quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Educação das Raparigas


Como é do conhecimento geral, a mais famosa entertainer americana da actualidade, Oprah Winfrey, criou recentemente na África do Sul uma escola de liderança para raparigas. Conheço pessoas que se indignaram: tratar-se-ia de uma regressão no equilíbrio das relações entre os géneros pelo carácter discriminatório da coisa, embora desta vez de sinal contrário. Pessoalmente, achei a ideia brilhante e muito oportuna.

Como disse certa vez uma famosa juíza italiana, para que os seres humanos “nasçam” de facto iguais em direitos e oportunidades, certos ajustes e correcções terão de ser introduzidos no processo. No processo educativo, no caso.

O bem-estar a todos os níveis das sociedades humanas, ninguém o ignora já, está directamente relacionado com a paridade entre ambos os géneros no exercício do poder, no equilíbrio da sua participação nas instâncias de decisão. E, melhor do que em qualquer outro lugar do mundo, será porventura no continente africano que esse desequilíbrio se paga mais caro: veja-se o fascínio pela guerra e a consequente desvalorização da vida, a pobreza das maiorias, o saque de recursos levado a cabo pelos homens de poder. Aí, por exemplo, as ONG sabem muito bem que se os alimentos não forem entregues directamente às mulheres, às mães, ninguém come...

Por que razão o poder das mulheres ainda se circunscreve tanto ao lar, à família, à intimidade é, sem dúvida, uma longa história. Que o mundo precisa da ascensão urgente de um poder genuinamente feminino, que sirva de contraponto a um poder excessivamente masculino, é outra, igualmente longa.

Vale a pena tentar perceber ambas, mas o que me trouxe agora aqui foi a constatação de que, no seio mesmo da nossa comunidade escolar, o problema se põe com uma agudeza quase “africana”. Enquanto educadores, temos responsabilidades nesta matéria. Trata-se de uma questão de cidadania – tema do Projecto Educativo da nossa Escola.

Isto porque há dias, assistindo ao debate entre as duas listas concorrentes à Associação de Estudantes, verifiquei com espanto que apenas uma das listas apresentava, sobre o palco do espaço Polivalente, uma rapariga. Quando perguntei se na outra lista não havia raparigas, foi-me dito que sim, mas que, por “vergonha”, elas não subiam ao palco...

Então, vejamos, deixem-me situar: 2008, século XXI, país integrante da União Europeia... Alguma coisa não batia certo ali...

Só tenho uma turma na Escola (as outras são no E.P. de Alcoentre), mas pela amostra, não me parece nada mal o desempenho das raparigas. Pelo contrário, nesta faixa etária pelo menos, elas ganham aos pontos: inteligência, conhecimento do mundo, maturidade, bom senso, sentido de responsabilidade, capacidade de trabalho... nada parece faltar a estas jovens. Será o excesso de atributos que as penaliza? Pode uma comunidade, de alunos ou outra, dispensar tamanho capital humano?

O que impede então as alunas (e as mulheres em geral) de o usarem? Quais as razões da sua “vergonha” de se apresentarem diante de um grupo enquanto os rapazes o fazem com tanto à vontade? Que ideia têm do PODER os nossos jovens? O conceito de poder enquanto normal exercício de uma cidadania responsável poderia ensinar-se? Claro, sobretudo pelo exemplo...

Imagem: Mark Ryden