domingo, 28 de setembro de 2008

Vindimas de Outono

Este post tem uma parte bucólica e outra... panfletária. Leia até ao fim, sff.

Ontem, ritual das vindimas da I. e do J. no Vale de Teira. Lá nos vieram à garganta as velhas melodias de sempre, da Laurindinha e do seu marinheiro, às do Rui Veloso, às francesas e por aí fora à medida que, caoticamente, nos iam passando pela cabeça. O importante era celebrarmos a alegria de estarmos mais uma vez ali juntas. O amor que nos une de companheiras/irmãs de longos anos. Começámos a contar: quase vinte, vinte, vinte e um!... Mais o nosso irmão/companheiro J., mais o T., um querido também, que, naturalmente, se juntou a nós.

Como não nos cansámos muito, antes do almoço na varanda da adega, fomos andar pelos campos em volta, que é onde o nosso amor ainda consegue ir mais fundo. Os campos onde já o Outono começa a espalhar a sua marca, na erva que ressuscita, nos últimos frutos alcandorados no topo das árvores antigas e a que ninguém parece dar importância: os figos, as maçãs. E, nos arbustos, as últimas amoras e as ameixas selvagens, as “ameixas de cão”, como se diz lá na minha terra.

É fácil rirmos e brincarmos. Ah, também contámos anedotas. Sexuadas. A Baubo baixou – estamos todas, mais coisa menos coisa, na faixa certa...

Mas, hélas, não é possível interessar as minhas irmãs/companheiras pelos meus temas mais sérios... Óbvio que estamos na idade de Júpiter, o que mais queremos é mesmo more fun per second... Também eu, claro!

Mas... há vida para além disso. Há questões que, por pudor, medos de enfrentar a fera do patriarcado, do status quo, do mainstream, por pura síndroma da normose, morrem ali. E parece aceitar-se sem se questionar essa pata, esse grilhão, sobre nós, como se de um destino inelutável se tratasse ou, talvez, de forma mais "sensata", pensando-se no conforto que daí advém. Ponto final.

Ah, o meu texto no Região*. Ah, pois... e não se vai mais longe...

E o companheirismo parece ter armadilhas destas. O grupo tem tendência para normalizar, nivelar. Quem quer deixar crescer asas... elas incomodam... Chega pra lá com o teu discurso “feminista” rançoso... Isso já era, é coisa de museu. E a coisa entra nesse corpo de dor (como diria o Eckart Tolle) e o estereótipo instala-se e o pessoal não aguenta...

Depois, lá pelo 300, espanto/desconforto por os meus projectos serem tão pessoais. Ah, pois é, só queriam meio pacote, não?... Humildade a mais, descrição a mais, cedência a mais torna-se campo estéril onde nada cresce...

Como diz o Régio, “Eu tenho a minha loucura/E ergo-a como um facho a arder na noite escura”. É cá dos meus...

Post 2 – Outra cá das minhas

Finalmente, já tenho o meu leitor de DVDs! E lá consegui ver ontem o Frida que há anos esperava na prateleira. Grande filme, por falar em loucura e em alguém que ergueu o seu facho bem firme naquela noite escura - e agora ilumina-nos... Sublime Frida! Um filme de mulher, óbvio, só uma mulher para saber onde arranjar um Diego Rivera plus vrai que nature: Alfred Molina! Onde é que o homem tem andado (para além de O Código Da Vinci, onde faz de... bispo!)? Sex appel de cortar a respiração... Qual Richard Gere, qual António Banderas!?...

* "O Género do Poder" saiu esta semana, na segunda página do jornal "Região de Rio Maior".

Imagens: Google ( a primeira é bonita, mas, claro, as moçoilas em nós são um bocadinho menos evidentes... Quanto a adereços, a verga e o barro deram lugar ao plástico. E já ninguém carrega nada, há o tractor...)