sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ARTEMISA NA FLORESTA


COMUNICAR COM A TERRA INCÓGNITA

“A floresta era o reino da deusa grega Artemisa (a Diana dos romanos), deusa da Caça e da Lua. Artemisa é um arquétipo presente nas mulheres que são espiritualmente alimentadas pela Natureza-Mãe, e estão instintivamente sintonizadas com a sua própria faceta “silvestre”. Como arquétipo da deusa virgem, Artemisa é um espírito dedicado a si mesmo, independente. Muitas mulheres são Artemisa arquetipicamente, antes do duplo impacto da puberdade e do patriarcado as tornarem “donzelas sem mãos”. Ela é também um arquétipo encarnado: está na rapariguinha que trepa às árvores e pode ser ressuscitada por uma mulher que se torna outra vez activa fora de casa.

Somos incomodadas por qualquer faceta nossa que não seja olhada com bons olhos no nosso mundo, ou seja rejeitada por este, ou de que tenhamos vergonha, e é provável que amputemos em nós, se pudermos, seja o que for de desagradável para os outros, aquilo que eles achem inconveniente ou os perturbe. Essas são aquelas nossas facetas que não se desenvolveram ou que eliminámos, olvidámos e perdemos de vista, e, afinal, podem ser fontes de vitalidade e significado. Qualquer arquétipo que tenhamos eliminado em nós está vivo na floresta do nosso inconsciente. Como a única deusa que corre em ajuda da mãe, assim como vigia as crias de todas as coisas vivas, Artemisa como arquétipo representa a faceta da mulher que possui uma ligação genuína e profunda com a terra, e é capaz de agir por amor, apesar dos ultrajes, na protecção das florestas, animais, mulheres e crianças, do planeta e das partes vulneráveis de si mesma.

Robert Bly, em Iron John, incita os homens a reinvidicarem o arquétipo do homem selvagem (em contacto com a natureza), e Clarissa Pinkola Estés escreve acerca da reconexão com um arquétipo de mulher correspondente: são partes instintivas de nós próprias de que carecemos para estarmos totalmente vivos. Na meia-idade, o desejo que vem da alma de sermos reais para connosco contribui para as crises que criamos inconscientemente, quando não reconhecemos conscientemente que não nos sentimos vitais e autênticas. Há um ímpeto em nós para nos tornarmos uma pessoa integral, e quando perdemos tempo na floresta metafórica e na floresta real ou mundo natural, estamos expostas à possibilidade de reaver e desenvolver a nossa natureza instintiva, a nossa ligação espiritual com a Natureza e o nosso sentido de sermos unas com o universo.”

Jean Shinoda Bolen, Travessia para Avalon, Planeta Editora

Imagem: Diana Vandenberg

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