
“As torres tinham caído há pouco. E ela vira-as cair nessa manhã, daquela mesma janela na sala onde nos encontrávamos, Nova York downtown. Assistira ao mundo mais próximo a ruir diante dos seus olhos, a desmoronar-se em fumo, poeira, fragor e desolação imensa. E foi então que me contou isto, isto que nunca mais me saiu da cabeça: “Nesses dias a seguir, caminhei até ao parque. E abracei as árvores. Só me apetecia abraçar as árvores. Não estava sozinha, aliás. Havia mais pessoas a abraçar as árvores, ali no parque”.
Lembro-me muitas vezes desta imagem, de gente desnorteada, exausta e confusa, seres atarantados com a vida trocada à sua volta, a rodear troncos de árvores com os seus braços num gesto de desespero por consolo, tentando reencontrar alguma ligação perdida com o essencial do mundo, uma certeza e uma estabilidade que, por vezes, só mesmo a natureza nos dá. Por uma simples razão, não muito difícil de adivinhar: a natureza é o que conhecemos de mais vivo e perene.
Ontem, abri este jornal e encontrei o Olímpio numa fotografia enorme, tão maior que a sua habitual discrição e timidez. O Olímpio morreu e eu não soube, naturalmente não soube, que não tinha que saber porque não era sua amiga chegada, apenas amiga do seu amigo, mas nunca deixou de me comover o seu amor pelos livros ao longo dos anos em que fui seguindo o seu trabalho e nos cruzámos pelas ruas curtas da cidade. E nesse instante em que abri o jornal e soube da sua morte inesperada e fulminante, nesses momentos em que notícias drásticas dão connosco em momentos mais frágeis do que é habitual, parece que o mundo pára de girar por um instante. E eu lembrei-me da minha amiga daquela noite ao contar-me das suas árvores abraçadas.
Por razões que também vêm aqui ao caso, fiquei a pensar
Nunca é tarde demais para abraçarmos aqueles de quem gostamos. Mesmo que não o seja em carne e osso e só apenas assim, por palavras.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário