sábado, 9 de fevereiro de 2008


POR UMA NOVA ORDEM SIMBÓLICA

Rose Marie Muraro

Cada espécie animal percebe o real segundo a vida que lhe é peculiar. A espécie humana relaciona-se com ele através dos seus sistemas simbólicos e por isso é a única que o pode transformar. Mas, embora a capacidade de simbolizar seja inata, o seu uso varia através dos tempos.
É através dos sistemas simbólicos que os seres humanos pensam, falam, comunicam e criam as suas leis de comportamento e portanto os seus sistemas sociais políticos e económicos. Esses sistemas variaram muito nos dois milhões de anos de vida da nossa espécie e principalmente nos últimos dez mil anos do período histórico. O grande erro dos pensadores desta época foi tomar como biológicos e imutáveis sistemas que foram socialmente construídos.
Isto aconteceu por exemplo com os psicólogos do fim do século XIX e inícios do século XX principalmente Freud e Lacan. Freud afirma que a natureza foi madrasta com a mulher porque ela não tem capacidade de simbolizar como o homem. Lacan afirma que o simbólico é masculino e que “a mulher não existe” porque não tem acesso à ordem simbólica. A palavra pertence ao homem e o silêncio à mulher. Segundo ele o simbólico é estruturado pela
cadeia de significantes cujo grande organizador é o Falo. Este ao mesmo tempo é metáfora do órgão sexual masculino e do
poder. Assim o Poder (que é essencialmente masculino) é o Grande Outro ao qual implícita ou explicitamente todos os actos simbólicos humanos se referem, incluindo pensamentos, gestos, leis até os sistemas macro políticos e económicos.
E de facto ele tem razão. A realidade humana é gendrada (gendered), como gendrados somos todos nós. Todos os sistemas simbólicos actuais foram sendo fabricados por e para os homens. Leis, gramática, crenças, filosofia, dinheiro, poder político e económico, tudo.


No entanto na última metade do século XX algo novo acontece. Os dois grandes resultados da sociedade de consumo são a entrada da mulher no mercado mundial de trabalho (uma vez que o sistema fez mais máquinas do que machos) e a destruição dos recursos naturais (porque os retirou da natureza num ritmo mais acelerado do que esta poderia repor). As mulheres entram nos sistemas simbólicos masculinos no momento em que estes se mostram destrutivos da vida.
A tarefa monumental que os movimentos de mulheres e as mulheres como um todo têm hoje é de construir uma nova ordem simbólica não mais centrada sobre o Falo (o poder, o matar ou morrer que é a sua lei), mas uma nova ordem que possa permear desde o inconsciente individual até aos sistemas macroeconómicos, agora estruturada sobre a Vida.
Estas reflexões não poderiam estar a ser feitas se este trabalho já não estivesse em curso. Já está a ser construído um consenso entre os povos contra uma dominação global que exclui o grosso da humanidade, e sobre uma nova ordem que inclua uma relação complementar entre os géneros, uma família democrática, um tipo de relação económica que não transfira a
riqueza de todos para os poucos que dominam, que inclua relações comerciais económicas menos desumanas e destrutivas.
As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos não só nas instituições convencionais (empresas, partidos, etc.) mas através de outras, muitas vezes na contramão da história (lutas populares, ecológicas, pela paz, etc., onde são a grande maioria). Elas estão a construir uma nova ordem simbólica cujo Grande Outro é a Vida (viver e deixar viver) e a ajudar a desconstruir esta ordem universal de poder. E se não trabalharmos nesta profundidade, por mais que se transformem as estruturas económicas antigas elas tenderão a voltar.
Ou substituímos a função estruturante do Falo pela função estruturante da Vida, ou não teremos mais nem Falo nem Vida.

http://www.geocities.com/rogelsamuel/rose5.html (adaptado)

Imagem: www.salves.com.br


Ave Maria para o III Milénio


Chama-me do futuro
uma mulher de olhos mansos
onde arde um fogo claro e baixo
-inextinguível como os tempos

apela
de dentro do seu silêncio antigo
para essa face
(que sempre supus mais tenra)
no que agora eu sou

do amanhã
caminha até mim
a impugnar caducas rotas
vencidas sendas
de um mundo a esboroar-se

Trajada de mistérios poderosa maga
vetusta caminhante
pelos troços do sigilo e da omissão
viaja ora por alcançáveis horizontes
iniciadora e sábia
como as secretas vozes deslembradas
ora remota e vaga
logo cercana palpitante
no presságio
da Vida por chegar

Vinda do futuro coberta pela aurora
caminha
coroada pelos sonhos das estrelas
Reveladora de indescritíveis plenitudes
acolhe no brando seio
piedosa e alquímica
o tormentoso caudal de todos os meus prantos

Vem do futuro
mas segue ainda pela orla dos finitos
já impressora de desconhecidas ondas indeléveis cores
na rota dos que ousam
recebê-la

Vacilo
logo sou ela
recuo
já o não sou

Antiga companheira força latente
amada mãe portadora da luz
guardiã dos dias de ouro e de cristal
anárquica regeneradora dos velhos caminhos
madre excelsa
mãe amantíssima
fluxo rebelde
cântico dos amanhãs
desperta alba
suave mensageira
da mudança e do perdão
porto da esperança
útero original
pátria dos poetas
arcanjo das artes
mãe da intrepidez
padroeira dos audazes
matriz do sonho
fogo da terra
barca divina
dissipadora das trevas
mãe corajosa
vaga de clemência
bálsamo dos párias
rosa secreta
estrela dos alvores
princípio iniciático ao Sonho e aos arcanos
de todos
e por todos
os saecula saeculorum…

Reinarás na Terra
chamejante e pura
pelo coração da liberta humanidade


Mariana Inverno
Fundadora do PROJECTO Art for All

Imagem: www.rosanevolpatto.trd.br/Gaia5.gif


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Adorei este Encontro no Feminino - óbvio. Foi um momento inesquecível que agradeço à vida e às magníficas mulheres que nele participaram.