quarta-feira, 25 de junho de 2008

Uma História com Coelhos

Para Ostara com gratidão

Sabia que o coelho estava vivo pela temperatura do pequeno corpo contra as paredes bem revestidas de gordura do seu próprio estômago, em contraste com a magreza do animal que acolhia nos braços. Estranho que um coelho selvagem, mesmo com uma pata partida – o osso visível, a carne em sangue – permanecesse tão imóvel e cordato, deixando-se transportar assim. Ia levá-lo à O. que vivia no campo. V. haveria de pôr-lhe uma tala, alguma mezinha miraculosa, e no fim todos ficariam contentes por terem salvo a vida do pobre animal atropelado na ciclovia.

Estranho, na ciclovia, onde apenas passavam grupos de donas de casa celebrando ruidosamente o facto de estarem juntas, por um momento longe da refilice dos maridos e da pia da cozinha. Passavam também por vezes corredores solitários. Raramente ciclistas. Quem teria pisado o coelho?

Quando ela chegou junto dele, estranhou de o ver tão imóvel. Até que reparou na carne viva da pata e condoeu-se. Ártemis alvoroçou-se-lhe no peito, e ela baixou-se para lhe pegar ao colo, pensando logo que O., tão compassiva, era a única que poderia salvá-lo. No seu apartamento, onde reinava em absoluto uma gata mimada, era impossível tratar dele.

Transportava-o pois ao colo, segurando com firmeza as patas para que não tentasse escapar-se. Mas o único sinal de vida do coelho era a temperatura do seu corpo.

Já tinha andado uns bons metros e delineado toda a estratégia. Iria a casa buscar um cesto onde o enfiar, desceria à garagem para pegar no carro e andar os cerca de três quilómetros até a casa da O. Não que lhe apetecesse muito ir àquela hora para casa de alguém. O que lhe apetecia mesmo era chegar a casa, tomar um banho e sentar-se à frente do computador a bloguear. Só que agora o mundo real sobrepunha-se ao virtual.

Começou a desejar que aparecesse um carro com alguém que levasse o coelho. A I. passava muito por aqueles lados e ela era a pessoa mais indicada por ser vizinha da O. Alguma vaga inquietação passava-lhe pela espírito. Aquele era um animal selvagem em que pegara despreocupadamente, e pelo menos pulgas ou carraças era natural que tivesse.

Reparou que alguns metros à sua frente, depois de passar a rotunda, seguia a A. acompanhada do marido. Tinham por certo um quintal. Chamou o nome dela, mas A. há muito que desligara o receptor de sons exteriores – bastava-lhe o do marido. Ele voltou-se e agora ambos se interessavam pelo coelho que transportava. Explicou rapidamente a situação. Tinham quintal? Coelheiras? Mas o marido da A. foi preciso e objectivo. O coelho tinha mixomatose. Tanta que já nem conseguia abrir os olhos. Se fora atropelado e ia ali tão sossegadinho era só por causa disso.

Não foi fácil seguir os conselhos dos dois e depositar ali o coelho moribundo na berma da estrada, desistindo da sua intenção de curar-lhe a pata partida. Disseram-lhe, respondendo aos seus temores, que desinfectasse as mãos e avisaram-na de que havia sangue na sua t-shirt. Mas a doença de que sofria não passava para os humanos. Um coelho ensanguentado, terminal, pequenino e inocente. Custou-lhe.

Lembrou-se então de todos os coelhos que de repente tinham entrado na sua vida nos últimos tempos. O coelho de Ostara, o coelho da fertilidade, que comprara numa casa de flores e que depusera no meio dos vasos da varada de trás. Na Páscoa servia para decorar a mesa da sala, juntamente com ovos, a galinha e o galo de loiça e uma taça com amêndoas. Trariam abundância para o ano inteiro. No blogue de J. ela falava dos seus coelhos, dando a entender que eram os seus animais de estimação preferidos. Bom, no blogue dela eles ganhavam uma aura de coelhos da plaboy, o que ainda entrava no domínio da fertilidade...

Mas havia um coelho inquietante. Era um que Mark Ryden fora buscar ao mundo de Alice. Um coelho de brincar, trucidado ao meio com uma poça de sangue no lugar das patas traseiras perante a angústia de uma menina boneca.

Também ela parecia agora ter passado para o outro lado do espelho. Desse outro lado, um coelho ensanguentado e terminal tentava dizer-lhe qualquer coisa. Era óbvio de mais. O pobre coelhinho era também um signo da linguagem usada nos sonhos, da linguagem que surge quando paramos o fluxo verbal da mente e intuímos o significado dos símbolos que se cruzam no nosso caminho. Conteúdos negligenciados do inconsciente vêm assim até nós e, se não lhes virarmos as costas, eles revelam-se; revelam-nos as nossas verdades mais inconfessadas e mais incómodas.

Sim, fora doloroso abrir mão daquele dinheiro amealhado a tanto custo e que guardava para uma necessidade especial. E ela surgiu. Mas doeu. Doeu e fez de conta, usando uma atitude espiritualmente correcta – “A tua segurança não pode estar no dinheiro!” – , que não. Mas a dor só buscava a linguagem apropriada para se manifestar. A dor da criança a quem tinham esvaziado o mealheiro.

Quando contou àquelas duas que conhecem de cor toda a sintaxe do símbolo, a sua leitura desenvolta foi como se lhe tivessem pegado ao colo e a tivessem consolado. E depois levaram-na ao campo.

Na mata de Monsanto, entre os tufos de erva que crescem à sombra das árvores, pôde ver então famílias inteiras de coelhos. Tinham a cor da terra escura e fértil e uma saudável desconfiança que os fazia saltar para dentro de buracos sem fundo à mínima aproximação de passos e risos.

E Ostara repôs a verdadeira confiança no seu coração.

Imagens: Google