sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O que é isso do HI5?

Vagamente, só mesmo muito vagamente, saberei o que é o hi5. Diz-se “ter um hi5”?, “ter um perfil no hi5”? “estar no hi5”? Não faço ideia, nem nunca me interessei muito por esclarecer isso, devo confessar. Mas a algumas pessoas que conheço, conversando sobre blogues, ouvi dizer qualquer coisa como “Tenho o hi5…” ou era “Estou no hi5”?... E foi assim que fiquei a saber que a coisa existia. Certa ocasião, alguém chegou mesmo a confessar à minha frente que tinha uns quatrocentos amigos no hi5… Achei muito, mas o que sei eu sobre o assunto?

Por duas ou três vezes recebi emails onde me perguntavam se queria ser “amigo no (do?) hi5”. Nunca respondi. Basicamente por não dispor de mais tempo para me envolver com a Net. Sabe Deus o quanto o tempo para o meu blogue é esticado, negociado, usurpado, culpabilizado… E a vida, o ar puro, a natureza, o vento na face, o sol na pele…?

Bem, até que um dia destes, em pleno repouso das faculdades mentais mais elementares (pausa estival oblige…), recebo uma mensagem da Margarida Neto: “Queres ser minha amiga no hi5?” Como não, pois se sou amiga da Margarida na vida real?... E vá de dizer que sim, que queria, e de seguir os passos para onde o dito email me remetia até ao meu registo no… hi5.

No dia seguinte, ao abrir o correio, pesadelo: uma larga percentagem da minha lista de endereços electrónicos garantia ser meu amigo no hi5!!! Havia até comentários, boas-vindas, incentivos. Vi fotos da V, da MJSO, da SS, da VL, da AM, da SL, do NM… e até me foi dado perceber como se podia cotar, através de votação, uma enorme flor roxa…

Mas sobretudo verifiquei, consternada, que ter dito que sim ao pedido da Margarida me transformara a mim própria em alguém que pedia amigos no hi5… Só podia, pois nunca eu conscientemente pediria amigos no hi5 – nem noutro sítio qualquer, diga-se. Assim como a própria Margarida nunca deve ter pedido… Ou será que eu cliquei lá onde não devia?

Tenho 56 anos e os emails diziam que fulana(o) tal aceitara o meu “pedido de amizade”… Pedido de amizade?! Assim, textualmente: “G. aceitou o teu pedido de amizade”… A prova cabal da sinistra ideia de que a matriz de controlo transforma mesmo as crianças em adultos e os adultos em crianças (no pior sentido, note-se). Tudo a bem do consumo e do liberalismo económico mais selvagem… A última vez que terei pedido a alguém para ser meu amigo deveria ter 5 ou 6 anos, se é que alguma vez tal coisa me aconteceu – duvido muito que isso aconteça fora dos filmes da Disney…

Eu sei que todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai/Mãe, que todos somos um, que todos somos o mesmo. E cada vez sinto mais tolerância, aceitação e amor por toda a humanidade e por toda a criação. Tanto sentimento de inclusão e de fraternidade que a última coisa que me passaria pela cabeça seria andar por aí a pedir: “Queres ser meu amigo?” Para que perguntaria eu isto se aquela pessoa já é minha irmã, meu irmão?!

Ora acontece que irmã/irmão é muito bom, mas Amigo… Amigo é outra coisa. Quando nos tornamos adultos, percebemos que a amizade é outra coisa, que ela simplesmente acontece, não há como negociá-la, forçá-la, pedi-la. E quantos mais amigos encontramos ao longo da vida, mais respeito temos pela palavra e com mais parcimónia a usamos…

São agora 4 e 56 da manhã e acordei estremunhada por dois motivos. Primeiro: a lembrança de todos os que não tinham aceitado o meu suposto “pedido de amizade”… Imaginava a cara do JB, da MI, da RL e por aí fora… Segundo motivo: lá em baixo na esplanada, as últimas despedidas de um grupo de amigos de carne e osso eram particularmente ruidosas. Quando cheguei à varanda, havia amigos abraçando-se, gesticulando, bufando de puro contentamento, de enorme prazer por estarem juntos, olhando-se nos olhos, tocando-se na pele, dizendo as graçolas certas que provocavam as estridentes gargalhadas que me tinham acordado. Já um bocadinho etilizados, como é óbvio…

Enquanto que noutros tempos espumaria de raiva, hoje dou por mim enternecida, solidária e protectora de um verdadeiro grupo de amigos em carne e osso, mesmo que isso me custe o meu precioso sono da madrugada, que sempre foi o meu favorito.

Tudo por causa da ameaça que pressinto a pairar sobre estes grupos de amigos reais, que é a de que possam também eles passar-se para as redes desinfectadas da Net, onde qualquer um, sem ter passado por qualquer prova, se arvora em “amigo”. Por favor!...

(Isto merecia mesmo era um tratado).

Amigos acontecem quando as voltas da vida de repente me colocam em sintonia com Aquela pessoa, quando ela diz ou faz, ou não diz nem faz, qualquer coisa que reflecte uma qualidade humana que me é cara, ou no momento em que nas minhas células há um reconhecimento. Amigos não resultam de eu andar a bater a todas as portas de email pedindo por eles. Tirem-me desse filme!

Já agora aproveito para, do fundo do coração, agradecer a todas e a todos aqueles que prontamente quiseram ser meus “amigos do hi5” – uns queridos! Bem hajam!

Imagem: Amiguinhos encontrados aqui no Google...