terça-feira, 26 de agosto de 2008

O Direito à Experiência e ao Erro

Para Rosa Leonor, Mulheres & Deusas

Querida Rosa Leonor,

Tenho lido regularmente o seu blog. Gosto quase sempre. Não gostei muito deste aqui, onde se falava das mulheres actuais e do seu desatino. Soou-me muito, vai-me desculpar, a retórica de púlpito... “As mulheres estão perdidas”. Sem a Deusa.

Veja, os padres dizem rigorosamente o mesmo há séculos e séculos, apenas mudando o género da divindade. Ora, onde me situo eu para achar que os outros estão perdidos? Qual é esse porto de abrigo, esse local de chegada, esse ancoradouro em que supostamente todos estaríamos a salvo?

Não será por certo neste planeta, nesta dimensão densa onde agora estamos encarnados... Não sem antes termos feito algum trabalho pesado, não é assim? Embora, por suposto, sejamos seres duma dimensão mais leve e luminosa, teremos vindo até cá para fazer experiências na matéria, para elevar a matéria. Ah, sim, enterramos nela os nossos pés muitas vezes, baralhamo-nos muito, equivocamo-nos com frequência. Sofremos.

Dizem-nos os mestres que o grande factor de elevação da consciência é precisamente a dor. Só quando chegamos ao limite da dor e do equívoco, podemos mudar a nossa percepção das coisas e elevar a nossa consciência. Nisto eu acredito por experiência.

Não será normal que as mulheres, precisamente elas, estejam tão confusas? Mas será que já reparou bem na confusão dos homens? Por que razão são precisamente as mulheres que nos causam sempre tanta aflição e são motivo de todo o escândalo no que toca à moral e aos “bons costumes”? Porquê tanta pressão e exigência moral sobre as mulheres? Porque são as mães? E os homens não são os pais?

Eu diria antes, como outros autores, que as raízes da questão se encontram no tema da propriedade privada e da consequente dominação masculina... Tão longe quanto isso.
E a nossa mente, formatada pelo patriarcado, não concede às mulheres o direito ao erro e à experiência. Este é um direito que precisamos urgentemente de reivindicar para nós.

Senão, vejamos, como faremos realisticamente a transição da sujeição às estruturas patriarcais, saturninas, que já prescreveram há décadas (no mínimo), como é o casamento tradicional, para a Nova Era, uraniana – a da autêntica liberdade? Como poderemos fazer os processos de individuação que se torna urgente que façamos?

Como faremos isso sem irmos lá, à experiência, sem vivermos a fundo os nossos desejos mais obscuros?

Para percebermos o equívoco, temos de mergulhar nele, a fundo. Não vejo outra maneira. Mesmo o tal sexo num vão de escada cumprirá, para essas pessoas, esse papel: viver o equívoco até ao limite, até perceber, caramba!, que, bolas!, não é isso o amor, não é isso que me preenche, não é aí que encontro a minha alma...

É mais cómodo ficarmos a pregar, perdoe o termo, bem resguardadinhos no nosso púlpito. É muito mais duro ir lá, às tais “boîtes”, e viver a fundo os nossos desejos mais inconfessados, aqueles que, vistos do altar, têm um ar tão abjecto...

Sabe, tenho muito respeito pelas mulheres que têm a ousadia de viver, de experimentar, de ir lá, iludindo-se e desiludindo-se. Confio mais no processo da experiência que num processo apenas mental, porque a mente é apenas uma parte de nós, não o todo.

Comovem-me cada vez mais essas queridas irmãs, tão bravas e tão frágeis, querendo desesperadamente encontrar o amor fora de si, onde tudo lhes diz que ele existe, quando só no fundo do seu coração o podem encontrar. Mas procurando, indo à luta. Tenho muita esperança de que um dia o consigam. Confio muito, como já disse, nos processos da experiência. E acho óptimo que tenham desejos, e a liberdade para os concretizarem, por mais estapafúrdios que possam parecer aos outros, aos padres, sobretudo. Tão melhor que o tempo em que, anexadas ao património familiar patriarcal, nem sequer sabiam que existiam enquanto pessoas, quanto mais que tinham desejos e que podiam realizá-los... Isso sim, considero eu um autêntico motivo de escândalo.

Mas sobretudo, como já disse, não gosto que nos sirvamos de todos os pretextos para culpabilizar a mulher. Ela é uma deusa, óbvio (somos todos deuses...), mas também tem a sua dimensão tão humanazinha, baralhada, perdida, equivocada...

Então, que tal mudar a perspectiva e reivindicar também para as mulheres, tão martirizadas, o direito vital à experiência e ao erro?

Imagem: Google

2 comentários:

Anônimo disse...

Sabe sempre bem passar por aqui e ler estes óptimos textos.
Bjs.
ana

Luíza Frazão disse...

Obrigada, Ana, minha fiel leitora.
Um Xi muito grande

Luíza