domingo, 22 de junho de 2008

Os Círculos de Costura do Afeganistão

"O QUE FAZEM AS MULHERES

Uma mulher escreve a outra: “Sei, através de um amigo, que você tem um marido bondoso e um filho lindo e que viaja pelo mundo inteiro fazendo reportagens e conhecendo gente. Sonho com uma vida como essa. É estranho, vivermos debaixo do mesmo pequeno céu e, no entanto, parece que vivemos a 500 anos uma da outra”.

Uma afegã escreve a uma inglesa: “Hoje, você vê-nos nas nossas burqas, como estranhos insectos no meio do pó, de cabeça baixa, mas nem sempre foi assim”.

Marri, de Cabul, escreve cartas a Christina, jornalista, em Londres: “Eu nunca tinha usado burqa antes (...). Na nossa casa, atrás de todas as burqas e skalwar karmiz, há um vestido-de-noite, em seda vermelha, da minha mãe, do tempo em que o rei estava no poder e o meu pai estava no ministério dos Negócios Estrangeiros. Às vezes, aperto-o contra mim e imagino que estou a dançar. Mas é um mundo perdido”.

Marri escreve, arriscando a vida. Escreve a Christina, ao longo dos anos que dura o totalitarismo misógino dos taliban (1996/2001). Os “estudantes de teologia” – de que deus, meu Deus? – puseram de pé uma distopia islâmica, alicerçada na eliminação completa de todas as formas de alegria de viver – apesar de os seus comandantes em Kandahar, segundo se conta, guerrearem entre si pelos favores dos rapazinhos de harém...

Marri escreve, clandestinamente, ao longo das páginas espantosas do livro “The Sewing Circles oh Herat”, da jornalista Christina Lamb. As duas mulheres não se conheciam enquanto durou a troca de correspondência – isso apenas aconteceu quando a repórter do Sunday Times voltou a Cabul, após a queda do regime taliban.

As cartas de Marri fornecem o esqueleto, a cadência e a metáfora para este livro sobre o Afeganistão, feito de detalhes belíssimos – os detalhes que sobram no meio da barbárie, a intimidade onde se constrói uma ideia de pessoa no meio da sociedade que morre. Uma resistência do espírito contra a brutalidade da “religião”, a meticulosa recriação do mundo enquanto está a ser destruído por todo o lado.

(A nossa generosidade, a das mulheres, diria o escritor J. G. Ballard, que amou furiosamente as mulheres como último refúgio contra a loucura – incluindo a sua.)

Há alguns meses, um amigo trouxe-me de Londres o livro de Christina Lamb. Tinha-o esquecido na estante. Lembrei-me dele esta semana, ao ver na imprensa um artigo- efeméride da chegada dos taliban ao poder. O Afeganistão era, para mim, o absurdo da masculinidade. Citando Michael Barry, professor de estudos persas na Sorbonne, “o espaço afegão inscreve-se numa civilização milenar – o Islão do Oriente – ,altamente letrada mas de tradição patriarcal, repressiva, abertamente misógina”, “The Sewing Circles...” corrigiu a minha impressão, ou a minha ignorância – ou o excesso de “informação”, porque o Afeganistão que vemos na imprensa é um país cru, feudal, sem poesia, sem humanidade.

É outro o Afeganistão de Christina Lamb (que conheceu o país nos últimos anos da ocupação soviética). Um lugar comovente, de heroísmo terno, onde a poesia pode surgir, intacta, mesmo por entre o maior horror. Os “círculos de costura” que servem de título e de metáfora ao livro eram uma das poucas reuniões sociais permitidas pelos taliban. As mulheres carregavam cestos com tecido, novelo e agulhas e, com esse disfarce, reuniam-se para estudar, ler poesia, discutir, aprender e ensinar. Se descobertas, morriam por isso.

Marri escreveu: “Cabul foi libertada, acredita? (...) Os novos vizinhos têm crianças pequenas e elas estão a rir – o pai trouxe-lhes um papagaio-de-papel rosa e verde, está a voar alto no céu. Há quanto tempo que não ouvíamos rir – imagine, isso também era proibido”.

O que fazem mulheres? O de sempre: vida.”

Faiza Hayat, Conversas com o Espelho

Imagens: Google

3 comentários:

Nana Odara disse...

Eu li tudo isso e pensei...

pensei no sofrimento dessa vida tão nefasta para todas essas mulheres...

mas tbm pensei, que muitas outras vidas elas terão, para compensar toda essa dor...

pensei: e lembrar que todo esse absurdo masculino no mundo estava em todo lado, em todos os lugares, durante muito tempo...

e imaginei um futuro onde já não existam essas aberrações patriarcais, e está perto de nós...

tão perto que já vemos como aberração, coisas que eram absolutamente normais...

e esses são os últimos exemplos dessas manifestações absurdas... depois deles, as mudanças serão concretizadas num mundo mais livre, e com muitos mais sorrisos de crianças...

Eles estão no desespero de se chocarem com a própria realidade, e perceberem como foram manipulados...

A globalização tbm chegará pela via da felicidade, da liberdade, do sorriso da criança...

A mudança tbm os atingirá como uma epidemia, pois a nossa elevação, cria uma onda de amor,e como um vírus do bem, que "infectará" a tudo, inclusive a eles tbm...

É uma forma de tentar manter a minha esperança acesa...

Luíza Frazão disse...

Forma muito boa. Estou de acordo consigo. Devemos ter esperança de que estes absurdos cada vez mais sejam evidentes e denunciados. Obrigada pelo seu belo comentário.
Ultimamente tem sido difícil entrar no seu blogue. Não consigo abrir sequer os vídeos. Mas tenho ido ao you tube espreitar certas mulheres poderosas...
Abraço

Nana Odara disse...

Já estamos providenciando os arreparos nesse pobreminha... A Marian já conseguiu entra por lá hj... rs... Tente novamente... Vc tem direito a mais 3 milhões de tentativas, depois disso revogaremos a sua licceça tipo selo verde, acesso liberado total...rs...