domingo, 24 de agosto de 2008

Prefiro os Jogos Olímpicos...

Não gosto de desporto. E adoro desporto. Sou Carneiro. Não gosto de jogos/competições olímpicas, e dou por mim fascinada com as provas, seja de que modalidade for, quando por acaso a televisão calha de estar ligada... Ainda ontem, nos dois minutos que estive em trânsito do 2º canal para o canal 25, o Infinito, vi ginastas maravilhosas, enrolando-se e desenrolando-se em/de longas fitas de cetim. Um espanto.

Não gosto do aproveitamento político, do nacionalismo rançoso – o mesmo que determina guerras e genocídios –, mas quando a/o atleta português apanha a bandeira que lhe estendem da assistência, ou mesmo quando se ouve no estádio o hino nacional, vêm-me as lágrimas aos olhos... Tenho sentimentos contraditórios. E não serei a única.

No fundo, há ali duas coisas que me fascinam: a actividade física e a auto-superação. Podemos trocar “competição” por “incentivo”, “motivação”: “Oh, ela fez em 8 minutos... Talvez eu possa fazer em 7.59.59”...

Claro, todos sabemos dos abusos, dos dopingues, da transformação de seres humanos em supermáquinas... A coisa é pesada mesmo. Por isso, quando o nosso gorduchinho disse que, de manhã, do que gostava mesmo era de dormir, indignámo-nos. Mas o Pulido Valente já explicou ontem no Público que, com o que lhes pagam, os nossos atletas têm todo o direito de serem caprichosos. Profissionalismo paga-se bem mais caro... E um senhor da Federação veio dizer que era uma vergonha, que, contrariamente ao que acontece nos países que levam a coisa à séria, nós nem sabemos o nome dos nossos atletas de alta competição. É verdade. Eu, por exemplo, não sei... Não lhes ligamos nenhuma. Só depois, quando vemos os outros com medalhas, também queremos. Atenção à infantilidade galopante!...

Há dias, vi uma reportagem sobre uns Jogos Olímpicos Seniores de que nunca tinha ouvido falar. O ambiente ali pareceu-me do melhor e mais são que se pode imaginar. Riam-se e abraçavam-se muito. Por um momento, apeteceu-me começar a treinar a corrida, aqui, na nossa novíssima ciclovia. Afinal vivo na “cidade do desporto”... A visão que tenho da janela do meu quarto é a de campos de treino e de estádios desportivos – boa energia, segundo o Feng Shui...

Nos tais jogos olímpicos, havia um homem de 90 anos a competir. Com os portugueses queixando-se da falta de apoios monetários. Por caridade, pagavam-lhes as viagens. E eles lá estavam, provando o quanto poupam à Segurança Social em subsídios para os medicamentos e lares de 3ª idade... Repletos de energia e de vitalidade, garantindo os melhores resultados em qualquer chek up.

O mais fantástico para mim, devo dizer, era o ar das atletas. Mulheres muito para lá da menopausa corriam desalmadamente, e uma portuguesa, a Joaquina, ganhou mesmo uma medalha. Estava tão feliz, parecia tão realizada que dava gosto vê-la – e vontade de estar lá, também. Tive a certeza de que era uma protegida de Artemisa, a Deusa. A mulher selvagem estava ali, apesar de toda a doçura que irradiava de Joaquina...

Tão diferente das mulheres da mesma idade que se vêem pela praia nesta altura, por exemplo – tantas! – arrastando-se, sem pinga de vitalidade, atrás das barrigas proeminentes de maridos insatisfeitos, rezingões e prepotentes, mortinhos por chegarem a casa e tomar uma cerveja refastelados no sofá. Lá, enquanto elas lhes preparam o jantar, há-de estar um ecrã qualquer, onde num relvado qualquer, hábeis matulões – esses sim, literalmente pagos ao preço do ouro – farão para/por eles todo o desporto que verdadeiramente conta neste mundo...

Prefiro os Jogos Olímpicos. Os Seniores...

Imagem: Alina Kabaeva

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