segunda-feira, 9 de junho de 2008

A donzela sem mãos na floresta: tornar-se eficaz sozinha


"Como a donzela sem mãos no conto de fadas, que tem o mesmo nome*, e cujas mãos lhe voltaram a crescer enquanto esteve na floresta, muitas mulheres descobrem que apenas sozinhas, sem apoio e perdidas num terreno desconhecido, lhes acontecem crescimentos psicológicos análogos. Metaforicamente as mulheres jovens deixam que lhes cortem as mãos para anuir ao que significa ser “uma mulher feminina”. Enquanto as raparigas pré-adolescentes dizem com facilidade o que pensam e podem mostrar-se exuberantes, afirmativas e capazes de competir com os rapazes, as adolescentes perdem caracteristicamente a auto-estima e reprimem a auto-expressão.

As mãos representam competência, a capacidade de chegar ao que tem valor pessoal e de o conservar; as mãos são os meios pelos quais exprimimos sentimentos íntimos e sensuais; as mãos são usadas para criar, para consolar os outros e para curar; as mãos sujam-se quando mexemos no solo ou em máquinas, ou entramos em “negócios escuros”; as mãos seguram instrumentos musicais, pincéis de pintar, utensílios de cozinha, ferramentas e armas; as mãos protegem-nos, respondem à curiosidade e são, em muitas facetas, extensões das nossas psiques no mundo. As mãos têm a ver com a auto-estima, a auto-expressão, tanto real como metaforicamente.

Para compreender como “A donzela sem mãos” pode ser uma história com significado pessoal, medite nas suas próprias inibições ou limitações. Talvez um conjunto de “mãos” em especial lhe tenha sido cortado?...

Mãos a crescer mas jamais desenvolvidas, ou que foram amputadas, são particularmente necessárias a uma mulher que sai da casa do pai para a do marido, e depois, a seguir à sua morte ou a um divórcio, tem de entrar no mundo e ganhar o seu sustento, ou o seu e de outros. Ela é como a donzela sem mãos, impossibilitada e sozinha.

Se foi educada para ser uma senhora, há sempre facetas da sua personalidade que estão atrofiadas ou amputadas: aprendeu a não exprimir a cólera, opiniões rigorosas, nem a dizer o que pensa. Capacidades e traços da personalidade que não eram vistos com bons olhos não foram desenvolvidos. Levaram-na a sentir vergonha de quaisquer partes de si mesma que eram impróprias e, por consequência, essas partes foram reprimidas – ou cortadas.”

* Referência a Clarissa P. Estés, Mulheres que Correm os Lobos

Jean Shinoda Bolen, Travessia para Avalon, Planeta Editora

Imagens: Google

2 comentários:

Lealdade Feminina disse...

As meninas "crescem" mais do que os meninos até a menarca... a partir daí são reprimidas, pq a sua sexualidade é uma ameaça aos homens e/ou ao sistema...

Qqr dia eu venho falar disso, (outra vez o sexo!!!)pq tanto a repressão como a obrigação, ou ainda a abstinência são formas de controlar a sexualidade da mulher...

Por isso pode ser mesmo que exista qqr coisa escondida tanto na sexualidade feminina, como tbm na sensibilidade masculina, e que tanto uma como a outra é tão veementemente reprimida e punida pelo patriarcado...

Onde há fumaça, há fogo...rs...

Luíza Frazão disse...

Espero então pelo seu post sobre o tema da repressão da sexualidade, para ver se percebemos melhor... É complicado. Mas para já uma coisa parece certa: o gosto aumenta quando se tem de ultrapassar o interdito e o mistério...

Abraço

Luíza