segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Diga Não à Calçada Portuguesa!

Hoje, não resisti a comprar o jornal “Rio Maior Notícias” por causa dum título na lª página: “Mulher que caiu no Jardim Municipal trava “batalha” com autarquia riomaiorense”. O meu sentimento foi idêntico, imagino, ao de prisioneiros políticos na madrugada da queda do tal regime que os aprisionava: justiça, finalmente!...

Quando uma vez vi um indivíduo ficar de repente sentado no passeio à porta da Zara da rua Garrett em Lisboa, pensei para comigo: “Eu processava a Câmara”...

Portugal é, como todos sabemos, do signo de Peixes, que é regido pelo planeta Neptuno, que por sua vez rege também os nossos pés. A energia de Neptuno é a tal que, sendo sublime, é igualmente vaga e confusa. Neptuno lança um véu, um nevoeiro, diz-se em Astrologia, que não nos deixa ver a realidade como ela é. Neptuno, com o devido respeito, rege os passeios portugueses, o piso por onde caminhamos... Só pode.

Os passeios portugueses pretendem ser sublimes, tradicionais, únicos no mundo. São, porém, vagos e confusos. Caros. E muito perigosos. Andar nos passeios portugueses é um autêntico pesadelo...

O caso do jornal tinha a ver, não exactamente com os passeios de calçada portuguesa, mas com as chulipas, traves de madeira grosseira e irregular, do Jardim Municipal, que, entretanto, foram substituídas pelo piso mais fantástico que os meus pés já pisaram em solo nacional. Trata-se dum pavimento regular, uniforme, sólido, anti-derrapante, estável e, por certo, barato, comparativamente. Embora sendo suspeita, acho-o muito bonito, moderno, funcional, pensado para oferecer aos transeuntes aquilo que toda a gente só parece exigir da polícia: segurança!

Quando me ponho a pensar nisso, acho fantástico que num país como o nosso sacrifiquemos o bem-estar, a segurança e milhares de euros à suposta beleza dumas pedrinhas irregulares, justapostas com intervalos cada vez maiores (para poupar) por calceteiros vergados até ao último milímetro de chão a preencher. As tais pedrinhas, essas, mal eles se erguem, derreados, desatam a desconjuntar-se com a velocidade a que caem as malhas nas meias de vidro... Este Verão, em pleno centro de Albufeira, enfiei um pé num desses buracos na calçada. Sentada no chão, ocorreu-me de novo o mesmo pensamento: “Vou processar a Câmara”. Mas a dor no pé passou ao fim de três dias. E estava de férias... Estela Correia, no Jardim Municipal de Rio Maior, teve uma rotura de ligamentos no joelho esquerdo.

Lembro-me de uma vez me queixar dos passeios portugueses à minha sobrinha, que prontamente respondeu: “Oh, tia, a calçada portuguesa?! A calçada portuguesa é o nosso ex libris, é a nossa calçada, mais ninguém tem igual. Faz parte da nossa tradição, da nossa identidade!”

Sim, pensei para comigo – a indignação dela não convidava a grandes contra-argumentações –, infelizmente a nossa identidade, a nossa tradição, é composta por isso mesmo: culto da dor, exaltação do sacrifício, falta de sentido prático, desconsideração pelo outro... Os homens até andam relativamente bem nessa irregularidade com os seus sapatos rasos e largos. Mas as mulheres... pelo amor de Deus!... As pobres mulheres portuguesas usam sapatos cujo design foi concebido em países onde o pavimento dos passeios também foi pensado para: saltos altos (adoro!, adoramos!), carrinhos de bebé, canadianas, cadeiras de rodas, malas de viagem, carrinhos de compras... Para a vida! Não para o show off e o salve-se quem puder, quero lá saber! Países onde não se sacrifica a segurança a nenhuma tradição obsoleta. Nem essas mulheres deixavam que fosse de outro modo. É também com o dinheiro dos seus impostos que as cidades são geridas por lá – e por cá, embora não se note...

Tudo isto poderá parecer de pouca importância, mas é grave. É grave porque falamos do chão, do chão que pisamos, da base. O que esperamos que aconteça no topo com uma base tão escorregadia, irregular e insegura?

Que chão pisará a ASAE?!

Imagens: Google

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