segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Os Verdadeiros Donos da Natureza

"As Culturas Recentes vêem-se como dominadoras, conquistadoras. Não vivem apenas na sua própria área, sustentando-se a si próprias e defendendo-se de invasões; procuram opositores (animais ou humanos) e capturam-nos, escravizam-nos ou erradicam-nos. A sua agricultura procura retirar do solo toda a nutrição possível, mesmo que o deixe morto. Ocultam coisas umas das outras e têm polícia e exércitos para ajudar os que têm fortuna a mantê-la intacta.

Estas ideias encontram-se reflectidas nos escritos dos pensadores fundamentais e determinantes da nossa cultura. Aristóteles definiu a visão clássica grega no seu ensaio intitulado “Política”: “As plantas existem por causa dos animais, e as bestas selvagens por causa do Homem – os animais domésticos para seu uso e alimentação, e os selvagens (a maior parte, pelo menos) para alimentação e outros acessórios tais como ferramentas e vestuário.”

A perspectiva romana foi bem resumida por Cícero, que escreveu: “Somos os donos absolutos do que a terra produz. As montanhas e planícies são para nossa fruição. Os rios pertencem-nos. Deitamos à terra as sementes e plantamos as árvores. Fertilizamos o solo. Barramos, orientamos e mudamos o curso dos rios; em suma, pelas nossas mãos e várias operações neste mundo, fazemos o mundo como se fosse uma natureza diferente.”

No início do século XVII, Francis Bacon tornou-o explícito no Novum Organum ao escrever: “Venho em verdade conduzir até vós a Natureza e todos os seus filhos para os colocar ao vosso serviço e torná-la vossa escrava.”

No século XIX, Karl Marx escreveu que o objectivo do socialismo é “regular racionalmente o seu (da Humanidade) intercâmbio material com a Natureza e colocá-la sob o seu controlo comum (…)”. Engels referiu-se aos humanos como “os verdadeiros donos da Natureza”.

Inicialmente aplicámos estas convicções dominadoras apenas à Natureza. Em vez de competirmos simplesmente com os outros animais pela nossa provisão alimentar, começámos a dominá-los. Já que os dominávamos, podíamos ir além de competir simplesmente com eles até ao ponto de os destruir completamente todos… o que fizemos a todas as espécies que competiram connosco ou que interferiram com o nosso acesso aos alimentos ou à terra para os produzir. Dos lobos aos insectos e às ervas daninhas, desenvolvemos novas e melhores formas de aniquilar os nossos concorrentes.

Deste ponto de vista, não vai um grande passo até aplicar o conceito a outros humanos. A sequência lógica da ideia de que o Homem tem o direito de reinar sobre toda a Criação é acreditar que alguns humanos são “dirigentes mais legítimos” do que outros. E, uma vez que já tínhamos decidido que não só era aceitável como era bom destruir concorrentes, desenvolvemos formas cada vez melhores de destruir outros humanos, que atingiram a sua expressão mais sofisticada nas modernas máquinas de guerra.

Outra forma em que a nossa cultura reforça a nossa visão do mundo encontra-se na estrutura da linguagem. Quando Dorothy Lee (Freedom and Culture) viveu com a tribo Wintu no Norte da Califórnia, na década de 50, e aprendeu a sua língua, ficou intrigada ao descobrir que as suas formas verbais eram muito deficientes em termos de propriedade ou coerção. Em vez de dizerem “a minha irmã”, diziam “sou irmanado por” ou “vivo com uma irmã”."

AS ÚLTIMAS HORAS DA ANTIGA LUZ DO SOL, Thom Hartmann

Imagens: Google

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