sábado, 22 de setembro de 2007

ONDE FICA O EXÓTICO?

Hoje é sábado. Que bom! Levantei-me suficientemente cedo para praticar o meu ritual preferido neste dia da semana: depois de fazer a minha série de exercícios (sim!), vestir qualquer coisa leve e ir lá abaixo comprar o Público e o pão fresco para o pequeno-almoço. Depois gosto de me atardar à mesa da cozinha, bebendo o meu café e folheando devagar o jornal, tarefa em que uso de grandes cuidados, tentando evitar o cheiro a pólvora; uma ou outra bomba; ameaças de chefes de estado, muito sob pressão, muito à beira do ataque de nervos (Deus queira que não passe daí...). Penso em Um Curso em Milagres, por exemplo, que nos diz que tudo o que consideramos como real e ameaçador é mera interpretação nossa, e que é sempre possível ver as coisas de outra maneira (daí o conceito de milagre).

Ver as coisas de outra maneira em política, por exemplo, seria pensar antes de mais no bem-estar, no desenvolvimento do outro; querer para o nosso vizinho tudo aquilo que queremos para nós; preservar a vida acima de tudo. Alguns dirão que este raciocínio é infantil e utópico; mas será que tentar resolver conflitos à lei da bala é uma postura adulta?! Será adulto o fascínio pelo armamento, pela ameaça, conquista e sujeição de territórios e de almas, só para que a minha naçãozinha seja mais forte do que a tua? Não estamos já todos fartos de nacionalismos, de pátrias e de fronteiras? Preservar a nossa identidade própria não passa, quanto a mim, por aí...


Bom, mas adiante porque o que me interessa num jornal não é exactamente esta política. Interessa-me inspiração; interessam-me soluções criativas, positivas, conciliadoras, ideias arejadas. No P2 há uma autora por quem nutro uma especial admiração e que leio sempre em primeiro lugar: Catarina Portas. A sua rubrica chama-se Feira da Ladra, e inspira-se muitas vezes em velhos livros encontrados ao acaso das suas deambulações. Na foto de Catarina prevalece o seu lado menineiro e fresco de uma chefe de escuteiros. Mas o que ela escreve, e como escreve, depressa nos desengana (armadilhas dos nossos preconceitos...).

Vou agora transcrever a sua crónica deste sábado, 22 de Setembro de 2007:

“Onde fica o exótico?

Havia um tempo em que a distância era algo que se imaginava com alto grau de improbabilidade, a partir de farrapos de visões de viajantes incrédulos, espantados e muitas vezes apaixonados. A partir de objectos extravagantes de cabinets de curiosités conspicuamente coleccionados, relatos assombrados e assombrosos de viagens peregrinas ou desenhos, e depois fotografias, de paisagens e criaturas tão distantes e tão raras que se tornariam icónicas, sonhava-se. Fantasiava-se, portanto. A história do exotismo é antes de mais uma história de fascínio, misto de paixão e medo, pelo que é diferente de nós. Muito diferente e muito surpreendente.
A raiz do exótico é grega, e exotikos quer dizer isso mesmo: o que é exterior a nós, estrangeiro então. E há duas atitudes possíveis face a um mundo demasiado estranho e gente absolutamente diferente.
A primeira será a de tentar reconhecer semelhanças, reduzindo o novo ao já conhecido, forçando o encaixe dos elementos perturbadores num esquema familiar. Assim se estabelecem comparações, quantas vezes disparatadas e, frequentemente, deturpadoras da realidade. A outra postura, totalmente
diversa, será a de rejeitar a diferença, classificando-a como bárbara ou selvagem, porque desconhecida. Banindo o oposto, resguardam-se convicções, pisa-se terra firme e familiar. A consequência mais vulgar de tal atitude costuma ser impor aos outros a sua própria realidade e modo de ser. Digamos que desta segunda forma de olhar o outro nasceu o colonialismo e a outra, a primeira, deu origem a escolas como o orientalismo e interpretações afins, construções pretensamente científicas sobre o mundo dos outros (e porque as coisas nunca são simples, as relações entre um e outro foram frequentemente promíscuas, como tão bem analisou Edward Said).
Mas hoje, num mundo obcecado pela comunicação, nação universal em modo de export-import de imagens, modos de vida e todo o tipo de gadgets e bugigangas, onde fica o exótico? Na era do turismo, tornou-se uma paisagem cliché, que vai dos novos resorts das praias algarvias a qualquer outra praia onde tenha aterrado um charter neste planeta: um mesmo décor com mais ou menos palmeiras, uma mobília de verga filipina de design recurvado, pratos quadrados com iguarias minúsculas e rocambolescas e cocktails coloridos. O outrora exótico tornou-se definitiva e infalivelmente vulgar.
Agora a excitação já não é conhecer as Índias, pois se lá formos o que fazemos é sobretudo reconhecê-las. Talvez o estremecimento de descobrir algo novo e implausível se situe agora muito perto de nós, da nossa casa, de quem fomos e do que somos. Talvez o exótico, para as criaturas citadinas, cosmopolitas e abundantes que somos hoje, seja afinal uma sensação mais forte numa aldeia perdida de Trás-os-Montes, diante de uma paisagem serrana vertiginosa, abrigados em casas de materiais primitivos e misteriosos, deparando com palavras, técnicas, saberes e objectos que nunca conhecemos (e já quase perdemos). O exótico está em nós?”

(Catarina Portas, Público, 22/09/07)

- Catarina, a minha resposta é SIM.
Exótica será por excelência essa imensa parte de nós, a nossa psique (psykhe para os gregos), continente tão perdido de nós mesmos... Essas imensas partes submersas dos icebergs, que, segundo aqueles que tentaram mapeá-los e desbravá-los (como Jung e tantos outros) são os nossos inconscientes, o pessoal e o colectivo. Trata-se, ao que dizem, de fabulosos espaços com todos os ingredientes para cativar os amantes do turismo mais radical que se possa conceber...

Imagem: Indonésia, Java, Borobudur-Diana Vandenberg