terça-feira, 11 de novembro de 2008

A Mulher que se Recusa a Combater

OLMER GOLDMAN

A filha pacifista do ex-número dois da Mossad

Ela tem 19 anos e recusa-se a servir um “exército de ocupação”…


O meu pai é Natalin Granot, um especialista em Irão, que se demitiu de “número dois” da Mossad por conflitos de poder. Eu, Omar Granot, 19 anos, sou uma pacifista e, hoje, regresso à prisão nº 400 numa base militar próxima de Telavive. Recuso-me a servir um exército que comete, todos os dias, crimes de guerra nos territórios palestinianos ocupados.

Fui recrutada para o serviço militar obrigatório aos 18 anos, mas já no liceu eu decidira que não queria ir para a tropa. Assim que deixei a escola, e antes de me inscrever na faculdade, dei aulas a crianças pobres num bairro de judeus etíopes. Quando me chamaram, entreguei uma declaração aos oficiais onde afirmava: “Recuso alistar-me nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Não farei parte deste exército que, desnecessariamente, pratica actos de violência e viola os mais básicos direitos humanos.

No dia 23 de Setembro, sem ter sido julgada, fui cumprir 21 dias de detenção. Saí novamente em liberdade, na sexta-feira, dia 30 de Outubro. Estes ciclos irão repetir-se até que o exército se canse, porque eu não vou desistir.

Eu soube que seria para sempre uma refusenik depois de ter participado num protesto contra a construção ilegal do muro de separação que atravessa a Cisjordânia. Eu e outras amigas estávamos na aldeia de Ni’alim e, de repente, reparei que o inimigo não eram os palestinianos sentados ao meu lado, como sempre me disseram, mas um soldado israelita que disparou contra mim uma bala de borracha. Fiquei ferida num braço, felizmente sem gravidade, mas uma palestiniana de 17 anos foi morta.

As minhas convicções ficaram mais fortes depois da Segunda Guerra do Líbano, no Verão de 2006. Comecei a questionar a sério a ética do exército, o uso de armas não convencionais, o envio de soldados para a frente de batalha onde morriam sem objectivos definidos.

Na prisão, usamos a nossa cabeça e o nosso coração para encontrar forças. Falamos muito umas com as outras, e escrevemos cartas umas às outras durante a noite.

Talvez dentro de dez ou vinte anos as pessoas me compreendam e deixem de pensar em termos de judeu, negro, branco, cristão… Eu não acredito que a violência se combata com a violência. Esse nunca será o meu caminho, digam o que quiserem.

Ficarei muito feliz se me escreverem. A minha morada nos próximos dias é esta:

OMER GRANOT

MILITARY ID 5398532

MILITARY PRISON Nº 400

MILITARY POSTAL CODE 02447, IDF

ISRAEL

Público, 5 de Novembro 2008 (adaptado)