domingo, 9 de novembro de 2008

Quando as Mulheres Falavam...

“No final do século IV da nossa era, uma patrícia romana, de cinquenta e um anos de idade, inicia um diário, ou antes uma espécie de agenda. Sobre tabuinhas de buxo, regista as compras que projecta fazer, entradas de dinheiro, ditos engraçados, cenas que a tocaram. Durante vinte anos, Apronenia Avitia dedica-se a esta tarefa meticulosa, desdenhando ver a morte do Império, o poder cristão que se vai estendendo, as tropas godas que investem a Cidade por três vezes. Gosta de ouro, dos grandes parques e jardins, das barcas carregadas de ânforas e de aveia que passam no Tibre. Gosta de descer às cozinhas e devorar imprevistamente o que lá se encontra. Gosta do cheiro e da delicadeza do prazer. Gosta de beber. Gosta de homens que se esquecem de tempos a tempos do olhar dos outros homens. Gosta dos batentes das janelas que não deixam passar a luz do dia.

……………………………………………………………………………………………

XV. Adolescentes de ombro encostado às colunas

Jovens adolescentes que conhecem os primeiros langores.
Jovens adolescentes que conhecem os primeiros instantes em que o desejo de viver se retira do espaço do corpo como o oceano do oeste cada dia vai descobrindo lentamente os mexilhões e as praias de areia.
Jovens adolescentes que alimentam e repisam o desejo de se matar por causa de um livro grego que leram, uma observação ofensiva de um pedagogo, o rosto de uma mulher de Subura. Estão de pé. Encostam o ombro a uma coluna. Flutua ainda em seu redor um vago odor a leite ou a sémen. Têm os olhos postos no vazio. Os cabelos roçam-lhes o pescoço. O ar vindo do “compluvium” desalinha-os por momentos. A pele deles arrepia-se.

XVI. Gatos e perdizes

Tenho dois gatos malhados, de coleira amarela, e perdizes às riscas azuis, do azul dos esmaltes do Egipto.

XVII. A cadelinha

Muola, a cadelinha que nasceu debaixo do leito de Publius, dorme de barriga para o ar. Respira com mais suavidade do que uma criança ainda com leite nos lábios. De noite, sinto-lhe a pata a acariciar-me a pele do braço: quer mijar.

XVIII. Coisa que é preciso não esquecer

A madeira pintada representa as rocas de fiar das Parcas.

XIX. Q. Alcimius

Às suas propostas mais ousadas, mais tímidas, no amor do prazer em que os seus membros, a sua voz, o seu olhar me mergulhavam, não o deixava acabar o pedido. Dizia sim sem sombra de hesitação.

XX. Noites de fome

Então as noites sem pelo menos três orgasmos pareciam-nos noites de fome.

XXI. Coisas que dão um sentimento de paz

Gosto do ruído dos carros em Roma.
Dos banhos de sol nos terraços, ao entardecer.
Do sono pesado de um homem que gozou.
Dos colchões do Nilo.
Das estrelas, quando a madrugada pouco a pouco as apaga.
Detesto os velhos, ou pelo menos os que parecem sempre acompanhados pela morte.

XXIV. Coisas a fazer

Holocausto da gralha.
Vinte almofadas de cotovelo.
Oito cortinas de carros de duas rodas.”

As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia, apresentadas por Pascal Quignard, Livros Cotovia