domingo, 8 de junho de 2008

A Viagem do Che

Há dias peguei-me com alguém por causa do filme Diários de Motocicleta, que conta a história da viagem do jovem Che pela América Latina:

- O que vemos ali é a história branqueada de alguém que torturou e matou...
Eu:
- Não, não viu isso no filme de Walter Sales. O que vemos ali é a história de uma viagem iniciática. É a história de alguém que corta o cordão umbilical e parte à descoberta do mundo fora de si. E depois deixa-se transformar pelo que vê e descobre, tanto fora como no seu interior. Descobre um continente dilacerado, dividido, empobrecido; um povo outrora autosuficiente e grande na sua cultura, reduzido à condição de ignorante, indigente, perdido. Dentro de si, descobre a capacidade de autosuperação e de sentir compaixão, e descobre o seu próprio carisma, que é o poder da sua luz e da sua visão transbordarem e contagiarem outros, mobilizando-os para uma causa que os transcende enquanto indivíduos...

Claro que sabemos que depois aquele sonho descambou em tragédia, porque o recurso à violência... só atrai mais violência.

Mas o que interessa o Che da realidade perante a transcendência que a ficção de Walter Sales consegue? O que temos no filme é a actualização do mito do Herói, com as suas qualidades de integridade e candura, a sua renúncia a objectivos individuais, a sua força obstinada e a sua entrega.
E Gael Garcia Bernal encarna na perfeição esse jovem Che, fisicamente tão frágil, asmático, e ainda mal saído da puberdade, que vemos transformar-se ao longo da viagem, adquirindo força e poder à medida que os perigos e obstáculos vão sendo ultrapassados.

A verdade é que devo confessar que este filme me fascina tanto porque ele ganhou para mim uma dimensão arquetípica e onírica. Ele transportou-me para a atmosfera de um sonho que foi recorrente em certos momentos da minha vida:

No sonho eu fazia uma viagem cujo trajecto tinha de ser sempre a direito, em linha recta. A adrenalina subia quando chegava a locais habitados: tinha de atravessar as próprias habitações, entrar e sair de quartos, salas e pátios, não podendo ser surpreendida por ninguém.

Um jovem, que vagamente me lembrava o meu próprio filho, acompanhava-me...

(continua)

Imagem do filme (Google)

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