segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Abraçar as árvores


Texto de Catarina Portas, publicado no jornal Público do último sábado:

“As torres tinham caído há pouco. E ela vira-as cair nessa manhã, daquela mesma janela na sala onde nos encontrávamos, Nova York downtown. Assistira ao mundo mais próximo a ruir diante dos seus olhos, a desmoronar-se em fumo, poeira, fragor e desolação imensa. E foi então que me contou isto, isto que nunca mais me saiu da cabeça: “Nesses dias a seguir, caminhei até ao parque. E abracei as árvores. Só me apetecia abraçar as árvores. Não estava sozinha, aliás. Havia mais pessoas a abraçar as árvores, ali no parque”.

Lembro-me muitas vezes desta imagem, de gente desnorteada, exausta e confusa, seres atarantados com a vida trocada à sua volta, a rodear troncos de árvores com os seus braços num gesto de desespero por consolo, tentando reencontrar alguma ligação perdida com o essencial do mundo, uma certeza e uma estabilidade que, por vezes, só mesmo a natureza nos dá. Por uma simples razão, não muito difícil de adivinhar: a natureza é o que conhecemos de mais vivo e perene.

Ontem, abri este jornal e encontrei o Olímpio numa fotografia enorme, tão maior que a sua habitual discrição e timidez. O Olímpio morreu e eu não soube, naturalmente não soube, que não tinha que saber porque não era sua amiga chegada, apenas amiga do seu amigo, mas nunca deixou de me comover o seu amor pelos livros ao longo dos anos em que fui seguindo o seu trabalho e nos cruzámos pelas ruas curtas da cidade. E nesse instante em que abri o jornal e soube da sua morte inesperada e fulminante, nesses momentos em que notícias drásticas dão connosco em momentos mais frágeis do que é habitual, parece que o mundo pára de girar por um instante. E eu lembrei-me da minha amiga daquela noite ao contar-me das suas árvores abraçadas.

Por razões que também vêm aqui ao caso, fiquei a pensar em abraços. Como, quando e porquê nos surge essa vontade de apertar os outros nos nossos braços. Embora os franceses misturem as coisas e s’embrassent para se beijarem, tenho claro que a essência do abraço não é amorosa. Acontece por vezes em momentos de exaustão com a vida, tristeza e solidão e podemos abraçar alguém nesses instantes como quem abraça o mundo. Mas sucede, outras vezes, com intensidade igual em momentos de felicidade, comunhão, pacificação ou brilhante amizade, como partilha ou dádiva, a quem sabe acompanhar-nos, acolher-nos, cuidar de nós – e ser feliz connosco. Como um absoluto agradecimento pela existência de momentos quentes como o Verão quando a vida nos parece mais invernosa. “Aquele abraço”, claro, como cantava o Chico Buarque.
Nunca é tarde demais para abraçarmos aqueles de quem gostamos. Mesmo que não o seja em carne e osso e só apenas assim, por palavras.”

Catarina Portas, Público, 5 de Janeiro 2008

Imagem: osonhocomandaavida.blogs.sapo.pt

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