domingo, 31 de agosto de 2008

A Ânsia pela Normalidade...


Ser como toda a gente...

"As emoções destrutivas ligadas à cultura, matam em nós mesmos a harmonia e a paz da nossa sabedoria primordial".

Pierre Weil


“O poder castrador da nossa sociedade não é de ordem sexual, como afirmava Freud, mas sim, espiritual e o seu nome é: normose - a patologia da normalidade.

Ela impõe à sociedade, uma cultura do sucesso, sendo que o fracasso e o ostracismo são dos maiores medos do normótico, que busca a sua segurança em estados temporários e ilusórios, nos objectos exteriores, em conquistas e sucessos efémeros, não sabendo que a verdadeira segurança é uma condição subjectiva, resultado de uma experiência transpessoal, que se revelará de forma espontânea e natural no momento do despertar da verdadeira consciência.

O desastre é eminente para o normótico, que faz depender a sua segurança das parafernálias externas e não da paz da vida interna, a qual não depende das circunstâncias da vida externa. O normótico vive fazendo investimentos e seguros para a sua vida, mas não investe na espiritualidade, sendo esperto por alguns momentos, mas um tolo a longo prazo, pois demora muito para constatar que o acúmulo de riquezas, prestígio e poder é apenas uma troca, e não o fim, da sua falta de segurança. Na sua busca insana pela segurança financeira, o normótico perde a saúde para depois pagar de bom gosto tudo o que conquistou para ter novamente saúde física, mental e emocional. Na tentativa de conquistar a "pseudo-segurança" para a sua vida, o normótico esquece-se de vivê-la, e como resultado vive num desespero silencioso, precisando às vezes de chegar ao topo da escada do sucesso, para amargamente descobrir que a mesma estava encostada à parede errada. É justamente neste desespero silencioso que uma fracção de sanidade pode romper as paredes da normose e levá-lo ao questionamento do tipo: “Espelho, espelho meu, será que algum dia eu já vivi?”.

O normótico, ou se preferir, o entediado anónimo - é vítima de um estado de conflito interior prolongado. Na tentativa de anestesiar a dor resultante desse conflito interior, das esperanças frustradas e dos sonhos abortados, injecta "novocaína" - o anestésico do novo - em muitos aspectos da sua personalidade. Ele não sente nada de maneira vívida: nem alegria, nem tristeza, nem esperança, nem desespero. As coisas acontecem, mas ele não as regista, pois é preciso muita coragem para se permitir sentir. É alguém que vive num eterno confinamento solitário causado pelas suas crenças disfuncionais; alguém que se trancou numa rotina solitária e engoliu a chave. Alguém que vive uma vida unilateral e morre em estado imperfeito. Não possui a consciência de que a Grande Vida lhe deu uma alma, uma mente e um corpo, os quais deve procurar desenvolver de forma harmónica.

Vive dominado pelas influências do sistema de crenças do modismo social permitindo que a sociedade continue a impor-lhe as suas ilusões por meio de um fortíssimo esquema de marketing que o bombardeia de forma brutal durante as 24 horas do seu dia-a-dia. Não possui a coragem de virar a mesa contra o cliché social e assumir a responsabilidade pela sua maneira de pensar e pelo controlo da sua vida. Não é difícil constatar os resultados desse caótico modo de viver: medos, preocupações, paranóias, stresse, insatisfação, descontentamento e toda a espécie de somatização oriunda de uma pseudofelicidade. Não consegue perceber que sem satisfação interior, nenhum acúmulo de sucesso exterior consegue trazer felicidade e segurança duradouras. Como Adão e Eva, vive exilado do jardim das delícias da unidade consciente com Deus, pela acção da serpente do conformismo, tornando-se com isso, um ser limitado devido ao crédito dado ao sistema de crenças do clã a que pertence.

O normótico opta por uma forma de pensar pelo simples facto de muitas pessoas optarem por ela ou por constar de algum livro que a sociedade considera como sagrado; não consegue avaliar por si mesmo sobre a questão e ajuizar se ela é razoável ou não. Para ele, prender-se às velhas rotinas consagradas pela sociedade é muito mais seguro do que aventurar-se ao Aberto. É aquele cujo desejo mais profundo ainda dorme, mas que teme a acção perigosa de acordar. É como um cavaleiro que perdeu o domínio da carruagem e é arrastado pelos cavalos dos instintos degenerados. Vive atrelado à matéria, com o Ser ainda fechado para o que é eterno, caminhando sobre uma corda bamba, em chamas, pronta para arrebentar.

Não possui a consciência de que não é um ser material com necessidades espirituais ocasionais; mas sim, um ser espiritual com necessidades materiais ocasionais. Prefere a pseudopaz do conformismo social à angústia da busca pelo seu devir. Passa a maior parte da sua vida com um sentimento de vazio e de falta de propósito tão grande, que é como se faltasse uma parte de si mesmo. Sem que se aperceba, muito do que faz leva-o cada vez mais para a sensação de vazio interior, que procura preencher com o acúmulo de dinheiro e de matéria, prestígio e reconhecimento profissional, chegando muitas vezes a extremos como o excesso de comida, bebida, sexo ou até mesmo às drogas.

Quanto maior é o seu desespero por ocupar esse vazio interior, mais vazio se sente. Em momento algum, lhe ocorrer que essa sensação de ausência possa ser de natureza espiritual, muito embora, esse conhecimento lhe chegue de várias maneiras. É somente quando a dor chega ao seu extremo que ele começa a olhar para dentro de si e a buscar por algumas práticas espirituais, através das quais, finalmente, pode encontrar o verdadeiro conceito de objectivo e plenitude.”
(...)

PIERRE WEIL

Copiado de Mulheres & Deusas

Imagem: Portalascensional

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Entrevista com RIANE EISLER


Atenção, que há uma super-entrevista dada por RIANE EISLER ("O Cálice e a Espada") aqui. Obrigada, Lealdade Feminina!

MEU DESTAQUE:

“Primeiro, trabalhem no sentido de devolver poder às mulheres, pq se o fizermos em todo o mundo, é óbvio que estamos a fazê-lo tbm a nós próprias. Criamos não apenas oportunidades para as outras, mas para nós mesmas e nossas filhas e filhos, pq só dando mais poder às mulheres podemos alterar o sistema de domínio que hj nos ameaça. Que o nosso objetivo seja estarmos activamente envolvidas. Arranjem uma maneira de ser auto-suficientes do ponto de vista económico – independente. Em todas as relações deve haver reciprocidade, E DEVEMOS IMPORTAR-NOS CONOSCO PRÓPRIAS. TENTE CEDER PERANTE SI PRÓPRIA. Escrevi em The Power of Partnership que a regra de ouro era maravilhosa. Fazer aos outros o que querem que te façam a ti. Mas que tal se fizermos a nós próprias aquilo que gostaríamos que nos fizessem...rs...(risos dela...rs...)

Um dos melhores conselhos é: não aceite muitos conselhos! rs... Procure a resposta em si própria. Tente perceber o que a tem retraído, ouça a sua autêntica voz e procure conselhos nela. Esse pode ser um dos maiores desafios pras mulheres...”

PORQUE... DIZ A PROPAGANDA PATRIARCAL:

“... não devemos QUERER... não devemos desejar, devemos é ser desejáveis, desejadas pelos outros, . Não devemos ter objectivos, nosso objectivo deve ser ajudar os outros. Bem, fomos mesmo bem ensinadas a renunciar!

Uma grande parte da nossa alegria como seres humanos está em empenhar-se, em desejar, em antecipar. Mas a propaganda dominadora diz-nos "Não se preocupe, está tudo em ordem, só precisa estar alheio e renunciar ao prazer e à alegria."...”

terça-feira, 26 de agosto de 2008

E vou finalmente falar das minhas férias...

A Ana disse: “Foram as melhores férias da minha vida”. Eu não o disse, mas pensando bem, é difícil encontrar na memória outras férias de Verão que se lhes comparem.

Se me perguntarem o que fizemos: nada de especial. A Ana levantava-se cedo para levar o Groucho até à praia. Eu ficava na cama. Depois fazia os meus exercícios de yoga (mais ou menos), alimentava a Bia – sempre inconsolável por ter de privar com um cão... – tomava o pequeno almoço na varanda bem abrigadinha da F. e do K. - uns queridos por intermédio dos quais se manifestou a abundância deste Universo...
Quando a A. chegava, podíamos ir até à praia, atravessando os jardins do Auramar; o caminho de terra batida que ladeia aquilo que parecia ser um reduto dos franceses, com pétanque e tudo; depois a rampa de asfalto e finalmente as escadas que descem até ao areal. Ainda uns bons minutos de caminhada.

Lá em baixo, o banho, de água e de sol, as leituras e a conversa. É fácil conversar com a A.: temos ambas Mercúrio na casa quatro e sob o domínio de Júpiter, o expansivo... Temas que versaram, resumidamente, a arrumação da nossa casa interior...

Adoro a praia, o ambiente descontraído da praia, a liberdade da praia. Adoro não me ralar com celulite, flacidez, redondezas... e apanhar sol e vento no máximo de centímetros da minha pele. Agrada-me a descontracção da praia. Nunca me vestir nem pentear verdadeiramente, passar o tempo descalça, ou com os pés enfiados num chinelos indianos já a pedirem a reforma. Mas as refeições foram sempre a horas: saladas e sopas, basicamente. Em matéria de bebidas, experimentámos fazer as famosas “águas frescas”, receita da Pública dum destes domingos, que, segundo se dizia lá, são grande moda nos States...

De vez em quando caminhávamos, fazíamos a pé as largas centenas de metros pelo areal até à cidade. Uma vez a A. comprou uma grande túnica africana, que depois reproduzi, à mão, ponto por ponto, para ambas.

Segundo a interpretação feita por ela, grande especialista, sendo que a roupa simboliza os nossos relacionamentos, nós teremos adquirido ali, naqueles 23 dias, e ajudadas pelas fortes energias de Agosto, uma nova “roupagem”. Teremos então saído, daquelas longas horas de mútua análise, com uma nova maneira de nos relacionarmos, mais livre, descontraída, larga, como a túnica, onde nos sentimos tão à vontade... Que bom, já era tempo!

A verdade é que ambas reavivámos ali a nossa violenta paixão... pelo Sul, pela nonchalance do Sul. Congeminámos um Sul perpétuo para as nossas vidas - foi outro dos temas dominantes. Um Sul ao sul do Sul, como o Oriente do Álvaro de Campos...

Contra a fleuma da A., a minha vontade de fazer coisas, o bulício em mim, o meu workaholiquismo galopante dos últimos tempos, desfazia-se em pura vacuidade... Para quê fazer se podemos apenas ser? Ser um coração que vibra em agradecimento pela glória de estar vivo, pela glória da criação. Isto não é pura retórica, é o Sul em nós...

Acho extraordinário nunca nos termos aborrecido. Pelo contrário, cada vez nos sentíamos mais coladas àquele lugar: adiámos por três vezes o nosso regresso ao... Norte. No último minuto, a A. chegou a perguntar: “Mas tenho mesmo de ir?” Tinha. Era importante para ela. E não se arrependeu.

O que veio à tona na “espuma dos dias”? Quando estamos bem connosco, quando já nos libertámos de uma série de amarras, passado o retorno do Quíron (aos 50/51 ele volta ao sítio onde estava no momento em que nascemos), estamos bem em qualquer lugar, embora o Sul seja mais doce... Mais: precisamos de tão pouco para ser felizes... Outra pérola de sabedoria: para quê perdermos tempo com os medos? E ainda: em qualquer lugar, mesmo no apinhado Algarve, podemos encontrar sossego e paz se os tivermos dentro de nós... Mas há mais: praticar o desapego. De tudo. Mesmo dumas férias fantásticas com a A. à beira-mar!...

Agradecimentos:

Ao Método Louise Hay e à Astrologia, com os quais já percorremos ambas um longo caminho de autodescoberta e de amadurecimento.
À F. e ao K. que nos cederam o seu ap.
Ao Universo, generoso e protector, que nos dá tudo aquilo de que estamos a precisar no momento certo, mesmo que por vezes não compreendamos bem o que quer dizer com aquilo que nos envia...
À A., pela sua já mencionada fleuma, sabedoria, auto-centragem, independência e irreverência – tão inspiradoras e libertadoras.
A mim própria, que mereci e aceitei que merecia.

Obs. Ah, havia uma "música de fundo"... Sendo deliciosa, não era exactamente indispensável... Mas essa é só cá pra nós...

Imagens: Google

O Direito à Experiência e ao Erro

Para Rosa Leonor, Mulheres & Deusas

Querida Rosa Leonor,

Tenho lido regularmente o seu blog. Gosto quase sempre. Não gostei muito deste aqui, onde se falava das mulheres actuais e do seu desatino. Soou-me muito, vai-me desculpar, a retórica de púlpito... “As mulheres estão perdidas”. Sem a Deusa.

Veja, os padres dizem rigorosamente o mesmo há séculos e séculos, apenas mudando o género da divindade. Ora, onde me situo eu para achar que os outros estão perdidos? Qual é esse porto de abrigo, esse local de chegada, esse ancoradouro em que supostamente todos estaríamos a salvo?

Não será por certo neste planeta, nesta dimensão densa onde agora estamos encarnados... Não sem antes termos feito algum trabalho pesado, não é assim? Embora, por suposto, sejamos seres duma dimensão mais leve e luminosa, teremos vindo até cá para fazer experiências na matéria, para elevar a matéria. Ah, sim, enterramos nela os nossos pés muitas vezes, baralhamo-nos muito, equivocamo-nos com frequência. Sofremos.

Dizem-nos os mestres que o grande factor de elevação da consciência é precisamente a dor. Só quando chegamos ao limite da dor e do equívoco, podemos mudar a nossa percepção das coisas e elevar a nossa consciência. Nisto eu acredito por experiência.

Não será normal que as mulheres, precisamente elas, estejam tão confusas? Mas será que já reparou bem na confusão dos homens? Por que razão são precisamente as mulheres que nos causam sempre tanta aflição e são motivo de todo o escândalo no que toca à moral e aos “bons costumes”? Porquê tanta pressão e exigência moral sobre as mulheres? Porque são as mães? E os homens não são os pais?

Eu diria antes, como outros autores, que as raízes da questão se encontram no tema da propriedade privada e da consequente dominação masculina... Tão longe quanto isso.
E a nossa mente, formatada pelo patriarcado, não concede às mulheres o direito ao erro e à experiência. Este é um direito que precisamos urgentemente de reivindicar para nós.

Senão, vejamos, como faremos realisticamente a transição da sujeição às estruturas patriarcais, saturninas, que já prescreveram há décadas (no mínimo), como é o casamento tradicional, para a Nova Era, uraniana – a da autêntica liberdade? Como poderemos fazer os processos de individuação que se torna urgente que façamos?

Como faremos isso sem irmos lá, à experiência, sem vivermos a fundo os nossos desejos mais obscuros?

Para percebermos o equívoco, temos de mergulhar nele, a fundo. Não vejo outra maneira. Mesmo o tal sexo num vão de escada cumprirá, para essas pessoas, esse papel: viver o equívoco até ao limite, até perceber, caramba!, que, bolas!, não é isso o amor, não é isso que me preenche, não é aí que encontro a minha alma...

É mais cómodo ficarmos a pregar, perdoe o termo, bem resguardadinhos no nosso púlpito. É muito mais duro ir lá, às tais “boîtes”, e viver a fundo os nossos desejos mais inconfessados, aqueles que, vistos do altar, têm um ar tão abjecto...

Sabe, tenho muito respeito pelas mulheres que têm a ousadia de viver, de experimentar, de ir lá, iludindo-se e desiludindo-se. Confio mais no processo da experiência que num processo apenas mental, porque a mente é apenas uma parte de nós, não o todo.

Comovem-me cada vez mais essas queridas irmãs, tão bravas e tão frágeis, querendo desesperadamente encontrar o amor fora de si, onde tudo lhes diz que ele existe, quando só no fundo do seu coração o podem encontrar. Mas procurando, indo à luta. Tenho muita esperança de que um dia o consigam. Confio muito, como já disse, nos processos da experiência. E acho óptimo que tenham desejos, e a liberdade para os concretizarem, por mais estapafúrdios que possam parecer aos outros, aos padres, sobretudo. Tão melhor que o tempo em que, anexadas ao património familiar patriarcal, nem sequer sabiam que existiam enquanto pessoas, quanto mais que tinham desejos e que podiam realizá-los... Isso sim, considero eu um autêntico motivo de escândalo.

Mas sobretudo, como já disse, não gosto que nos sirvamos de todos os pretextos para culpabilizar a mulher. Ela é uma deusa, óbvio (somos todos deuses...), mas também tem a sua dimensão tão humanazinha, baralhada, perdida, equivocada...

Então, que tal mudar a perspectiva e reivindicar também para as mulheres, tão martirizadas, o direito vital à experiência e ao erro?

Imagem: Google

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Diga Não à Calçada Portuguesa!

Hoje, não resisti a comprar o jornal “Rio Maior Notícias” por causa dum título na lª página: “Mulher que caiu no Jardim Municipal trava “batalha” com autarquia riomaiorense”. O meu sentimento foi idêntico, imagino, ao de prisioneiros políticos na madrugada da queda do tal regime que os aprisionava: justiça, finalmente!...

Quando uma vez vi um indivíduo ficar de repente sentado no passeio à porta da Zara da rua Garrett em Lisboa, pensei para comigo: “Eu processava a Câmara”...

Portugal é, como todos sabemos, do signo de Peixes, que é regido pelo planeta Neptuno, que por sua vez rege também os nossos pés. A energia de Neptuno é a tal que, sendo sublime, é igualmente vaga e confusa. Neptuno lança um véu, um nevoeiro, diz-se em Astrologia, que não nos deixa ver a realidade como ela é. Neptuno, com o devido respeito, rege os passeios portugueses, o piso por onde caminhamos... Só pode.

Os passeios portugueses pretendem ser sublimes, tradicionais, únicos no mundo. São, porém, vagos e confusos. Caros. E muito perigosos. Andar nos passeios portugueses é um autêntico pesadelo...

O caso do jornal tinha a ver, não exactamente com os passeios de calçada portuguesa, mas com as chulipas, traves de madeira grosseira e irregular, do Jardim Municipal, que, entretanto, foram substituídas pelo piso mais fantástico que os meus pés já pisaram em solo nacional. Trata-se dum pavimento regular, uniforme, sólido, anti-derrapante, estável e, por certo, barato, comparativamente. Embora sendo suspeita, acho-o muito bonito, moderno, funcional, pensado para oferecer aos transeuntes aquilo que toda a gente só parece exigir da polícia: segurança!

Quando me ponho a pensar nisso, acho fantástico que num país como o nosso sacrifiquemos o bem-estar, a segurança e milhares de euros à suposta beleza dumas pedrinhas irregulares, justapostas com intervalos cada vez maiores (para poupar) por calceteiros vergados até ao último milímetro de chão a preencher. As tais pedrinhas, essas, mal eles se erguem, derreados, desatam a desconjuntar-se com a velocidade a que caem as malhas nas meias de vidro... Este Verão, em pleno centro de Albufeira, enfiei um pé num desses buracos na calçada. Sentada no chão, ocorreu-me de novo o mesmo pensamento: “Vou processar a Câmara”. Mas a dor no pé passou ao fim de três dias. E estava de férias... Estela Correia, no Jardim Municipal de Rio Maior, teve uma rotura de ligamentos no joelho esquerdo.

Lembro-me de uma vez me queixar dos passeios portugueses à minha sobrinha, que prontamente respondeu: “Oh, tia, a calçada portuguesa?! A calçada portuguesa é o nosso ex libris, é a nossa calçada, mais ninguém tem igual. Faz parte da nossa tradição, da nossa identidade!”

Sim, pensei para comigo – a indignação dela não convidava a grandes contra-argumentações –, infelizmente a nossa identidade, a nossa tradição, é composta por isso mesmo: culto da dor, exaltação do sacrifício, falta de sentido prático, desconsideração pelo outro... Os homens até andam relativamente bem nessa irregularidade com os seus sapatos rasos e largos. Mas as mulheres... pelo amor de Deus!... As pobres mulheres portuguesas usam sapatos cujo design foi concebido em países onde o pavimento dos passeios também foi pensado para: saltos altos (adoro!, adoramos!), carrinhos de bebé, canadianas, cadeiras de rodas, malas de viagem, carrinhos de compras... Para a vida! Não para o show off e o salve-se quem puder, quero lá saber! Países onde não se sacrifica a segurança a nenhuma tradição obsoleta. Nem essas mulheres deixavam que fosse de outro modo. É também com o dinheiro dos seus impostos que as cidades são geridas por lá – e por cá, embora não se note...

Tudo isto poderá parecer de pouca importância, mas é grave. É grave porque falamos do chão, do chão que pisamos, da base. O que esperamos que aconteça no topo com uma base tão escorregadia, irregular e insegura?

Que chão pisará a ASAE?!

Imagens: Google

AINDA O HI5...

Hi 5 ou caixa de Pandora?...

Acabo de receber o mimo que se segue. Ter uma Câmara Muncipal como "amigo no hi5" é superchique e sempre dará jeito, mas... será que é legal andarem a contactar todos os meus endereços electrónicos?

hi5 Câmara Batalha é agora teu amigo!

Olá Luiza,

Tu e Câmara estão agora ligados. Podem conhecer novas pessoas através dos amigos um do outro.


Contacta o teu Novo Amigo»

Obrigado por te juntares a nós,
a equipa do hi5

domingo, 24 de agosto de 2008

Prefiro os Jogos Olímpicos...

Não gosto de desporto. E adoro desporto. Sou Carneiro. Não gosto de jogos/competições olímpicas, e dou por mim fascinada com as provas, seja de que modalidade for, quando por acaso a televisão calha de estar ligada... Ainda ontem, nos dois minutos que estive em trânsito do 2º canal para o canal 25, o Infinito, vi ginastas maravilhosas, enrolando-se e desenrolando-se em/de longas fitas de cetim. Um espanto.

Não gosto do aproveitamento político, do nacionalismo rançoso – o mesmo que determina guerras e genocídios –, mas quando a/o atleta português apanha a bandeira que lhe estendem da assistência, ou mesmo quando se ouve no estádio o hino nacional, vêm-me as lágrimas aos olhos... Tenho sentimentos contraditórios. E não serei a única.

No fundo, há ali duas coisas que me fascinam: a actividade física e a auto-superação. Podemos trocar “competição” por “incentivo”, “motivação”: “Oh, ela fez em 8 minutos... Talvez eu possa fazer em 7.59.59”...

Claro, todos sabemos dos abusos, dos dopingues, da transformação de seres humanos em supermáquinas... A coisa é pesada mesmo. Por isso, quando o nosso gorduchinho disse que, de manhã, do que gostava mesmo era de dormir, indignámo-nos. Mas o Pulido Valente já explicou ontem no Público que, com o que lhes pagam, os nossos atletas têm todo o direito de serem caprichosos. Profissionalismo paga-se bem mais caro... E um senhor da Federação veio dizer que era uma vergonha, que, contrariamente ao que acontece nos países que levam a coisa à séria, nós nem sabemos o nome dos nossos atletas de alta competição. É verdade. Eu, por exemplo, não sei... Não lhes ligamos nenhuma. Só depois, quando vemos os outros com medalhas, também queremos. Atenção à infantilidade galopante!...

Há dias, vi uma reportagem sobre uns Jogos Olímpicos Seniores de que nunca tinha ouvido falar. O ambiente ali pareceu-me do melhor e mais são que se pode imaginar. Riam-se e abraçavam-se muito. Por um momento, apeteceu-me começar a treinar a corrida, aqui, na nossa novíssima ciclovia. Afinal vivo na “cidade do desporto”... A visão que tenho da janela do meu quarto é a de campos de treino e de estádios desportivos – boa energia, segundo o Feng Shui...

Nos tais jogos olímpicos, havia um homem de 90 anos a competir. Com os portugueses queixando-se da falta de apoios monetários. Por caridade, pagavam-lhes as viagens. E eles lá estavam, provando o quanto poupam à Segurança Social em subsídios para os medicamentos e lares de 3ª idade... Repletos de energia e de vitalidade, garantindo os melhores resultados em qualquer chek up.

O mais fantástico para mim, devo dizer, era o ar das atletas. Mulheres muito para lá da menopausa corriam desalmadamente, e uma portuguesa, a Joaquina, ganhou mesmo uma medalha. Estava tão feliz, parecia tão realizada que dava gosto vê-la – e vontade de estar lá, também. Tive a certeza de que era uma protegida de Artemisa, a Deusa. A mulher selvagem estava ali, apesar de toda a doçura que irradiava de Joaquina...

Tão diferente das mulheres da mesma idade que se vêem pela praia nesta altura, por exemplo – tantas! – arrastando-se, sem pinga de vitalidade, atrás das barrigas proeminentes de maridos insatisfeitos, rezingões e prepotentes, mortinhos por chegarem a casa e tomar uma cerveja refastelados no sofá. Lá, enquanto elas lhes preparam o jantar, há-de estar um ecrã qualquer, onde num relvado qualquer, hábeis matulões – esses sim, literalmente pagos ao preço do ouro – farão para/por eles todo o desporto que verdadeiramente conta neste mundo...

Prefiro os Jogos Olímpicos. Os Seniores...

Imagem: Alina Kabaeva

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O que é isso do HI5?

Vagamente, só mesmo muito vagamente, saberei o que é o hi5. Diz-se “ter um hi5”?, “ter um perfil no hi5”? “estar no hi5”? Não faço ideia, nem nunca me interessei muito por esclarecer isso, devo confessar. Mas a algumas pessoas que conheço, conversando sobre blogues, ouvi dizer qualquer coisa como “Tenho o hi5…” ou era “Estou no hi5”?... E foi assim que fiquei a saber que a coisa existia. Certa ocasião, alguém chegou mesmo a confessar à minha frente que tinha uns quatrocentos amigos no hi5… Achei muito, mas o que sei eu sobre o assunto?

Por duas ou três vezes recebi emails onde me perguntavam se queria ser “amigo no (do?) hi5”. Nunca respondi. Basicamente por não dispor de mais tempo para me envolver com a Net. Sabe Deus o quanto o tempo para o meu blogue é esticado, negociado, usurpado, culpabilizado… E a vida, o ar puro, a natureza, o vento na face, o sol na pele…?

Bem, até que um dia destes, em pleno repouso das faculdades mentais mais elementares (pausa estival oblige…), recebo uma mensagem da Margarida Neto: “Queres ser minha amiga no hi5?” Como não, pois se sou amiga da Margarida na vida real?... E vá de dizer que sim, que queria, e de seguir os passos para onde o dito email me remetia até ao meu registo no… hi5.

No dia seguinte, ao abrir o correio, pesadelo: uma larga percentagem da minha lista de endereços electrónicos garantia ser meu amigo no hi5!!! Havia até comentários, boas-vindas, incentivos. Vi fotos da V, da MJSO, da SS, da VL, da AM, da SL, do NM… e até me foi dado perceber como se podia cotar, através de votação, uma enorme flor roxa…

Mas sobretudo verifiquei, consternada, que ter dito que sim ao pedido da Margarida me transformara a mim própria em alguém que pedia amigos no hi5… Só podia, pois nunca eu conscientemente pediria amigos no hi5 – nem noutro sítio qualquer, diga-se. Assim como a própria Margarida nunca deve ter pedido… Ou será que eu cliquei lá onde não devia?

Tenho 56 anos e os emails diziam que fulana(o) tal aceitara o meu “pedido de amizade”… Pedido de amizade?! Assim, textualmente: “G. aceitou o teu pedido de amizade”… A prova cabal da sinistra ideia de que a matriz de controlo transforma mesmo as crianças em adultos e os adultos em crianças (no pior sentido, note-se). Tudo a bem do consumo e do liberalismo económico mais selvagem… A última vez que terei pedido a alguém para ser meu amigo deveria ter 5 ou 6 anos, se é que alguma vez tal coisa me aconteceu – duvido muito que isso aconteça fora dos filmes da Disney…

Eu sei que todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai/Mãe, que todos somos um, que todos somos o mesmo. E cada vez sinto mais tolerância, aceitação e amor por toda a humanidade e por toda a criação. Tanto sentimento de inclusão e de fraternidade que a última coisa que me passaria pela cabeça seria andar por aí a pedir: “Queres ser meu amigo?” Para que perguntaria eu isto se aquela pessoa já é minha irmã, meu irmão?!

Ora acontece que irmã/irmão é muito bom, mas Amigo… Amigo é outra coisa. Quando nos tornamos adultos, percebemos que a amizade é outra coisa, que ela simplesmente acontece, não há como negociá-la, forçá-la, pedi-la. E quantos mais amigos encontramos ao longo da vida, mais respeito temos pela palavra e com mais parcimónia a usamos…

São agora 4 e 56 da manhã e acordei estremunhada por dois motivos. Primeiro: a lembrança de todos os que não tinham aceitado o meu suposto “pedido de amizade”… Imaginava a cara do JB, da MI, da RL e por aí fora… Segundo motivo: lá em baixo na esplanada, as últimas despedidas de um grupo de amigos de carne e osso eram particularmente ruidosas. Quando cheguei à varanda, havia amigos abraçando-se, gesticulando, bufando de puro contentamento, de enorme prazer por estarem juntos, olhando-se nos olhos, tocando-se na pele, dizendo as graçolas certas que provocavam as estridentes gargalhadas que me tinham acordado. Já um bocadinho etilizados, como é óbvio…

Enquanto que noutros tempos espumaria de raiva, hoje dou por mim enternecida, solidária e protectora de um verdadeiro grupo de amigos em carne e osso, mesmo que isso me custe o meu precioso sono da madrugada, que sempre foi o meu favorito.

Tudo por causa da ameaça que pressinto a pairar sobre estes grupos de amigos reais, que é a de que possam também eles passar-se para as redes desinfectadas da Net, onde qualquer um, sem ter passado por qualquer prova, se arvora em “amigo”. Por favor!...

(Isto merecia mesmo era um tratado).

Amigos acontecem quando as voltas da vida de repente me colocam em sintonia com Aquela pessoa, quando ela diz ou faz, ou não diz nem faz, qualquer coisa que reflecte uma qualidade humana que me é cara, ou no momento em que nas minhas células há um reconhecimento. Amigos não resultam de eu andar a bater a todas as portas de email pedindo por eles. Tirem-me desse filme!

Já agora aproveito para, do fundo do coração, agradecer a todas e a todos aqueles que prontamente quiseram ser meus “amigos do hi5” – uns queridos! Bem hajam!

Imagem: Amiguinhos encontrados aqui no Google...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Paraíso

Uma imagem de Cacela (Ria Formosa), onde estive ontem com a Ana C., neste final das férias à beira mar.
O Universo foi generoso. Tanta beleza, sol, descontracção e conversas da alma... 21 dias de paraíso prestes a chegarem ao fim.
Tão bom perder as coordenadas do quotidiano...

Imagem: Google

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

8 de Agosto 2008


" Em 8 de Agosto opera-se efectivamente o alinhamento final entre o portal maior terrestre - miztitlan - o portal maior das plêiades Alcione - o portal maior de Sírius - Punta Raia - e o portal central de orion - Alnitak.
Alniatk ( Orion )- Punta Raia ( Sirius ) - Alcione ( Pleiades ) – Miz Ti Tlan ( Terra )
(...)
Este Agosto marca o culminar de uma fermentação secreta no íntimo da Terra, nos seus múltiplos veículos de expressão, dos homens e do sistema solar, complementada por um baptismo estelar sem precedentes.
Sabemos isto não como algo que estudamos e compreendemos, ou como uma conclusão logica da teoria das energias. Sabemos isto por nós mesmos, é inerente a estarmos vivos.

De ORION descem as correntes salvíficas de regénese planetária. A Terra é um dos raros cenários onde o problema universal será resolvido em breve e cada um de nós é uma pedra viva na ecclesia invisível e sem nome nem morada.
Com alegria no coração chamamos todos os amantes planetários não a "isto" nem a "aquilo", nem a "nós", nem a rituais externos, mas a si mesmos.

A descida-precipitação Oriónica agora presente anuncia o novo ciclo de confiança, alegria, expansão e revolução energética que esperávamos desde a nossa adolescência espiritual.
Um evento sublime envolve toda a vida planetária nestes tempos. Correntes de vida, de potência desconhecida, aproximam-se do nosso espaço-tempo. A emergência da Vida Original já começou em todos os quadrantes do nosso planeta. Todos os seres de todos os reinos estão sendo internamente mobilizados para uma elevação do coeficiente de luz que a Terra passará a manifestar.
A égide deste alinhamento cosmológico é a Mente-Coração Criadora local - Cristo Miguel.


"Não conheceis AINDA a beleza e o esplendor dos planos de combustão
pura, o Universo Ardente. Suaves brisas desse Nível tocaram ao de leve a orla das vossas Almas, o que foi suficiente para vos imantar ao ponto de saberdes que não é possível, para aquele que pisou a Senda, abandoná-la.”
(...)

Vamos caminhar como tigres jovens na floresta ao amanhecer, sob o signo supremo do Cristo Cosmico.

De: Mulheres & Deusas

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A Nova Convergência Harmónica


A Nova Convergência Harmónica
Abertura do Portal 8-8-8
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008


O despertar da Rosa Crística no coração do homem e da Mãe Terra é uma Ascensão, um acontecimento cósmico, humano e planetário de grande transcendência
Saudações, encarnações do Amor Divino!

Haverá uma grande onda de energia de pulsação luminosa nesse dia. Uma onda de luz transformadora que se distribuirá telepaticamente à volta do planeta, a partir do corredor Arturiano… será um nível de Luz harmónica que nunca antes se viu, globalmente, neste planeta. É uma grande oportunidade para que se reúnam todas as sementes estrelares, os trabalhadores de Luz, os faróis de luz, em dança e celebração, em arte e consciência, em SERVIÇO.

Há uma nova onda de frequência, uma nova harmonia, que se chama a Luz de 8-8-8, a nova Energia de Convergência Harmónica. Esta é uma nova vibração que vem dos Mestres do Triângulo Sagrado, até ao planeta. É hora de estarmos abertos à recepção de uma nova frequência de pulsação luminosa. Esta nova frequência é uma força vibratória magnífica e transformará a Terra duma forma alquímica. As densidades, neste planeta, ainda que parece que não seja possível mudarem, vão mudar. Os vossos pensamentos e corpos físicos ajustar-se-ão e também mudarão. A energia da Nova Convergência Harmónica pode transcender os bloqueios e as baixas distorções vibratórias que foram criadas através da ignorância humana.

Neste dia 8-8-8, haverá um novo cabo, poderemos chamar-lhe assim, que vem do Sol Central, o Corredor Arturiano (a Energia do Sol Central chegará, assim, à Terra). É uma frequência vibratória de Energia Poderosa, em relação à rede energética existente de Gaya. 888 marca a revolução total e completa de quase todo o mundo. Notifica-se a Humanidade que chegou a hora de aprendermos a compartilhar os recursos do planeta. O significado chave do 888 é a necessidade de aprendermos a conhecermo-nos através do espelho de quem nos cerca e, aprendermos a dominar-nos, partindo do respeito pelos direitos dos outros.
É interessante que no Calendário Maya este dia revelasse como:

"O grau mais elevado que foi alcançado".


O Humano, elevado ao seu mais alto grau, dá a sabedoria, imparcialmente, a partir do alto da vontade livre; é o poder de unificar, é o dia do chakra do coração, do qual a chave é o serviço e a acção vinculativa. É o dia em que a amizade é a mãe da felicidade. Sem unidade não há desenvolvimento. Celebremos então, a nova Comunidade Quântica, a Comum-Unidade.
Convidamos-te a participar, onde quer que te encontres, na Nova convergência Harmónica 8-8-8 e a entrar nas Novas Frequências de Ressonância Harmónica para a Ascensão individual e planetária. Imaginem milhares de semente estrelares à volta do mundo entoando simultaneamente um canto sagrado. Imaginem o som-vibração a viajar à volta da Terra, criando uma formosa energia de cura, removendo bloqueios, criando novos equilíbrios e ajudando a trazer o homem até uma convergência harmónica com a Jóia Azul, sua mãe, a Mãe Terra.

Alma, onde quer que te encontres, une-te ao processo de participar na Activação do Corpo de Luz Planetário, participando activamente na activação dos códigos de Luz, durante 12 minutos em meditação mundial cantando o Gayatri, que é a vibração que trará a nova frequência do 8-8-8. Sintonizem-se com o Gayatri. Cantem o Gayatri. Contemplem-no. Que o Gayatri nos conduza ao regaço da Mãe do Mundo:

OM BHUR BHUVAH SWHAH
TAT SAVITUR VARENYAM
BHARGO DEVASYA DHIMAHI
DHIO YO NAH PRACHODAYAT


Ventos de Lys http://www.ventosdelys.com
Retirado do blogue MULHERES & DEUSAS

Imagem: Rosa Meditativa, Salvador Dali

O Futuro do Amor I


O casamento e a sociedade

A estabilidade do casamento – a ideia de duas pessoas se ligarem para toda a vida – tem sido tão importante para a nossa sobrevivência colectiva que as nossas convicções sobre o casamento se tornaram um dos pilares da sociedade. Na verdade, o manter as nossas relações numa base equilibrada, fazer com que os nossos casamentos funcionem como unidades estáveis e fiáveis, peças que zumbem na engrenagem em movimento das nossas pequenas comunidades, é o que faz da “sociedade” o que ela é, e a sociedade é o que incita o casamento a ser o que ele é.

Para criar estabilidade social, há uma exigência não declarada, uma espécie de atmosfera ou fragrância no ar que diz às pessoas casadas para continuarem casadas, para se comportarem, para se preocuparem com as coisas mais importantes que a sociedade tem para oferecer e não fazerem nada demasiado disruptivo, como optar por viver numa comunidade, fugir com o vizinho do lado ou decidir não pagar impostos.

Mas porque essa exigência não declarada é função da nossa consciência social e não da consciência pessoal, as pessoas casadas são levadas a guiar-se por valores exteriores e a participar numa consciência genérica em vez de numa consciência individual ou visionária. Em vez de mergulharmos no mais profundo do nosso íntimo onde poderíamos encontrar a sabedoria dos nossos corações (e talvez deparar-nos com soluções sociais espantosas ou formas de relacionamento invulgares – uma relação transcontinental a tempo parcial ou um compromisso monógamo uma vez por semana, por exemplo) tornamo-nos como as ovelhas que vão andando com o rebanho. A verdade é que o casamento – como relação – foi apropriado pela sociedade e, servindo a sociedade, com frequência sufoca a alma individual.

O dever, a responsabilidade e a convenção social, se bem que importantes, muitas vezes afastam-nos da nossa ligação natural mais profunda uns com os outros – a nossa ligação sentida – e assim, ao tentar servir o todo, podemos trair-nos ou abandonar-nos a nós próprios. Em vez de procurarmos nos nossos corações, mentes e consciências as formas adequadas para as nossas relações, permitimos que os casamentos se tornem versões diluídas dos valores da sociedade em vez de uniões emocionais vibrantes que nutrem as pessoas que os partilham.

As nossas convicções sociais quanto ao casamento ainda se encontram profundamente entranhadas, mas à medida que se tornam aparentes as mudanças que atravessamos, começam a perder o seu peso. E, na verdade, para nos desenvolvermos como personalidades e almas, essas convenções têm de perder o poder. Mas as noções inerentes à nossa memória colectiva dificilmente desaparecem e todas as pessoas que vivem hoje em dia continuam a manter no íntimo a ideia de que todas as nossas relações devem ser vividas de forma semelhante ao casamento.

Daphne Rose Kingma, O Futuro do Amor, Sinais de Fogo

Imagem: Alice Buis

O Futuro do Amor II

Como Passou a Ser Assim

Pelo menos até ao séc. XX, precisámos das convicções sociais acerca do casamento para sobreviver. Eram o reconhecimento interior das circunstâncias necessárias para que a família humana chegasse onde se dirigia. Os nossos bisavós não se questionavam sobre se iam viver em felicidade romântica, êxtase sexual ou esclarecimento espiritual nas suas relações. Engraçavam um com o outro, avançavam para o casamento e seguiam para a planície, para a Floresta Negra, para a quinta, para o celeiro ou para o campo de batalha, para fazer o que era preciso. Foi por terem assegurado a nossa sobrevivência que pudemos emergir no século XX como os seres psicológicos em que nos tornámos. Mas agora temos uma nova incumbência evolucionária e, para a pormos em prática, temos que perceber que essas noções deixaram de ser importantes.

Daphne Rose Kingma, O Futuro do Amor, Sinais de Fogo

Imagem: Alice Buis

domingo, 3 de agosto de 2008

De Mulher para Mulher

Temos uma maneira especial de nos comunicar, ela não pode ser descrita. É cheia de silêncios, gestos, olhares, expressões, movimentos serenos da alma e dos sentimentos. Nós sabemos que sabemos.Também sabemos que não conhecemos o que sabemos. Esta é a nossa cumplicidade. Como mulheres temos a inclinação de fazer pelos outros, o que normalmente não faríamos por nós. Amar, cuidar, simpatizar, sentir pelos outros...naturalmente coloca-nos além dos nossos próprios limites. É da nossa natureza fundir-nos, completar-nos, e no fim, desaparecer.

Sabes o que é a amizade? É a mais elevada forma de Amor.

No Amor, fatalmente há algum desejo; na amizade, todo o desejo desaparece.

Não se trata de usar o outro, não se trata sequer de precisar do outro; trata-se de compartilhar.

Sentir-te-ás agradecida se alguém estiver disposto a compartilhar contigo da sua alegria, da sua dança, da sua música. Um amigo sente-se sempre agradecido para com quem lhe é permitido amar, dar o que quer que ele tenha.

A amizade deve ser um compartilhar.

Não é uma questão de necessidade, não é uma questão de, quando estás em perigo, o amigo precisar de vir em teu socorro. Isso é irrelevante, vir ou não vir é decisão dele, tu não queres manipulá-lo, não queres fazê-lo sentir-se culpado.

Não se trata de amar alguém por determinadas razões, trata-se de um amor que vem simplesmente da abundância – tens tanto que precisas de compartilhar, precisas de irradiar. E não importa quem o receba, ficarás sempre agradecida.

E quem melhor do que as mulheres para saberem o que é amar demais? São elas as eternas Mães.

Ana Cachão

(Texto inspirado em A Mulher do Futuro, de Zulma Reyo)

Imagem: Edward Burne-Jones

Reinata Sadimba

Nascida para reinar

Conheci Reinata Sadimba, a famosa ceramista moçambicana, num dia de Inverno, escuro e ventoso, extraviado em pleno Verão afro-austral. Uma amiga espanhola, a viver em Maputo, insistiu em que a acompanhasse ao atelier da artista. Encontrámos três mulheres sentadas sobre esteiras, conversando numa língua radiante, enquanto das suas mãos distraídas, afundadas entre a viva escuridão do barro, iam nascendo fabulosos seres. Soube logo, das três, quem era Reinata, mesmo nunca a tendo visto antes. Há artistas assim: não os conhecemos, mas somos capazes de os reconhecer, quando pela primeira vez os encontramos, porque as obras deles contêm algo do seu carácter. Reinata é uma mulher pequena e magra, com o rosto laboriosamente tatuado, e um piercing sob o lábio inferior, que lhe confere um aspecto simultaneamente arcaico e contemporâneo. Nascida à margem de toda a modernidade, a muitos quilómetros da esperança e da prosperidade, parecia destinada ao mesmo destino infeliz da maioria da população moçambicana.

Todavia, iludiu-o. Como conseguiu triunfar?

Eu digo-vos – através do exercício quotidiano da alegria, de um permanente espanto infantil perante a beleza do mundo, de uma feroz vontade de viver, e, finalmente, de um desrespeito soberano pelas normas, a que poderíamos também chamar inconformismo. Tudo isto transparece nas peças que saem das suas mãos. São mães exibindo os filhos ao mundo ou amamentando-os. Casais que se amam, homens com mulheres, mas também mulheres com mulheres e homens com homens, numa sexualidade explícita, desenfreada, que parece desdenhar, com uma clara gargalhada, toda e qualquer convenção.

Reinata vem de uma aldeia, no norte de Moçambique, em Cabo Delgado, com alguma tradição de cerâmica utilitária, como potes e moringas. Terá sido ela, porém, a primeira a moldar figuras. Hoje as suas peças, um verdadeiro exército de seres prodigiosos, ameaçam invadir o planeta, sendo possível encontrá-las em museus e colecções privadas, em todas as grandes cidades europeias e americanas. Na aldeia de Reinata já toda a gente molda formas humanas e animais. É assim que se criam as tradições.

Conta-se que numa recente visita a Lisboa, Reinata se encontrou com Jorge Sampaio. O presidente português, fascinado com o trabalho da artista, quis saber em que a poderia ajudar. O que queria ela? Traduzida a questão Reinata sorriu:

“Um marido!”

Ao que consta propunha-se ficar com o próprio Jorge Sampaio. Presumo que qualquer que seja o mundo onde viva não deve ser nada fácil para uma mulher independente, rebelde e criativa, como é o caso de Reinata, encontrar um companheiro. Os homens de todas as latitudes receiam as mulheres assim. Todavia são elas que empurram o mundo. No caso de Moçambique, Reinata é mais do que um exemplo de esperança – é a própria esperança, criando luz, inclusive nas tardes de Inverno.

Faíza Hayat, Conversas com o Espelho