terça-feira, 16 de outubro de 2007

A Solidão Intencional

Arquétipo dominante: Héstia, a deusa do Lar e da interioridade...


«Para ter esse intercâmbio com o feminino selvagem, a mulher precisa de deixar temporariamente o mundo, colocando-se num estado de solidão – aloneness – no sentido mais antigo do termo. Antigamente, a palavra alone (só) era tratada como duas palavras, all one. Estar “all one” significava estar inteiramente em si, em sua unidade, quer essencial quer temporariamente. Ela é a cura para o estado de nervos em frangalhos tão comum às mulheres modernas, aquele que as faz “montar no cavalo e sair cavalgando em todas as direcções”, como o diz um velho ditado.

A solidão não é uma ausência de energia ou de acção, como acreditam algumas pessoas, mas sim um tesouro de provisões selvagens a nós transmitidas a partir da alma. Nos tempos antigos, a solidão voluntária era tanto paliativa quanto preventiva. Ela era usada para curar a fadiga e para evitar o cansaço.

Era também usada como um oráculo, como um meio de se escutar o self interior , a fim de obter conselhos e orientação que, de outra forma, seriam impossíveis de ouvir no burburinho do dia-a-dia.

As mulheres dos tempos antigos, assim como as mulheres aborígenes modernas, reservavam um local sagrado para essa indagação e comunhão. Tradicionalmente, diz-se que esse lugar era reservado para a menstruação, pois durante esse período a mulher está muito mais próxima do autoconhecimento do que o normal. A membrana que separa a mente consciente da inconsciente fica, então, consideravelmente mais fina. Sentimentos, recordações e sensações, que normalmente são impedidos de atingir a consciência, chegam ao conhecimento sem nenhuma resistência. Quando a mulher procura a solidão durante esse período, ela tem mais material a examinar.

Como na história, se fixarmos uma prática regular de solidão voluntária, estaremos propiciando uma conversa entre nós mesmas e a alma selvagem que se aproxima da terra firme. Agimos assim não só para “estar perto” da nossa natureza selvagem e profunda, mas, como na tradição mística desde tempos imemoriais, o objectivo dessa união é o de que nós façamos perguntas e de que a alma dê conselhos.

Como se pode invocar a alma? Há muitas formas: pela meditação, pelos ritmos da corrida, do toque de tambor, do canto, do acto de escrever, da pintura, da composição musical, de visões de grande beleza, da oração, da contemplação, dos ritos e rituais, de ficar parada e até mesmo de ideias e disposições de ânimo arrebatadoras. Tudo isto pode transformar-se em convocações psíquicas que chamam a alma da sua morada até à superfície.»

Clarisse Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos, Rocco

Imagem: gerard.beuchot.free.fr



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