domingo, 11 de novembro de 2007

O FEMININO REENCONTRADO


Texto de apresentação do livro

O FEMININO REENCONTRADO,
de
Nathalie Durel Lima, Ariana Editora

Sinto-me muito abençoada por estar hoje aqui convosco para vos falar de um livro poderoso pelas pistas que nos dá para encontrarmos o caminho da nossa alma de mulheres, bem diferente da dos homens. O caminho da nossa individuação e da nossa diferenciação.

Estou aqui também porque, nas minhas orações à Mãe Divina, eu me coloquei ao serviço do ressurgimento do feminino no mundo. Do sagrado feminino. E a Mãe Divina trouxe-me até aqui hoje.

Não sou psicóloga, muito menos junguiana, não sou especialista nesta área, mas a minha intuição feminina, o meu trabalho com mulheres e os estudos que fiz nesta matéria dizem-me que estamos perante um poderoso manancial de informações sobre aquilo que somos na verdade. Informações que possibilitam o nosso empoderamento, tão importante neste mundo e num tempo como o nosso.

A história das mulheres é, no fundo, a história de um território, um território psíquico, que foi conquistado, dominado, colonizado. E, como sempre acontece com todos os territórios que são conquistados, dominados e colonizados, deu-se a obliteração de uma cultura, a sua eliminação, para, em seu lugar, se implantar uma outra.

A penetração dessa nova cultura foi fundo. Pelo efeito da força e do terror, o nosso condicionamento terá sido, não apenas educacional, sociocultural, religioso, mas também biológico. Teremos sido geneticamente condicionadas para sermos boas fêmeas reprodutoras, fiéis e submissas ao clã patriarcal. A mulher por detrás do grande homem, ou apenas do homem. Ficámos atrás. Queremos ficar ao lado.

Esse condicionamento despojou-nos da nossa riqueza psíquica, da nossa criatividade mais profunda, da nossa validação como seres autónomos e livres, da nossa vitalidade.

Esse condicionamento reduziu-nos à famosa dicotomia judaico-cristã: a mãe ou a prostituta; transformou-nos em “senhoras” muito certinhas, bonitinhas, limpinhas, boazinhas...

Mas deixemos agora essa parte. É importante termos consciência dela, sem nela no entanto nos determos, até porque a mensagem forte de Nathalie Durel Lima no seu livro é a de que precisamos de abandonar o discurso da vítima e de assumirmos de uma vez por todas quem nós somos de verdade.

A autora avança então com um novo conceito de mulher: a “mulher-pesquisadora”, a que investiga, que estuda, que quer saber, que quer conhecer as suas raízes. Já tínhamos aquela frase célebre: “Homem, conhece-te a ti mesmo”, mas esta exortação não nos serve. É bom que pensemos em substituí-la, no nosso caso, por: “Mulher, conhece-te a ti mesma!”, pois precisamos antes de mais nada da nossa existência e da nossa identidade linguísticas.

E para nos conhecermos a nós mesmas, às nossas raízes, à maravilhosa riqueza do feminino, temos aqui uma ferramenta privilegiada, que é a via dos arquétipos, ou seja, a do conhecimento das forças dominantes na nossa psique feminina.

A nossa psique feminina é diferente da psique masculina, enfatiza a autora, que recorre neste estudo à análise exaustiva dos arquétipos de oito deusas gregas em que a Grande Deusa Mãe se terá fragmentado numa sociedade patriarcal. Estes arquétipos, que têm correspondência noutras culturas, são os de ATENA, HERA, AFRODITE, ÁRTEMIS, HÉSTIA, DEMÉTER, PERSÉFONE E HÉCATE.

Cada uma destas oito deusas gregas representa um aspecto da nossa psique que, para o nosso equilíbrio e saúde psíquicos, precisa de ser activado em nós, nas várias fases da nossa vida.

Atena legitima a nossa necessidade de investirmos numa carreira, de nos afirmarmos na política ou nos negócios. Afrodite legitima a nossa sexualidade e o seu vínculo sagrado; Héstia a nossa necessidade de interiorização; Hera o nosso desejo de nos comprometermos num relacionamento. Ártemis legitima a nossa necessidade de independência, de liberdade, de criatividade; a nossa natureza instintiva e insubmissa que é vital resgatar. Deméter é a mãe dedicada e compassiva – porventura o arquétipo que a nossa cultura mais estimulou de forma tão excessiva, ao sobrepor o papel de mãe a todos os outros. Hécate ensina-nos a aceitar a menopausa como uma época privilegiada para a mulher, quando nos apropriamos verdadeiramente da sabedoria que soubemos colher da nossa experiência de vida. Perséfone, entretanto, o arquétipo da purificação, protagoniza o nosso mito fundador, quando deixamos de ser Core, a Donzela, a menina da nossa mãe, e nos tornamos uma mulher de verdade, depois de termos aceitado descer às profundezas, ao submundo, normalmente pela via da depressão, e de termos conseguido transmutar a dor, a raiva, as nossas mágoas mais profundas, em força e poder. O que significa fazermos a nossa caminhada interior.

A nossa caminhada interior é exactamente o tema deste livro, que nos apresenta vários estudos de casos concretos, situações que no fundo exemplificam e trazem à luz a problemática existencial mais comum na mulher de hoje.

E aqui, mais uma vez, encontro-me em grande sintonia com o pensamento da autora, quando ela refere a necessidade de fazermos o nosso “trabalho de casa”, a “arrumação da nossa casa interior”, de nos confrontarmos com a nossa parte pessoal antes de tentarmos passar para a transpessoal. Não podemos aspirar ao céu sem que as nossas questões terrenas estejam resolvidas. Em linguagem astrológica, diz-se que não podemos viver Neptuno sem antes termos resolvido Saturno e Urano, a nossa segurança na matéria e a libertação daquilo que nos aprisiona. E uma parte tão enriquecedora deste livro, que o torna tão íntimo e especial, é precisamente essa abertura de alma e coração de Nathalie, ao revelar-nos as várias etapas do seu percurso interior, ao mostrar-nos as suas feridas e os métodos de cura que usou consigo mesma, frisando o quanto este processo é importante para que o terapeuta possa estar à altura das exigências do seu trabalho.

De resto, grande ênfase é dada aqui a isso que é “ser terapeuta”.

Pessoalmente, posso dizer-vos que a minha adesão completa a este trabalho se deu ao ler a análise do arquétipo que desde sempre foi dominante em mim: o arquétipo de Ártemis. É muito reconfortante e libertador, sentimo-nos validadas como pessoas, ao compreendermos que o padrão que prevalece em nós pertence totalmente à normalidade do universo feminino. Se desequilíbrio há, é só porque precisamos de deixar que outros arquétipos se activem em nós e temperem a nossa alma.

De resto, Perséfone tem feito o seu caminho até mim, e também Hécate, a mulher madura que aceita serenamente o processo do envelhecimento, compreendendo que aquilo que ganha em liberdade e sabedoria compensa largamente aquilo que perde e que, no fundo, também já não lhe interessa.

Uma das coisas que tenho como mais certas é que, como diz a autora, estes processos, esta jornada interior, implicam sabermos estar a sós connosco. Embora seja maravilhoso sentirmo-nos tão unidas a outras companheiras e companheiros, embora sejamos por natureza seres gregários, gostarmos da nossa própria companhia, sentirmo-nos seres completos e autónomos, encontrarmos a nossa própria voz, o nosso talento pessoal, os nossos dons especiais, é uma tarefa prioritária para nos sentirmos realizadas como seres humanos de pleno direito. E para isso precisamos de saber estar sozinhas. Héstia, a deusa da interioridade e do fogo sagrado, acompanhar-nos-á, se a invocarmos.

No meu caso ainda, como aconselha Nathalie Durel, evoco neste momento outro arquétipo – este já da cultura judaico-cristã –, Maria Madalena, a fim de que me ajude a actualizar em mim o arquétipo porventura mais debilitado, o arquétipo de Hera.

Maria Madalena é, segundo as palavras da autora, “uma referência do feminino, um apelo para que todas nós mulheres possamos relacionar-nos sem trairmos a nossa essência. Ela ensina-nos como sermos mulheres de poder e aceitarmos que o outro também o seja.”

Convém ainda não esquecer que, para nos sentirmos inteiras, à semelhança da Grande Deusa Primordial, todos os arquétipos, todas estas forças, devem ser igualmente valorizadas e activadas na nossa psique.

Queria ainda referir a forte ligação que podemos encontrar neste livro com o Método Louise Hay, especialmente quando se reafirma a necessidade de nos validarmos a nós mesmas, de nos amarmos e aceitarmos como somos, de cuidarmos de nós em primeiro lugar, de pararmos de querer obsessivamente dar aos outros antes de nos encontrarmos nós mesmas repletas e preenchidas. Paremos com o processo de desgaste e de anulação que tem sido a tónica dominante do feminino até agora.

E vou terminar com mais uma citação de O FEMININO REENCONTRADO:

“A nossa tarefa é a de reequilibrarmos com consciência a poderosa beleza do feminino e reencontrarmos a nossa Deusa Interior.”

Jardim da Rocheira, Estoril, 10 de Novembro de 2007


3 comentários:

Minita disse...

Parabéns pelo texto e pela tua peregrinação. Obrigada pelas chamadas de atenção e ensinamentos.

Cristina Ribeiro disse...

Querida Luiza,

Adorei o teu discurso que ficou muito bonito dito por ti.

Adorei o lançamento do livro, o ambiente bonito de pessoas que se juntaram para o evento neste local mágico, o Jardim da Rocheira. Adorei conhecer a Nathalie, que é um doce de pessoa e que estava tão feliz. O livro vou começar a lê-lo com muita atenção, e sei que vai ser um marco de mudança na minha vida. Aproveito para agradecer-te querida Luiza, porque foste tu que me falaste na Nathalie, no seu site e no seu trabalho. Vieste enriquecer um pouco mais a minha vida e dar-me a oportunidade de dar mais alguns passos na minha evolução.Obrigada pela tua generosidade, partilha e carinho. Um beijinho
Cristina Ribeiro

Luíza Frazão disse...

Obrigada, Cristina pelas tuas palavras. Foi de facto um momento muito bonito e muito intenso. Adorei.
Uma boa leitura e muitas e boas descobertas.