quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O Género do Poder

Há dias, em conversa com uma colega de outra escola, fiquei a saber que alguém, uma professora, prepara uma tese de mestrado sobre o tema das relações entre género e poder. Poder, neste caso, na Escola. Gostei de saber. Dá-nos esperança constatar que se questionam factos que em certos ambientes parecem tão naturais, para não dizer convenientes. É agradável perceber que afinal cidadania não é um mero conceito da moda que fica bem em qualquer Projecto Educativo...

Na verdade, apesar do número de professoras ser esmagadoramente superior ao dos professores, são estes que, em grande maioria, confirmam as estatísticas (nem precisávamos delas neste caso...), asseguram o poder. Desconheço a distribuição em outros países, nomeadamente na UE, mas em Portugal a disparidade é gritante. As mulheres, que têm a seu cargo, quase em exclusivo, a educação, na família como na escola – num perigoso desequilíbrio, diga-se –, quando chegam às posições hierárquicas de topo, gentilmente, gentlemen first, cedem os lugares aos homens.

Ignoro as conclusões da referida tese, mas não me pareceria estranho que coincidíssemos em alguns pontos. Primeiro, a Escola parece ser um bom trampolim para a política local... Segundo, as meninas parecem transitar da alçada do papá para a do marido, tendo em muitos casos passado pela do padre, e depois, no trabalho, para a do director. Pena que não aproveitem a profissão para se autonomizarem, usufruindo da boleia dada pelo esforço que desenvolveram (sozinhas!) na aquisição das competências requeridas... Inconscientemente procura-se segurança no másculo domínio, como numa das últimas missas a que assisti, em que quatro homens (três padres e um bispo) oficiavam para uma bem numerosa assembleia composta quase exclusivamente por mulheres...

- Qual é o problema? - já ouço perguntarem.

São vários. E graves. É óbvio que convinha primeiro entender a representação social do poder e o modo como cada um dos géneros o encara.

O homem, por norma, parece encarar o exercício do poder e da autoridade como um direito de que naturalmente se sente investido. Um direito “divino”. Afinal nas instâncias superiores reina um deus e o seu filho, não? Ao poder masculino associa-se, também por norma, toda uma panóplia de sinais exteriores, uns mais palpáveis do que outros, que vão do doutor e engenheiro ao carro topo de gama e à piscina, dos resorts de luxo à vénia, do orgulho da mamã (e aqui abre-se a hipótese para teses ainda mais complexas...) ao aumento do sex-appel e, claro, à conquista da mulher-troféu. E para uma parte considerável das mulheres este estatuto é o mais perto que ambicionam estar do poder. É o poder que uma Hera ferida colhe do seu Zeus... E isto, claro, para só falar dos gadgets softs, dos cor-de-rosa, porque há os outros, os mais duros e cinzentões, que vão dos tanques aos obuses, passando pelas ogivas e por aí fora...

Já para as mulheres (aquelas que se assumem como tal e não como homens disfarçados), em grande número muito competentes e superpreparadas, o poder é visto essencialmente como um peso e uma responsabilidade. Mais uma a juntar à extensa lista... Ele tende a ser encarado por elas como um autêntico serviço que, abnegadamente, de forma menos imponente e colorida, se presta à comunidade e que, como tal, prescinde de sinais exteriores. Pena, porque o público parece que até gosta...

Lamento dizê-lo, mas este é o autêntico poder de que a sociedade humana precisa. Como de pão para a boca, literalmente. Basta reflectirmos sobre a conexão que facilmente se pode estabelecer entre a subalternidade das mulheres e a pobreza e a violência no mundo.

Imagem: Google