quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O voracismo do capitalismo europeu

Diferença e atraso

Um dos assuntos que mais apaixonaram toda a gente instruída que andou pelo mundo entre o século XIX e a segunda metade do século XX foi o contraste entre o desenvolvimento da Europa e da América do Norte e o atraso da Ásia, da África, de grande parte da América latina, do Sul da própria Europa. Note-se que o interesse pela questão só surgiu no final do século XVIII, quando esse contraste começou a saltar à vista. Até então, não era óbvio que uma cidade indiana, por exemplo, fosse mais atrasada do que uma cidade europeia: em 1700, as ruas de Londres eram tão sujas como as de Calcutá.

Para a diferença crescentemente visível entre o Ocidente e o resto do mundo propuseram-se, como se sabe, muitas explicações: históricas, sociológicas, económicas, antropológicas, até biológicas (ou raciais). Recentemente alguns historiadores vêm tentando demonstrar que o atraso das regiões do Oriente e do Sul é recente (data do século XVIII, no caso da Índia ou da China) e foi provocado pela agressividade económica e político-militar do Ocidente.

Depois de ler, viajar e olhar para as diferenças entre os países subdesenvolvidos e o Ocidente, e depois de pensar sobre a cultura material, sobretudo as formas de arte e as formas urbanas, da Ásia e da Europa na época em que Vasco da Gama chegou à Índia, cheguei à mesma conclusão que muitos pensadores do século XIX: nessa época já não havia maneira de as potências da Ásia conseguirem parar a conquista do mundo pelo capitalismo moderno e ocidental.

A Europa já tinha a economia e a sociedade mais dinâmica, mais voraz, mais predadora da Terra. O Ocidente não foi culpado do atraso dos outros. Foi culpado, isso sim, do não-progresso dos outros. Ou seja: o Ocidente obrigou os outros ao progresso capitalista, o progresso próprio do Ocidente, com a maior brutalidade e em proveito próprio.

(…)

Paulo Varela Gomes, Público, 5/11/08

Imagem: Google

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