importância do amor e uma apreciação da beleza pela sua ambição. Sacrificam a sua anima, suprimindo a faceta feminina da psique em prol do poder. Não se permite ao feminino que se desenvolva e contribua para a criatividade, sensibilidade e perspectiva da personalidade masculina. A anima, simbolizada por uma donzela, é vista e tratada da mesma maneira que as mulheres – desvalorizada e suprimida no mesmo grau.

Isso também acontece às mulheres. Repudiar as qualidades da juvenil Freya é o preço do sucesso no mundo dos homens. Uma mulher não consegue obter êxito se se perceber que é demasiado feminina, que tem um coração terno, é vulnerável ou emocional. Nem pode ter sucesso, geralmente, se possuir a confiança em si mesma da Grande Deusa Freya, porque então não saberá qual o seu lugar."

Travessia para Avalon, Jean Shinoda Bolen

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