quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A Casa – Um Ser

Embora neste belíssimo texto de Trigueirinho sobre a casa a perspectiva seja diferente, tendo em comum apenas o tema casa, resolvi publicá-lo por outra razão mais óbvia porventura do que aquela que o autor apresenta: a necessidade de valorização do trabalho das mulheres, que são por tradição, embora haja cada vez mais homens a fazê-lo também, quem se ocupa da casa.

"Nazaré convida você para uma experiência perceptiva do que poderá significar, no mais profundo da consciência, a Casa, o lugar onde se habita, como instrumento de serviço, abrigo e recolhimento. Em nossas vidas compartilhamos todas as nossas actividades com estes seres-casa que fornecem o espaço para a nutrição em todos os níveis do ser, o palco onde grande parte da nossa experiência criativa tem lugar.
Se passamos pela experiência de nos construirmos juntos, podemos dizer que esses seres-casa nos conhecem, assim como nós os conhecemos. Depois de um ser-casa construído, surgem todos os trabalhos a serem feitos na manutenção diária e constante da sua ordem, limpeza, harmonia e beleza, como dons de boas-vindas para quem quer que delas se aproxime. Na Casa, esses dons reflectem o espaço interno daqueles que a habitam.
Como fazer para que o espírito omnipresente em tudo a nossa volta emirja nas nossas mais elementares actividades? Como fazer para que a Luz interna, o Amor superior e uma serena e irradiante Alegria encontrem passagem através de nós e se manifestem aqui, no ato de arrumar, limpar, varrer, desempoeirar? Por que deixar para depois ou somente para quando for possível estar sentado em quietude ou em condições especiais para se sentir conectado com a essência de tudo a nossa volta?
Estamos agora diante do desafio de nos libertar da ideia de separabilidade que possa existir dentro de nós e buscar a comunhão com a Essência presente em tudo, livre dos condicionamentos que a bloqueiam. E constitui um passo decisivo para essa união estar diante de tudo como se estivesse diante de algo novo, seja um objecto, tarefa ou pessoa, dando-lhes a nossa total atenção e cuidado, deixando que a nossa presença esteja inteiramente ali, em perfeita comunhão com a presença do outro ser.
E, quando convidamos você para participar connosco desse desafio de não se sentir separado da vassoura que varre, nem do vaso sanitário que se lava, fazemos isso sabendo da necessidade de disciplina e de uma intenção focalizada na actividade que se executa. A atitude interna de ordenação e concentração enquanto se trabalha pode transformar-se num exercício meditativo. A beleza e o brilho de um lugar limpo e ordenado talvez falem mais claramente que as palavras.
A realidade da "presença" de Deus em tudo não se resolveria simplesmente "dizendo" que Ele está em toda parte. A qualidade do nosso intento, da nossa percepção, a capacidade a ser desenvolvida em sermos transmissores de vida, aliada à consciência de que Deus pode ser percebido e expresso através da nossa mais rotineira actividade é o que fará com que essa Divindade se faça presente aqui e nos libere de todo sentimento de separabilidade. E isto exige prática, disciplina e dedicação.
Seguir uma rotina é seguir a imutabilidade de uma lei natural, é mover-se no caminho da menor resistência. Se pensarmos na rotina da Natureza e se a observarmos, veremos que essas leis e formas ali presentes são inerentes ao seu próprio ser, representando a harmonia, beleza e acção acontecendo num ritmo imperturbável. Os corpos celestes não se desviam dos seus cursos, mas seguem uma regularidade fixa, vital e disciplinada.
Repletos de tarefas e actividades rotineiras estão os seres-casa que nos servem e acolhem. Se pensarmos na casa como se fosse um corpo, e na sua necessidade de limpeza, purificação, ordem, ritmo e harmonia, poderemos compreender, interna e externamente, o verdadeiro significado do varrer, lavar, arrumar. Estaremos, enfim, diante de uma oportunidade extremamente criativa de transformação e transmutação.
Há sempre uma acção interna acontecendo em resposta a algo que estejamos fazendo externamente. E a qualidade amorosa de nossa atenção se irradia para tudo e para todos. Através da nossa cooperação consciente nos trabalhos que dizem respeito ao cuidado e às necessidades dentro do ser-casa, poderá ser possível construir uma ligação com a consciência mais elevada dentro de nós.
Transformar o trabalho de arrumar uma Casa numa tarefa extremamente criativa e transmissora de vida só depende de nós mesmos. Com isso aprendemos a ver a realidade divinizada de cada actividade dentro desse ser-casa, que passa a caber dentro de nós, como experiência viva, transcendendo os limites do seu espaço-forma."

Trigueirinho

"Não procede a crença de que as pequeninas coisas são pouco importantes ou vulgares para a Minha orientação. Eu que criei o átomo não estou acima ou abaixo das coisas, mas sou todas elas. Se você Me deixa fora de uma parte qualquer de sua vida, esta parte ficará na escuridão. Isto não significa que você seja um escravo; isto simplesmente quer dizer que a sua consciência está aberta o tempo todo, ao invés de se fechar enquanto você executa algo de rotina. Toda a vida é para ser glorificada, não apenas as partes. O céu não é um estado de meio expediente. Permita que a nossa unidade aja sempre, a todo instante."

(Dorothy Maclean Wisdoms)

Imagem: Feng Shui

A ESCRITA AUTOBIOGRÁFICA E A CRIANÇA INTERIOR

Diana Vandenberg, Beatrice and the Unicorn

Na segunda-feira passada, acabei o primeiro módulo do Curso de Escrita Autobiográfica que tinha como tema a casa. Sem grandes preocupações literárias, escrevemos sobre os vários aspectos e espaços que compunham o nosso primeiro cosmos (aquilo que se opõe ao caos original). Por vezes saímos do primeiro para os restantes, chegando até ao nosso espaço actual.Acredito que, ao nascermos, trazemos já uma longa história como bagagem, e que é a síntese dessa história (ou histórias) que determina o nosso lugar no mundo. Fala-se também em escolha consciente da nossa alma ao encarnar, em programa de vida pré-estabelecido. Seja como for, algo nos atraiu para aquele lugar em particular, entre tantos outros que compõem este mundo. A partir deste pressuposto, abolimos a tendência, muito cómoda na aparência, para culpabilizar pais, familiares e uma grande quantidade de outras circunstâncias por coisas que consideramos menos boas na nossa vida. Só quando rejeitamos esse papel de vítimas, podemos assumir plenamente o de sujeitos responsáveis e detentores de poder sobre nós e sobre a realidade que nos rodeia.
Revisitar o primeiro espaço pelo qual a nossa alma se sentiu atraída, compreender a posição que nele ocupámos e a visão que daí o mundo nos oferecia, permite-nos entender o modo como esse primeiro modelo de mundo determinou a percepção do mundo em geral ao longo da nossa vida, tornando-se então mais óbvio o modo como fomos atraindo as pessoas e as circunstâncias mais adequadas para o irmos perpetuando.
Estamos portanto a falar de uma verdadeira terapia, quiçá de uma prototerapia (algo que vem antes da terapia), se assim podemos dizer, na medida em que se torna um excelente ponto de partida para outras terapias porventura mais profundas (nos casos em que sejam necessárias). Trata-se seguramente de uma metodologia segura e interessante, até porque à partida fácil e, na maior parte dos casos até, muito agradável. É no entanto aconselhável que o façamos com algum desprendimento, sem saudosismos nem apego, o que, claro, nem sempre é fácil. Convém irmos até lá sem ficarmos lá, porque o vasto mundo espera por nós para o descobrirmos e nele nos sentirmos em casa.
Esta espécie de logoanálise (análise feita a partir dos espaços que habitamos) para usar a terminologia de Gaston Bachelard em A Poética do Espaço, permite-nos entender as dores e os traumas, mas também os aspectos mais luminosos e habilitadores, da nossa criança interior. A partir dessas evidências, sabemos do que precisa essa parte de nós, e, usando as estratégias preconizadas por Louise Hay no seu Método (mas também por outras terapias como a Programação Neurolinguística), podemos tratar dela, escutar o que tem para nos dizer, dar-lhe segurança e fornecer-lhe os recursos de que precisa para que possa resgatar os seus aspectos mais luminosos.
Devo lembrar que este conceito de criança interior, parafraseando Vera Faria* e outros autores, refere-se ao nosso eu verdadeiro, um ser de amor incondicional, espontâneo, extrovertido, criativo, alegre e completo, que está connosco desde sempre. Na tradição cristã, é simbolizado pelo Menino Jesus ( na nossa tradição literária, menino(a) apenas), com as suas qualidades de pureza, integridade, inocência, máxima receptividade, estado original – numa palavra, a Alma.
Foi pois uma experiência e tanto este primeiro módulo do curso que frequentei na Companhia do Eu, com Pedro Sena-Lino, um excelente dinamizador, culto, atento, carinhoso, encorajador, revelando igualmente muito da sua própria alma – uma excelente Companhia!

*Descubra a Sua Criança Interior

Encontrei aqui um poema interessante, porque fala exactamente destas questões da infância e da recriação ao longo da vida do modelo do mundo que aprendemos então:

Infância
Quando pequena
Meu quintal era enorme.
Tinha rios, castelos e florestas,
Trilhas sinuosas e duendes e dragões.
E eu seguia aquelas trilhas,
Catando na terra mágicas sementes
Que marcariam meu caminho de volta à segurança.
Meu quintal não existe mais,
E eu cresci.
E surpresa, me dei conta
que ainda busco, hoje, os sinais e a magia
Daquelas trilhas que eu antes percorria.