segunda-feira, 24 de março de 2008

Lembrar AMNISTIA INTERNACIONAL

Birmânia

Acabo de receber este mail da directora executiva cessante da AI, e resolvi postá-lo por considerar tratar-se de um belo testemunho e por achar que é importante solidarizarmo-nos com uma instituição como esta que, de forma pacífica, vai defendendo pelo mundo a causa dos direitos humanos:

"Caros amigos,

Tinha 16 anos quando entrei num prédio decrépito e subi ao quinto andar, em busca de uma grande organização internacional, chamada Amnistia Internacional. Tinha visto uns concertos e lido umas coisas e, romanticamente, ia preparada para encontrar uma grande organização com dezenas de pessoas, a fervilhar de actividade. Na verdade encontrei um pequeno apartamento, com uma só pessoa, literalmente a cair (havia buracos em todos os cantos da casa), com o chão com uma inclinação tal que as coisas até rebolavam. Pelo menos assim pareceu aos meus olhos. Adorei.

Na verdade, não correspondeu às minhas expectativas, mas só por causa da imagem categorizada, mas em muitas outras áreas superou-as, em muito. Encontrei pessoas dedicadas, que faziam de tudo um pouco para ajudar a AI. Nenhuma tarefa era menor e ninguém era importante demais para fazê-la. O que interessava eram as vítimas, os sobreviventes, aqueles que podiam beneficiar da nossa ajuda. Talvez por isso tenha, sem hesitação, feito todo o tipo de tarefas – desde tirar fotocópias, ir ao correio, acções urgentes, fazer traduções, ser da Direcção, coordenar uma rede de acção, um grupo local, ser directora executiva. De todas encarei do mesmo modo – é o meu contributo para a causa e para aqueles que precisam de alguém que não os deixe cair no esquecimento.

Nestes 17 anos, conheci muitas pessoas e muitas Amnistias – vi uma Amnistia explosiva em apoio de Timor e uma quase letárgica, saudosista da década de noventa. Conheci centenas de pessoas, algumas que ficarão comigo para sempre, e algumas dessas, 17 anos depois, cá continuam a trabalhar.

Tive o privilégio, nestes últimos seis anos, de conhecer a fundo a organização (que nunca tive tempo quando era voluntária), de conhecer muitas centenas mais de activistas, de todo o mundo. Tenho uma colega do Quénia que praticamente só consegue trabalhar sobre mutilação genital feminina, um colega da Tailândia, que já foi torturado e uma colega em Hong Kong, que denuncia as violações de direitos humanos na China. Conheci pessoas que, além de dedicação, precisam de muita coragem para enfrentar os obstáculos e as ameaças diárias.

Conheci também, e esse é um privilégio maior, algumas das pessoas que ajudámos a salvar. Nunca esquecerei o sorriso do Mohammed Nadrani, encarcerado 9 anos em Marrocos, com seis lentilhas, um pão e água como únicos alimentos diários, a dizer que muito tinha aprendido como prisioneiro de consciência. Um homem com uma capacidade emocional como poucos, realçava mais a bondade humana do que a maldade dos seus carcereiros. Com ele aprendi que as vítimas não têm de ser amarguradas.

Trabalhei diariamente com algumas das melhores pessoas que alguma vez conheci, com o coração no lugar certo, e com capacidades muito superiores ao que muitas vezes lhes deram e dão crédito. Fica aqui o seu reconhecimento. Descobri que não faz sentido haver divisões entre profissionais e voluntários – que formam uma equipa imbatível, desde que trabalhem em conjunto.

Descobri também que a Amnistia é como um filho, a quem nunca queremos largar a mão, mesmo quando já está crescido demais. Por isso opto por largá-la agora e deixar outros a ajudar amadurecer o filho a quem ajudei também (pelo menos gosto de pensar que sim) a crescer.

Terei saudades de muitos de vós, mas é altura de partir para novos desafios profissionais e deixar vir novas pessoas, com um pensamento fresco sobre aquilo que já repensei demais. Aproveito esta transição para que se possa trazer novas perspectivas, novas ideias e novas acções, o que só poderá beneficiar a Amnistia. E é isso que quero acima de tudo.

Fico em funções até ao dia 30 de Abril. Espero poder despedir-me de alguns de vós, presencialmente, na Assembleia de 29 de Março. Membro serei sempre.

Um abraço amigo"


Cláudia Pedra
Directora Executiva/ Executive Director
Amnistia Internacional Portugal
Tel: (+351) 21 386 16 52
Fax:(+351) 21 386 17 82
e-mail: c.pedra@amnistia-internacional.pt

Em busca da Mulher Absoluta

Trabalho de Rosa Leonor (Mulheres & Deusas) publicado no blog Absoluta.