quarta-feira, 18 de junho de 2008

Em Louvor de Héstia

“Ficar horas sentada, com agulha e linha em mãos é para mim um prazer, desde sempre.
No meu país, as pessoas tecem, de fato em quase toda a região andina o fazem, sejam homens ou mulheres, isso advém das nossas raízes indígenas, dos antepassados que por causas climáticas tinham que tecer…

Tecer foi assim, primeiro, necessidade física, de sobrevivência, mas tomou outras conotações em mãos de um povo que em tudo vê o sagrado, mesmo sendo profano à primeira vista. Vestes, mantos, toucas, “ruanas”, colchas ganharam cores, cores que não somente serviam para alegrar e tornar mais quentes as linhas, mas para sinalizar finalidades e assim demarcar usos.
Tecelãs e tecelões foram acurando os pontos, os arremates, aperfeiçoando as texturas, os matizes, delineando com subtileza formas e imagens, que faziam parte do quotidiano e do divino para meus antepassados.
Longos silêncios imperavam em espaços abertos, onde a luz do Sol irrompia. Aquecendo o ambiente frio, dando às cores luminosidade e brilho, o que tornava o silêncio alegre. E mais do que isso, esse silêncio tecia histórias, tecia a história pessoal de cada tecelão e casa, e a da tribo, a da aldeia onde nasciam.
As mantas e tapeçarias que lá surgiam ocupavam lugares diversos, mas sempre aos olhos de quem os fazia, ou de quem nada a ver tinha com aquela atividade, mas sabia ser imprescindível para a lembrança das lendas, das estórias, das vidas, ali envolvidas.

As técnicas foram passando de pais para filhos, em cada tribo ou grupamento, cada uma, a técnica, tendo segredos e misturas próprias que as tornavam únicas e diferenciadoras entre tais grupos. Assim, certos pontos, cores e diagramas faziam parte da identificação de uma classe, categoria, ou etnia entre os andinos. Diferenciação entre grupos indígenas.
No campo do ritualístico, as mantas e paramentos produzidos retratavam formas sagradas para os indivíduos. Animais sagrados, de poder, eram transpostos aos tecidos, histórias divinas e deidades ali retratadas.
Vale lembrar que as crenças em seres supremos, são oriundas nessas terras da reverência à Terra, e aos animais, e fenómenos metereológicos. Ao trovão, à chuva, à água, às montanhas, ao jaguar, ao falcão, à rã, à cobra, ao vulcão… La Luna y El Sol. Vemos figuras antropomórficas, resultado do amálgama entre o humano e o sobrenatural animal.
E esta arte, a de tecer, passando de pai para filhos, de mãe para filha, perpetuou-se! É hoje admirada e degustada por quem se aventura a percorrer países andinos, por aqueles que se permitem a fuga dos roteiros comerciais e penetram pelas cordilheiras dos Andes.
Para eles, os aventureiros ou reverenciadores do Antigo, lhes é oferecida a oportunidade de vivenciar a produção dos tecelões, que sentados na grama escarpada, sob a luz gélida do Sol, tecem em grupos. E ver uma manufatura secular, milenar que não se altera, nem perde suas origens.
Tapeçarias andinas podem ser admiradas como algo belo, mas também se o
quiser o espectador, e tendo quem o oriente, podem desvendar pequenos mitos e lendas que nelas são ilustradas, contos familiares, de clãs, sucessos heróicos, ritos, celebrações… A vida do povo que ali vivia antes do branco chegar. E que graças às tapeçarias e aos tecelões se torna viva e palpável para o indivíduo do hoje.
Assim retomo o início deste relato. Tecer faz parte da minha família. Pois possuo sangue índio, do índio andino equatoriano. Minha avó tecia, sentada quieta, belas colchas, gigantescas, passando meses na sua confecção. Caminhos de mesa, peças de roupa. Com pensamentos distantes. Ao vê-la sempre era isso o que fazia analisá-la: o que pensava?
Eu teço não mantas quilométricas, ainda que possa um dia vir a fazê-las. Teço desde os 9 anos. Com linhas brancas ou coloridas, nomes, flores, pássaros, árvores, animais. Bordo, teço, sentada como minha avó o fazia, pensando, e hoje sei o que acontecia quando ela o fazia: colocava em cada ponto dado um pensamento. Um desejo, um sonho, um pesadelo, um acontecimento, uma previsão…
É isso que creio pensamos e fazemos ao tecer, bordar, colocamos pedaços de nós em cada pedaço, a cada laçada, a cada centímetro concluído.
Serve para mim como recordatório, muito mais do que um álbum de fotos. Serve como tele transporte: ao ver um lençol bordado, uma toalha, uma fronha, uma colcha decorada por mim, lembro com riqueza de detalhes o cheiro do momento, os acontecimentos da época, os sentimentos que vivia…
E desvendei assim o segredo dos tecelões andinos, aqueles que vieram antes de mim.
Tecendo refizeram a nossa história, deram vida às linhas e cores, com seus próprios sentimentos de amor e apego a suas raízes, conseguiram trazer o ontem para o hoje, e principalmente mantiveram vivas suas crenças, seus deuses, seus ritos. Na linguagem da arte tecida.
Bendiciones de Tus Antiguos, sean ellos quienes sean!”

Luciana Onofre

Imagens: Google