sábado, 22 de setembro de 2007

FABULOSAS MULHERES SÁBIAS

Mais uma das Sábias e Fortes Mulheres de Idade Avançada retratadas pela pintora holandesa já falecida Diana Vandenberg. Trata-se de Elisabeth Kübler-Ross, médica, pioneira, no ocidente, dos estudos sobre o processo da morte e inspiradora dos cuidados paliativos (penso estar correcta a informação...). O seu livro mais famoso é Sobre a Morte e o Morrer.

Vale a pena visitar esta galeria de retratos, que glorificam o esplendor e a beleza da mulher, quebrando barreiras de critérios estéticos ultrajantes para qualquer ser humano.
Ver estes retratos valeu hoje para mim mais do que mil discursos sobre o tema do "termo de validade" de uma mulher em matéria de atracção física (o que é isso, exactamente?) em comparação com um homem...
Não se nota nestes rostos a intervenção de qualquer bisturi. O que se nota é a sua verdade, a sua inteireza, a sua Luz. Com quem ousar contrapor que estes não são seres belíssimos, não vale mesmo a pena gastar o nosso latim ...

(Este é um post dedicado especialmente a Rosa Leonor, a todas as fabulosas mulheres sábias e mais àquelas, como eu, que as têm como modelos...)

O SEGREDO DA ALEGRIA

Dadi Janki, por Diana Vandenberg

Acabo de fazer a descoberta de uma pintora chamada Diana Vandenberg, que realizou maravilhosos retratos de Sábias e Fortes Mulheres de Idade Avançada (entre outros), sendo uma delas a indiana Dadi Janki. Lembrei-me então de uma apresentação desta personagem feita por Jean Shinoda no seu livro Travessia para Avalon:

"Uma visita a Dadi Junki

Havia uma pessoa que Mrs. Detiger tinha para eu conhecer em Londres, antes de partirmos para o destino seguinte: era uma mulher da Índia chamada Dadi Junki: uma chefe espiritual discreta dos Brama Kumaris*, uma organização religiosa a nível mundial, louvada e influente, embora pouco conhecida, com sede no Monte Abu, no norte da Índia. Os "BK" eram a inspiração e a organização que estava por trás de um esforço de meditação internacional, "A Million Minutes for Peace", e os contemplados com o Peace Messenger Award, das Nações Unidas. Fomos ter com Dadi Janki ao centro dos Brama Kumaris, que não passava de uma casa banal numa rua residencial de Londres. Eu nunca ouvira falar dela e não tinha nenhuma ideia pré-concebida sobre Dadi ou o encontro.
Vestia um casaco de malha branco por cima de um sari indiano, simples e branco. Media menos uns bons centímetros do que eu, o que me impressionou muito, porque só tenho um metro e cinquenta e dois e é raro encontrar alguém mais baixo, exceptuando crianças. A cara era redonda e possuía um sorriso encantador: uma espécie de associação de um querubim com uma anciã, o que lhe dava um ar de quem não tinha idade. Encontrámo-la na sala de espera do primeiro andar. Acompanhava-a a irmã Jayanti, que traduzia qualquer coisa, uma vez por outra, mas Dadi Janki compreendia a maior parte com toda a facilidade. Em qualquer dos casos, a mim parecia-me que o seu meio de transmissão não eram as palavras. O que contava era a sua presença, não o aspecto nem o que tinha para dizer. Cumprimentou-nos com a saudação dos Brama Kumaris "Om Shanti", o que, como "Aloha" ou "Shalom", significa "olá", "adeus", e mais coisas. "Om Shanti" quer dizer "Sou a paz"", e era o que dela emanava - isso e um espírito profundamente jubiloso.
Eu iria encontrar Dadi Junki dois anos depois, na Índia, e mais uma vez ficaria impressionada pela combinação de alegria e sapiência que sentia emanar do seu ser, como acontece com o Dalai Lama. Em ambos há uma combinação de criança tímida e luminosa e de sábio. Estão no mundo real comprometidos a uma vida de serviço cujo esteio é a realidade do seu mundo espiritual. São detentores do segredo da alegria. Os arquétipos que personificam são universais, e se formos receptivos a tais arquétipos, há em nós uma ressonância correspondente. Há uma harmoniosa reverberação de cordas íntimas, como acontece entre duas harpas: se a corda de uma harpa for tocada numa sala onde existe uma outra harpa, nesta vibrará a corda que emite a mesma nota. O júbilo é semelhantemente contagioso entre almas, se nos sintonizamos com essa nota específica.
Tal parte de mim mesma estava a desenvolver-se naquela peregrinação. Dois anos depois, na Índia, aperceber-me-ia que andar perto de Dadi produzia o efeito de constelar as sensações de "felicidade sem qualquer motivo especial" visível numa criança que balbucia. Portanto, perguntei-lhe como é que se mudava a saudação "Om Shanti" ("Eu sou a paz") para "Eu sou a alegria". Era "Om kushi".
Os próprios Dalai Lama e Dadi Janki se encontram entre os "sítios sagrados" de peregrinação. A ideia de peregrinação é visitar sítios sagrados, locais onde habita a divindade, para "activar" ou acelerar a divindade no íntimo do peregrino. Os dois indivíduos citados têm um efeito activador semelhante sobre as pessoas, porque o arquétipo criança jubilosa e mestre espiritual estão imbuídos no "Self". O aspecto de criança divina que existe neles estava a impressionar-me porque era uma faceta minha que precisava de despertar novamente para a vida. Essa criança em mim sentiu-se acarinhada, cuidada, "maternizada" por Mrs. Detiger: porque a sua mão de guia me orientou durante a peregrinação, a minha psique estava muito recptiva à criança divina nos outros."
*Ou, Filhos de Brama. A associação existe em Portugal (N. da T.)
(Jean Shinoda Bolen, Travessia para Avalon, Planeta Editora)

ONDE FICA O EXÓTICO?

Hoje é sábado. Que bom! Levantei-me suficientemente cedo para praticar o meu ritual preferido neste dia da semana: depois de fazer a minha série de exercícios (sim!), vestir qualquer coisa leve e ir lá abaixo comprar o Público e o pão fresco para o pequeno-almoço. Depois gosto de me atardar à mesa da cozinha, bebendo o meu café e folheando devagar o jornal, tarefa em que uso de grandes cuidados, tentando evitar o cheiro a pólvora; uma ou outra bomba; ameaças de chefes de estado, muito sob pressão, muito à beira do ataque de nervos (Deus queira que não passe daí...). Penso em Um Curso em Milagres, por exemplo, que nos diz que tudo o que consideramos como real e ameaçador é mera interpretação nossa, e que é sempre possível ver as coisas de outra maneira (daí o conceito de milagre).

Ver as coisas de outra maneira em política, por exemplo, seria pensar antes de mais no bem-estar, no desenvolvimento do outro; querer para o nosso vizinho tudo aquilo que queremos para nós; preservar a vida acima de tudo. Alguns dirão que este raciocínio é infantil e utópico; mas será que tentar resolver conflitos à lei da bala é uma postura adulta?! Será adulto o fascínio pelo armamento, pela ameaça, conquista e sujeição de territórios e de almas, só para que a minha naçãozinha seja mais forte do que a tua? Não estamos já todos fartos de nacionalismos, de pátrias e de fronteiras? Preservar a nossa identidade própria não passa, quanto a mim, por aí...


Bom, mas adiante porque o que me interessa num jornal não é exactamente esta política. Interessa-me inspiração; interessam-me soluções criativas, positivas, conciliadoras, ideias arejadas. No P2 há uma autora por quem nutro uma especial admiração e que leio sempre em primeiro lugar: Catarina Portas. A sua rubrica chama-se Feira da Ladra, e inspira-se muitas vezes em velhos livros encontrados ao acaso das suas deambulações. Na foto de Catarina prevalece o seu lado menineiro e fresco de uma chefe de escuteiros. Mas o que ela escreve, e como escreve, depressa nos desengana (armadilhas dos nossos preconceitos...).

Vou agora transcrever a sua crónica deste sábado, 22 de Setembro de 2007:

“Onde fica o exótico?

Havia um tempo em que a distância era algo que se imaginava com alto grau de improbabilidade, a partir de farrapos de visões de viajantes incrédulos, espantados e muitas vezes apaixonados. A partir de objectos extravagantes de cabinets de curiosités conspicuamente coleccionados, relatos assombrados e assombrosos de viagens peregrinas ou desenhos, e depois fotografias, de paisagens e criaturas tão distantes e tão raras que se tornariam icónicas, sonhava-se. Fantasiava-se, portanto. A história do exotismo é antes de mais uma história de fascínio, misto de paixão e medo, pelo que é diferente de nós. Muito diferente e muito surpreendente.
A raiz do exótico é grega, e exotikos quer dizer isso mesmo: o que é exterior a nós, estrangeiro então. E há duas atitudes possíveis face a um mundo demasiado estranho e gente absolutamente diferente.
A primeira será a de tentar reconhecer semelhanças, reduzindo o novo ao já conhecido, forçando o encaixe dos elementos perturbadores num esquema familiar. Assim se estabelecem comparações, quantas vezes disparatadas e, frequentemente, deturpadoras da realidade. A outra postura, totalmente
diversa, será a de rejeitar a diferença, classificando-a como bárbara ou selvagem, porque desconhecida. Banindo o oposto, resguardam-se convicções, pisa-se terra firme e familiar. A consequência mais vulgar de tal atitude costuma ser impor aos outros a sua própria realidade e modo de ser. Digamos que desta segunda forma de olhar o outro nasceu o colonialismo e a outra, a primeira, deu origem a escolas como o orientalismo e interpretações afins, construções pretensamente científicas sobre o mundo dos outros (e porque as coisas nunca são simples, as relações entre um e outro foram frequentemente promíscuas, como tão bem analisou Edward Said).
Mas hoje, num mundo obcecado pela comunicação, nação universal em modo de export-import de imagens, modos de vida e todo o tipo de gadgets e bugigangas, onde fica o exótico? Na era do turismo, tornou-se uma paisagem cliché, que vai dos novos resorts das praias algarvias a qualquer outra praia onde tenha aterrado um charter neste planeta: um mesmo décor com mais ou menos palmeiras, uma mobília de verga filipina de design recurvado, pratos quadrados com iguarias minúsculas e rocambolescas e cocktails coloridos. O outrora exótico tornou-se definitiva e infalivelmente vulgar.
Agora a excitação já não é conhecer as Índias, pois se lá formos o que fazemos é sobretudo reconhecê-las. Talvez o estremecimento de descobrir algo novo e implausível se situe agora muito perto de nós, da nossa casa, de quem fomos e do que somos. Talvez o exótico, para as criaturas citadinas, cosmopolitas e abundantes que somos hoje, seja afinal uma sensação mais forte numa aldeia perdida de Trás-os-Montes, diante de uma paisagem serrana vertiginosa, abrigados em casas de materiais primitivos e misteriosos, deparando com palavras, técnicas, saberes e objectos que nunca conhecemos (e já quase perdemos). O exótico está em nós?”

(Catarina Portas, Público, 22/09/07)

- Catarina, a minha resposta é SIM.
Exótica será por excelência essa imensa parte de nós, a nossa psique (psykhe para os gregos), continente tão perdido de nós mesmos... Essas imensas partes submersas dos icebergs, que, segundo aqueles que tentaram mapeá-los e desbravá-los (como Jung e tantos outros) são os nossos inconscientes, o pessoal e o colectivo. Trata-se, ao que dizem, de fabulosos espaços com todos os ingredientes para cativar os amantes do turismo mais radical que se possa conceber...

Imagem: Indonésia, Java, Borobudur-Diana Vandenberg