domingo, 3 de agosto de 2008

De Mulher para Mulher

Temos uma maneira especial de nos comunicar, ela não pode ser descrita. É cheia de silêncios, gestos, olhares, expressões, movimentos serenos da alma e dos sentimentos. Nós sabemos que sabemos.Também sabemos que não conhecemos o que sabemos. Esta é a nossa cumplicidade. Como mulheres temos a inclinação de fazer pelos outros, o que normalmente não faríamos por nós. Amar, cuidar, simpatizar, sentir pelos outros...naturalmente coloca-nos além dos nossos próprios limites. É da nossa natureza fundir-nos, completar-nos, e no fim, desaparecer.

Sabes o que é a amizade? É a mais elevada forma de Amor.

No Amor, fatalmente há algum desejo; na amizade, todo o desejo desaparece.

Não se trata de usar o outro, não se trata sequer de precisar do outro; trata-se de compartilhar.

Sentir-te-ás agradecida se alguém estiver disposto a compartilhar contigo da sua alegria, da sua dança, da sua música. Um amigo sente-se sempre agradecido para com quem lhe é permitido amar, dar o que quer que ele tenha.

A amizade deve ser um compartilhar.

Não é uma questão de necessidade, não é uma questão de, quando estás em perigo, o amigo precisar de vir em teu socorro. Isso é irrelevante, vir ou não vir é decisão dele, tu não queres manipulá-lo, não queres fazê-lo sentir-se culpado.

Não se trata de amar alguém por determinadas razões, trata-se de um amor que vem simplesmente da abundância – tens tanto que precisas de compartilhar, precisas de irradiar. E não importa quem o receba, ficarás sempre agradecida.

E quem melhor do que as mulheres para saberem o que é amar demais? São elas as eternas Mães.

Ana Cachão

(Texto inspirado em A Mulher do Futuro, de Zulma Reyo)

Imagem: Edward Burne-Jones

Reinata Sadimba

Nascida para reinar

Conheci Reinata Sadimba, a famosa ceramista moçambicana, num dia de Inverno, escuro e ventoso, extraviado em pleno Verão afro-austral. Uma amiga espanhola, a viver em Maputo, insistiu em que a acompanhasse ao atelier da artista. Encontrámos três mulheres sentadas sobre esteiras, conversando numa língua radiante, enquanto das suas mãos distraídas, afundadas entre a viva escuridão do barro, iam nascendo fabulosos seres. Soube logo, das três, quem era Reinata, mesmo nunca a tendo visto antes. Há artistas assim: não os conhecemos, mas somos capazes de os reconhecer, quando pela primeira vez os encontramos, porque as obras deles contêm algo do seu carácter. Reinata é uma mulher pequena e magra, com o rosto laboriosamente tatuado, e um piercing sob o lábio inferior, que lhe confere um aspecto simultaneamente arcaico e contemporâneo. Nascida à margem de toda a modernidade, a muitos quilómetros da esperança e da prosperidade, parecia destinada ao mesmo destino infeliz da maioria da população moçambicana.

Todavia, iludiu-o. Como conseguiu triunfar?

Eu digo-vos – através do exercício quotidiano da alegria, de um permanente espanto infantil perante a beleza do mundo, de uma feroz vontade de viver, e, finalmente, de um desrespeito soberano pelas normas, a que poderíamos também chamar inconformismo. Tudo isto transparece nas peças que saem das suas mãos. São mães exibindo os filhos ao mundo ou amamentando-os. Casais que se amam, homens com mulheres, mas também mulheres com mulheres e homens com homens, numa sexualidade explícita, desenfreada, que parece desdenhar, com uma clara gargalhada, toda e qualquer convenção.

Reinata vem de uma aldeia, no norte de Moçambique, em Cabo Delgado, com alguma tradição de cerâmica utilitária, como potes e moringas. Terá sido ela, porém, a primeira a moldar figuras. Hoje as suas peças, um verdadeiro exército de seres prodigiosos, ameaçam invadir o planeta, sendo possível encontrá-las em museus e colecções privadas, em todas as grandes cidades europeias e americanas. Na aldeia de Reinata já toda a gente molda formas humanas e animais. É assim que se criam as tradições.

Conta-se que numa recente visita a Lisboa, Reinata se encontrou com Jorge Sampaio. O presidente português, fascinado com o trabalho da artista, quis saber em que a poderia ajudar. O que queria ela? Traduzida a questão Reinata sorriu:

“Um marido!”

Ao que consta propunha-se ficar com o próprio Jorge Sampaio. Presumo que qualquer que seja o mundo onde viva não deve ser nada fácil para uma mulher independente, rebelde e criativa, como é o caso de Reinata, encontrar um companheiro. Os homens de todas as latitudes receiam as mulheres assim. Todavia são elas que empurram o mundo. No caso de Moçambique, Reinata é mais do que um exemplo de esperança – é a própria esperança, criando luz, inclusive nas tardes de Inverno.

Faíza Hayat, Conversas com o Espelho