domingo, 31 de agosto de 2008

A Ânsia pela Normalidade...


Ser como toda a gente...

"As emoções destrutivas ligadas à cultura, matam em nós mesmos a harmonia e a paz da nossa sabedoria primordial".

Pierre Weil


“O poder castrador da nossa sociedade não é de ordem sexual, como afirmava Freud, mas sim, espiritual e o seu nome é: normose - a patologia da normalidade.

Ela impõe à sociedade, uma cultura do sucesso, sendo que o fracasso e o ostracismo são dos maiores medos do normótico, que busca a sua segurança em estados temporários e ilusórios, nos objectos exteriores, em conquistas e sucessos efémeros, não sabendo que a verdadeira segurança é uma condição subjectiva, resultado de uma experiência transpessoal, que se revelará de forma espontânea e natural no momento do despertar da verdadeira consciência.

O desastre é eminente para o normótico, que faz depender a sua segurança das parafernálias externas e não da paz da vida interna, a qual não depende das circunstâncias da vida externa. O normótico vive fazendo investimentos e seguros para a sua vida, mas não investe na espiritualidade, sendo esperto por alguns momentos, mas um tolo a longo prazo, pois demora muito para constatar que o acúmulo de riquezas, prestígio e poder é apenas uma troca, e não o fim, da sua falta de segurança. Na sua busca insana pela segurança financeira, o normótico perde a saúde para depois pagar de bom gosto tudo o que conquistou para ter novamente saúde física, mental e emocional. Na tentativa de conquistar a "pseudo-segurança" para a sua vida, o normótico esquece-se de vivê-la, e como resultado vive num desespero silencioso, precisando às vezes de chegar ao topo da escada do sucesso, para amargamente descobrir que a mesma estava encostada à parede errada. É justamente neste desespero silencioso que uma fracção de sanidade pode romper as paredes da normose e levá-lo ao questionamento do tipo: “Espelho, espelho meu, será que algum dia eu já vivi?”.

O normótico, ou se preferir, o entediado anónimo - é vítima de um estado de conflito interior prolongado. Na tentativa de anestesiar a dor resultante desse conflito interior, das esperanças frustradas e dos sonhos abortados, injecta "novocaína" - o anestésico do novo - em muitos aspectos da sua personalidade. Ele não sente nada de maneira vívida: nem alegria, nem tristeza, nem esperança, nem desespero. As coisas acontecem, mas ele não as regista, pois é preciso muita coragem para se permitir sentir. É alguém que vive num eterno confinamento solitário causado pelas suas crenças disfuncionais; alguém que se trancou numa rotina solitária e engoliu a chave. Alguém que vive uma vida unilateral e morre em estado imperfeito. Não possui a consciência de que a Grande Vida lhe deu uma alma, uma mente e um corpo, os quais deve procurar desenvolver de forma harmónica.

Vive dominado pelas influências do sistema de crenças do modismo social permitindo que a sociedade continue a impor-lhe as suas ilusões por meio de um fortíssimo esquema de marketing que o bombardeia de forma brutal durante as 24 horas do seu dia-a-dia. Não possui a coragem de virar a mesa contra o cliché social e assumir a responsabilidade pela sua maneira de pensar e pelo controlo da sua vida. Não é difícil constatar os resultados desse caótico modo de viver: medos, preocupações, paranóias, stresse, insatisfação, descontentamento e toda a espécie de somatização oriunda de uma pseudofelicidade. Não consegue perceber que sem satisfação interior, nenhum acúmulo de sucesso exterior consegue trazer felicidade e segurança duradouras. Como Adão e Eva, vive exilado do jardim das delícias da unidade consciente com Deus, pela acção da serpente do conformismo, tornando-se com isso, um ser limitado devido ao crédito dado ao sistema de crenças do clã a que pertence.

O normótico opta por uma forma de pensar pelo simples facto de muitas pessoas optarem por ela ou por constar de algum livro que a sociedade considera como sagrado; não consegue avaliar por si mesmo sobre a questão e ajuizar se ela é razoável ou não. Para ele, prender-se às velhas rotinas consagradas pela sociedade é muito mais seguro do que aventurar-se ao Aberto. É aquele cujo desejo mais profundo ainda dorme, mas que teme a acção perigosa de acordar. É como um cavaleiro que perdeu o domínio da carruagem e é arrastado pelos cavalos dos instintos degenerados. Vive atrelado à matéria, com o Ser ainda fechado para o que é eterno, caminhando sobre uma corda bamba, em chamas, pronta para arrebentar.

Não possui a consciência de que não é um ser material com necessidades espirituais ocasionais; mas sim, um ser espiritual com necessidades materiais ocasionais. Prefere a pseudopaz do conformismo social à angústia da busca pelo seu devir. Passa a maior parte da sua vida com um sentimento de vazio e de falta de propósito tão grande, que é como se faltasse uma parte de si mesmo. Sem que se aperceba, muito do que faz leva-o cada vez mais para a sensação de vazio interior, que procura preencher com o acúmulo de dinheiro e de matéria, prestígio e reconhecimento profissional, chegando muitas vezes a extremos como o excesso de comida, bebida, sexo ou até mesmo às drogas.

Quanto maior é o seu desespero por ocupar esse vazio interior, mais vazio se sente. Em momento algum, lhe ocorrer que essa sensação de ausência possa ser de natureza espiritual, muito embora, esse conhecimento lhe chegue de várias maneiras. É somente quando a dor chega ao seu extremo que ele começa a olhar para dentro de si e a buscar por algumas práticas espirituais, através das quais, finalmente, pode encontrar o verdadeiro conceito de objectivo e plenitude.”
(...)

PIERRE WEIL

Copiado de Mulheres & Deusas

Imagem: Portalascensional

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