terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Arquétipo da "Mulher Selvagem"

A deusa Artemisa corresponde ao arquétipo da Mulher Selvagem


“Sentir, pensar ou agir segundo qualquer um dos seguintes exemplos representa ter um relacionamento parcialmente prejudicado ou inteiramente perdido com a psique instintiva profunda. Usando-se exclusivamente a linguagem da mulher, trata-se de sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, envergonhada, com uma fúria crónica, instável, amarrada, sem criatividade, deprimida, transtornada. Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade aos outros, escolhendo parceiros errados, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, super-protectora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites. Não conseguir insistir no seu próprio andamento, preocupar-se em demasia com a opinião alheia, afastar-se do seu Deus ou dos seus deuses, isolar-se da sua própria revitalização, deixar-se envolver exageradamente na domesticidade, no intelectualismo, no trabalho, ou na inércia, porque é esse o lugar mais seguro para quem perdeu os próprios instintos.

Recear aventurar-se ou revelar-se, temer procurar um mentor, mãe, pai, temer exibir a própria obra, antes que esteja perfeita, temer iniciar uma viagem, recear gostar de alguém ou dos outros, ter medo de não conseguir parar, de se esgotar, de se exaurir, curvar-se diante da autoridade, perder a energia diante de projectos criativos, encolher-se, humilhar-se, ter angústia, entorpecimento, ansiedade. Ter medo de revidar quando não resta outra coisa a fazer, medo de experimentar o novo, medo de enfrentar, de exprimir a sua opinião, de criticar qualquer coisa, de sentir náuseas, aflição, acidez, de sentir-se partida ao meio, estrangulada, conciliadora e gentil com extrema facilidade, de ter sentimentos de vingança.

Ter medo de parar, ter medo de agir, contar até três repetidamente sem conseguir começar, ter complexos de superioridade, ambivalência e, no entanto, não fosse por isso, ser plenamente capaz, em perfeito funcionamento. Essas rupturas são uma doença não de uma era, nem de um século, mas transformaram-se em epidemia a qualquer hora e em qualquer lugar onde as mulheres se vejam aprisionadas, sempre que a natureza selvática tiver caído na armadilha.

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, está na hora da mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez.”

Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos, Rocco (pgs 24 a 26)

Imagem: www.rosanevolpatto.trd.br