domingo, 23 de novembro de 2008

Apresentação do livro MULHERES & DEUSAS


As minhas palavras ontem, na apresentação do livro MULHERES & DEUSAS

Sinto-me honrada por estar hoje aqui a apresentar este livro, feito a partir do blogue de Rosa Leonor Pedro, MULHERES & DEUSAS. Um blogue dedicado ao Sagrado Feminino, seguido por centenas de pessoas ao longo dos seus sete anos de existência, o que representa largos milhares de visitas. São inúmeras as mulheres, e também os homens, que, nos comentários que vão deixando, se dizem agradecidas e agradecidos pelo despertar da consciência e pela força que recebem deste MULHERES & DEUSAS.

Trata-se de um trabalho coerente, resultado duma dedicação praticamente exclusiva da sua autora. Controverso, por vezes, desafiador, mas sempre muito oportuno e inspirador.

Como é próprio desta escrita intimista, a autora vai-se revelando aqui e ali. Com o tempo, ficamos a conhecer os seus desafios, as suas descobertas, as viagens, as amizades, até a sua casa e a sua gata…

É um blogue com um enorme impacto também, ou especialmente, no Brasil, onde a distribuição deste livro faria todo o sentido.

Embora não se insira na cultura dominante, MULHERES & DEUSAS é um autêntico blogue de culto, que, em boa hora, graças à Editora Ariana, ganhou forma neste magnífico livro.

Houve um tempo
em que tu não eras
uma escrava;
lembra-te disso.
Um tempo
em que caminhavas sozinha,
cheia de riso
em que te banhavas nua
no mar.
Podes ter perdido
a memória
desse tempo.
Mas procura relembrar-te...
podes dizer que não há palavras
que descrevam esse tempo,
podes dizer que ele não existe.

Mas recorda.
Faz um esforço
para o relembrares,
ou, se não conseguires,
inventa-o!

Monique Wittig (Les Guerrillères)

Foi este poema que fez com que eu e Rosa Leonor nos encontrássemos na blogoesfera. No meu blogue, ele estava no masculino, e Rosa Leonor deixou-me um recado urgente: que não, que Monique Wittig o tinha escrito sobre as mulheres e para as mulheres. Devo confessar que desconhecia. A versão chegara até mim no masculino. No masculino dominante e universal – essa espécie de grande alçapão da língua por onde o feminino desaparece, é tragado, é neutralizado…

Começaram então as minhas visitas frequentes ao blogue de Rosa Leonor.

É-me difícil falar de MULHERES & DEUSAS sem falar do meu próprio blogue, SABERDESI, que foi criado há pouco mais de um ano, e cuja vocação inicial era essencialmente a divulgação do método de desenvolvimento pessoal baseado na filosofia de Louise Hay. Há um pressuposto fundamental neste Método que é o da nossa responsabilidade pessoal por tudo aquilo que nos acontece. Essa ideia de que somos co-criadores da nossa realidade dá-nos a dimensão do nosso poder, da nossa capacidade de fazermos as melhores escolhas para a nossa vida.

O meu blogue sempre pretendeu seguir essa vertente mais positiva, mais suave, digamos, fiel ao princípio de que “Aquilo em que pomos a nossa atenção cresce”. Então, expandir o positivo, o luminoso, é contribuir para que se torne dominante.

A questão é que eu não posso avançar para a Luz sem integrar a sombra; não posso reclamar a minha força sem ter a noção da minha debilidade.

A minha experiência com grupos de mulheres fez-me compreender como facilmente a espiritualidade se pode tornar alienação, fuga ao real. Eu quero encontrar a harmonia, a paz na minha vida, mas recuso-me a pagar o preço. Eu quero salvar a minha família, ou até o próprio mundo, mas recuso-me a encarar de frente os mil fiozinhos que tolhem a minha liberdade. Eu ignoro a profundidade, a “estilização”, que tão bem consegue ocultar do meu entendimento o regime de escravatura em que me encontro. Eu continuo a deslizar em bicos de pés para não acordar o bull dog que vive lá em casa; eu saio a correr de workshops onde vivenciei o céu para ir enfiar-me na cama com o inimigo… Continuo a sentir-me uma metade, procurando pela outra…

Como dizia Nathalie Durel Lima, em “O Feminino Reencontrado”, fomos criadas para sermos “senhoras boazinhas, limpinhas e cheirosas”, perfil muito adequado ao bem-estar e ao ego patriarcais. Por vezes apetece-me dizer às mulheres que tenho nos meus grupos: “Ok, boazinhas já nós somos, já sabemos o que é. Que tal sermos mazinhas? (há guias para isso…) Serviçais, robots-domésticos, dependentes emocionais, subalternas, já sabemos o que é, e não foi isso que salvou o mundo, como se pode ver… Que tal sermos egoístas, auto-motivadas, auto-centradas e auto-suficientes?”

Sobretudo, conscientes, conhecedoras da nossa história, da história da colonização a que fomos sujeitas pelo modelo social de dominação patriarcal.

E é aqui que entra MULHERES & DEUSAS. É sobre isto mesmo que MULHERES & DEUSAS se torna um precioso manancial de informação/consciencialização. Rosa Leonor vem fazendo, há 7 anos, um trabalho sistemático e de extrema importância para o nosso despertar para a necessidade do retorno ao sagrado feminino. Só essa dimensão nos permite vivermos plenamente a nossa identidade de mulheres, feitas à imagem e semelhança da Deusa.

Diz-nos Marianne Williamson, em “O Valor da Mulher” que “Um instrumento poderoso para recuperarmos a glória da nossa identidade feminina é a adoração de divindades femininas.” “Somos seres gloriosos, diz a mesma autora, simplesmente porque não somos seres deste mundo. A nossa essência espiritual é imaterial, de fora deste mundo físico, e quando nos tornamos conscientes disso, assumimos verdadeiramente o nosso poder”.

Mas, atenção, não somos seres desta dimensão, mas estamos nesta dimensão, e é com ela que temos de nos elevar à nossa outra dimensão. Não, fugindo dela.

É por essa razão que, em MULHERES & DEUSAS, temos notícias do mundo da 3ª dimensão, dum mundo dominado pelo masculino exacerbado, voraz e predador, em que ser mulher é ser menos, é ficar em segundo lugar, é submeter-se, é não ser levada a sério, é não ter voz, é ser indigna, é ser propriedade de outrem, é ser espancada até à morte…

Aqui, no nosso “quentinho”, no nosso país de “brandos costumes”, isto pode parecer um exagero. Mas não vale a pena iludirmo-nos… Também não é para nos apavorarmos, porque o papel da vítima impotente já não dá. O grau de consciência que atingimos permite-nos compreender que, se o feminino está assim, se ele é assim tratado, todas e todos somos responsáveis, todas e todos estamos a criar esta realidade… Uma realidade em que, só este ano, em Portugal, 42 mulheres foram assassinadas pelos companheiros. Como vemos, não é preciso irmos ao Islamismo radical, nem à África da excisão. Mas talvez não fosse má ideia darmos uma volta pela Igreja Católica (e outras igrejas patriarcais), que permanentemente reafirma a indignidade da mulher ao negar-lhe a possibilidade de acesso à sua hierarquia.

Então, é em todas e todos nós que o Feminino precisa de ser curado, resgatado. Precisamos de compreender e de denunciar os esquemas patriarcais de dominação. Esquemas como a grande cisão do feminino, de que tanto fala Rosa Leonor Pedro. Essa grande cisão em duas partes antagónicas e irreconciliáveis: a santa e a pecadora, Maria e Madalena, a esposa e a amante, a prostituta, a “outra” (como aquela novela que anda, ou andava, por aí…).

Tudo isto constitui a matéria deste blogue, agora livro, precioso pela luz que lança sobre estas sombras que precisamos de iluminar e de integrar. Integrar as duas mulheres, desmascarando essa estratégia do patriarcado do “dividir para reinar”, do absurdo, do ridículo de duas mulheres disputando o mesmo homem, como se se tratasse do puro oxigénio sem o qual não houvesse vida, préstimo, propósito…

Reencontrar e honrar a Deusa, a Mãe, a Terra – o Planeta e a Humanidade definham à míngua das bênçãos da Mãe. É tão urgente assim.

De tudo isto ouvimos pela voz de Rosa Leonor, mas também das dezenas de autoras e autores, mulheres e homens, aos quais é concedido largo espaço neste blogue/livro. Dessa poderosa bíblia das mulheres, que é “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, a Marianne Williamson, a Erich Neumann (“A Grande Mãe”), a Jean Shinoda Bolen; às brasileiras Sylvie Perere, Clarice Lispector, Rose Marie Muraro; às portuguesas Natália Correia, Isabel Barreno… São dezenas de autoras e de autores, cujo pensamento chega até nós através de MULHERES & DEUSAS. Nunca esquecerei que foi aqui que fiquei a saber do livro “O Cálice e a Espada”, de Riane Eisler, considerado a obra mais importante para a evolução da consciência da humanidade desde “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin.

São também outros blogues e comentadores, que nos fazem sentir ligadas (os) a uma vasta comunidade, a uma poderosa corrente de solidariedade. Solidariedade para com o Planeta, solidariedade de género, SOLIDARIEDADE FEMININA. Mas são também notícias de outras dimensões. Temos a voz de André Louro de Almeida, por exemplo. São canalizações. O sagrado tem aqui largo espaço.

As temáticas, como já disse, prendem-se, essencialmente, com a tradição do Sagrado Feminino e com a miséria da situação da mulher, do feminino, no mundo – num mundo sem alma, entregue à voracidade do capitalismo patriarcal. Um mundo onde, como nos diz ainda Marianne Williamson, “A feminilidade é uma dor colectiva de profundidade indescritível e, quando tentamos expulsá-la, estamos sujeitas a ouvir “Lá vêm vocês outra vez reclamar!”…

Não vale a pena negarmos, não avançamos nada ignorando, iludindo esta dor com paliativos que podem ir das compras à ilusão do príncipe encantado ou aos workshops de espiritualidade…

Também “Não podemos esperar que o mundo restabeleça o nosso valor, estamos aqui para restabelecer o nosso valor no mundo”, diz-nos ainda Marianne Williamson, em “O Valor da Mulher”.

Como o faremos? Só vejo uma solução possível: uma profunda, incondicional e sagrada SOLIDARIEDADE FEMININA, que nos possibilite retornarmos à nossa condição de filhas criadas à imagem e semelhança da Deusa. De Deusas.

Imagens: Google

2 comentários:

Anônimo disse...

Querida Luiza:

Estava a pensar telefonar-lhe a agradecer, escrever um email ou mandar uma mensagem, mas cheguei aqui e vi o seu depoimento...chamo-lhe depoimento e depois vi também a Lealdade feminina e só isto é mais, muito mais do que eu mereço...ou do que tudo o que eu pudesse receber: a luz e a ternura de outras mulheres e o despertar da deusa, esta união sagrada a consagrar n"uma profunda, incondicional e sagrada SOLIDARIEDADE FEMININA, que nos possibilite retornarmos à nossa condição de filhas criadas à imagem e semelhança da Deusa. De Deusas."
Obrigada pelas suas palavras, pela sua viagem de horas até à Pastorinha...por ter vindo de longe e deixar as pantufas de uma tarde de descanço de professora sobrecarrrregada...por avaliações inúteis que nada ensinam a minguém nesta suposta educação que nada tem a ver com a essência da vida nem do amor...

...Luiza sobe que sobe, sobe não a calçada, mas a montanha sagrada do eterno feminino.

com eterna gratidão
rosa leonor

Luíza Frazão disse...

Obrigada, Rosa Leonor,

Ontem, senti-me uma verdadeira heroína, descendo aos infernos das rotundas, auto-estradas e marginais, para dar uma contribuição, por pequena que fosse, ao grande propósito do ressurgimento do FEMININO no mundo!
Adorei ter largado o conforto das pantufas e do lar, ter sentido o vento cortante na pele e depois o calor daquele grupo de mulheres (e homens) celebrando tão nobre causa.
Foi mágico, ali, à beira do mar. E o livro é lindo!
Bem-haja.

Um grande abraço, fraterno e solidário.

Luíza